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CRÔNICA
Biografia, eu quero uma pra viver

Janio Ferreira Soares

Como eu sei que jamais terei minha história imortalizada pelas mãos de Ruy Castro, nem nunca a ouvirei sequer na voz de um violeiro cego num fim de feira (quem diabos iria se interessar pela vidinha besta de um velho desavergonhado da beira do rio?), estou só de boa, acompanhando os capítulos dessa novela protagonizada por artistas e escritores, cujo enredo, ainda que pareça tratar somente sobre invasões de privacidades, gira mesmo é em torno do bom e velho money – e outras mumunhas – que é o que interessa quando os envolvidos residem no oneroso e aprazível Leblon. Um breve resumo.

Gratos com a atitude de Roberto Carlos – que azeitou a perna e foi até Brasília discutir mudanças na lei de direitos autorais, e ainda se deixou fotografar ao lado de parlamentares com cabelos amarronzados e trejeitos de negros gatos de arrepiar -, alguns artistas (Caetano, Chico e Gil à frente) resolveram apoiá-lo na sua incansável luta contra biografias não autorizadas e criaram o grupo Procure Saber, que tem como porta-voz oficial a empresária Paula Lavigne.

A partir daí ela começou uma ladainha do tipo “de-agora-em-diante-se-não-pintar-um-dízimo-eu-não-deixo-mais-ninguém-saber-o-que-Caetano-fazia-às-margens-do-Subaé-antes-de-andar-por-aí-a-se-perguntar-se-era-neguinha-nem-o-que-aconteceu-com-Gil-quando-a-paz-explodiu-no-seu-coração-como-uma-bomba-sobre-o-Japão-ou-qual-foi-a-reação-de-Chico-depois-que-a-Rita-levou-seu-sorriso-sua-imagem-de-São-Francisco-e-um-bom-disco-de-Noel”.

Mas a maior surpresa da trama é ver a ex-senhora Veloso assumindo um papel que já foi, dentre outras, de Odete Roitman (sem o charme de Beatriz Segall, diga-se), embora ela tenha mais a ver com dona Solange Hernandes, aquela censora que muito antes de Johnny Depp dar vida a Edward, Mãos de Tesoura, já as usava à mancheia para picotar as músicas desses mesmos ídolos, que até ontem viviam cantando canções iluminadas de sol e soltando leões nos quintais, e hoje vivem nas salas de jantar com a boca cheia de dentes esperando a grana (e a morte) chegar.

Janio Ferreira Soares, cronista,é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

regina on 26 outubro, 2013 at 17:29 #

Agora mesmo estou terminando de ler a biografia do Paulo Leminski, “O bandido que sabia latim” de autoria do Toninho Vaz, que explica muita coisa da nossa geração, aprovo sem tirar nada, nadica!!!!!
Ter controle sobre o que pode ser dito ou nao dito é coisa de babaca!!!


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