Amabília Almeida, na Comissãoda Verdade, lembra um tempo de
perseguições e torturas na Bahia/A TARDE

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DEU NO JORNAL A TARDE

Patrícia França

Alvo de repressão do regime militar instaurado no Brasil, onde se estima que cerca de 80 pessoas teriam sido perseguidas, presas e torturadas por agentes da ditadura, Feira de Santana (situado a 100 km de Salvador) será palco da primeira audiência pública da Comissão Estadual da Verdade (CEV), nesta quinta-feira, 30.

A comissão vai colher inicialmente os depoimentos de oito pessoas que, à época do golpe de 1964, foram vítimas da ditadura. A audiência vai acontecer no auditório do Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães, das 9h às 18 h.

Prestarão depoimento o vice-prefeito de Feira, Luciano Ribeiro, o economista Sinval Galeão, o professor Hosanah Leite, o contador Estevão Moreira, o ex-deputado federal Beraldo Boaventura, juiz aposentado Antonio Pinto, advogado Celso Pereira e Maria Ferreira de Santa Bárbara.

Fatos regionais

A educadora, ex-vereadora e ex-deputada estadual, Amabília Almeida, integrante da CEV, informou que o evento está sendo coordenado pela Comissão da Verdade de Feira de Santana, composta por representantes da Arquidiocese, OAB, Uefs, Sinjorba, ABI, Conselho de Igrejas Evangélicas e MOC (Movimento de Organização Comunitária).

Coube a esse grupo fazer o levantamento de forma regional dos fatos ocorridos nos anos que se seguiram ao golpe militar, explicou Amabília, que também chegou a perder os direitos políticos.

“As perseguições não ocorreram apenas em Feira, onde o então prefeito Chico Pinto resistiu, foi deposto do cargo e preso. Elas também ocorreram em municípios vizinhos, como Irará, Serrinha e outros municípios”, diz ela.

Integrante da ala autêntica do MDB e referência das esquerdas durante o regime militar, Chico Pinto foi cassado duas vezes: quando prefeito de Feira de Santana (1964) e como deputado federal (1974), por ter discursado no plenário da Câmara contra a visita do ditador Augusto Pinochet ao Brasil, a convite do general-presidente Ernesto Geisel.

Amabília Almeida lembra que as perseguições foram intensas em toda a região de Feira e na Bahia. Em Brotas de Macaúba, na Chapada Diamantina, diz ela, o ex-capitão Carlos Lamarca, que deserdou do Exército para aderir ao movimento revolucionário, foi assassinado, em 1971, numa grande operação militar na fazenda Buriti Cristalino.

Na ocasião foi morto o estudante Luiz Antonio Santa Bárbara, integrante do MR-8 , que, como Lamarca, cumpria a missão de organizar a resistência ao regime militar.

O economista Sinval Galeão, coordenador da Comissão da Verdade de Feira de Santana, é um dos que irão depor nesta quinta. Foi ele que, ainda estudante, criou a Frente de Mobilização Social de Reformas de Base – a grande bandeira de João Goulart que provocou resistências nas classes dominantes.

“Veio o golpe, fui preso e torturado por militares de uma tropa do Exército de Alagoas, que se deslocou para a cidade por pedido do general Juracy Magalhães”, lembra ele. “Mas não estamos buscando a revanche nem cobrando punição a ninguém. Queremos reconstituir os fatos históricos ocorridos entre 1964 e 1985, que têm poucos registros, sobretudo em Feira de Santana”.

O professor universitário Hosanah Leite, que era dirigente do Comitê do Partido Comunista (PCB) em Feira, lembra que foi detido com dez companheiros, em 1972, por agentes do DOI-CODI, órgão subordinado ao Exército, e da Polícia Federal.

“Fomos presos, recambiados para Salvador, alguns de nós, inclusive eu, torturados”, recorda, Hosanah, depois anistiado. Mais do que a dor da tortura física, compara ele, a tortura psicológica perdura por toda a nossa vida”.
Feirenses perseguidos durante a ditadura militar no Brasil

Luciano Ribeiro

Vice-prefeito de Feira pelo PMDB, militou ao lado do ex-prefeito de Feira, Chico Pinto, que era do velho MDB. Foi vereador e deputado estadual preso pelo regime militar

Sinval Galeão

Formado em Economia, era estudante à época do golpe e presidiu a Frente de Mobilização Popular Pelas Reformas de Base

Hosanah Leite

Ex-bancário, é economista e professor universitário. Foi dirigente do PCB, o Partidão, em Feira de Santana

Estevão Moreira

É contador. À época dos governos autoritários militava politicamente junto a sindicatos e entidades de classe

Beraldo Boaventura

Estudante no período da repressão, foi deputado federal e hoje atua na área de meio ambiente

Antonio Pinto

Irmão do ex-prefeito Chico Pinto, foi secretário municipal na sua administração. Atualmente é juiz aposentado

Celso Pereira

Assessor do governo de Chico Pinto, é advogado e presidente da Comissão dos Direitos Humanos da OAB de Feira de Santana

Maria Ferreira de Santa Bárbara

Mãe do estudante Luiz Antonio Santa Bárbara, integrante do MR-8, que foi morto em Brotas de Macaúbas junto com o capitão Carlos Lamarca
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