Lobato, subúrbio de Salvador: primeiro
poço de petróleo e mesmo abandono
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Dilma na TV: Libra, novos sonhos e promessas

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ARTIGO DA SEMANA

De Lobato a Libra: Petróleo, sonhos e enganos

Vitor Hugo Soares

Preparo-me para acompanhar mais um capítulo da novela “Sangue Bom”. Depois de terminado o leilão para exploração do campo petrolífero de Libra. Espetáculo com imagens para exibição nacional e mundial, promovido com o máximo de requinte no Rio de Janeiro, no começo da semana. Bélico território minado de soldados, armas, munição pesada, protestos e desconfiança por todo lado, dentro e fora do hotel de luxo onde foi arrematada, em lance único de um consórcio multinacional, a jóia mais preciosa do Pré-sal.

Consumado o ato envergonhado de privatização, política e financeiramente falando, resta, como terapia de relaxamento, acompanhar mais um capítulo do folhetim da TV Globo, a caminho do desfecho, repartido em cenas de romance, tensão e escracho.

Nem de longe esperava (confesso a minha desinformação neste caso) o momento “porque me ufano do meu país”, estrelado pela presidente Dilma Rousseff. No meio do drama de Bento e Amora (além de Malu/Maurício, Geane/Fabinho, personagens da novela) abre-se a pausa, em geral reservada à propaganda dos produtos e das empresas anunciantes. No lugar destes, aparece a esfuziante e otimista imagem da presidente da República, “toda trabalhada” – como diria tio Lili, outro personagem de Sangue Bom – na antecipação de campanha aberta pela reeleição em 2014, discursando em rede nacional, sobre o negócio da China que o seu governo acabara de celebrar.

Mas, principalmente, para propagandear em retórica candente e bem mais própria dos palanques de campanhas eleitorais, sobre sonhos, “maravilhas” e novas promessas de futuro luminoso na educação e na saúde, desenvolvimento social e fim da pobreza que se eterniza. Tudo confiado na aposta do trilhão de reais, que o governo e seus propagandistas anunciam esperar, da exploração do “ouro negro” guardado “por Deus e pela natureza”, no mais profundo do mar da Bacia de Libra e do Pré-sal.

Na cidade da Bahia, enquanto aguardo o recomeço da novela, escuto com atenção o fraseado e a postura da presidente Dilma na TV. Texto atraente e caprichado, seguramente produzido por quem sabe escrever bem e entende um bocado de marketing político.

Lembro de repente: Estou a poucos quilômetros do bairro de Lobato, no pobre e relegadosubúrbio ferroviário de Salvador, onde foi descoberto o primeiro poço de petróleo do país, ponto pioneiro de partida da exploração nacional de óleo e gás. Reserva de miragens, projetos improvisados de salvação econômica e social da Bahia e do Brasil, além de deslavada corrupção e desvios do dinheiro dos royalties. Sem falar nas eternas e desenfreadas promessas repetidas e não cumpridas (basta ver a miséria de hoje no bairro do Lobato) nos palanques de sucessivas eleições e governos, de esquerda, centro ou direita. Nas esferas federal, estadual e municipal.

Apesar da distância no tempo, entre o poço baiano, onde o óleo jorrou pela primeira vez em 1939, e o campo do pré-sal, em águas profundas do mar paulista, fluminense e capixaba, Lobato e Libra guardam enormes semelhanças.

A começar pelas “coincidências” de sonhos, promessas e enganos, que no caso nordestino apresentavam “a Bahia do Petróleo, Cacau e Paulo Afonso”, como espelho, ou Eldorado, e Lobato como protótipo “do Brasil novo, com educação, saúde e desenvolvimento econômico e social que então surgia”. Era, na época, a cantilena dos discursos dos políticos e da propaganda dos governos da Bahia e do País.

Vale uma leitura comparativa mais detalhada dos jornais daquele tempo e dos livros de história econômica e política do Brasil. Mais recentemente, lembro de ter escrito e publicado considerações sobre o tema neste espaço de informação, memória e opinião. Peço permissão para reproduzir neste sábado pós-leilão de Libra, o que escrevi em 19 de setembro de 2009.

“No começo, há mais de 10 anos, Lula descobriu o enorme potencial nordestino como fonte decisiva de votos em disputas presidenciais. Na Bahia, como nos tempos pioneiros da exploração de petróleo na área suburbana de Lobato (pobre e abandonada hoje como sempre), o ex-líder metalúrgico do ABC paulista, fundador do PT, desenvolveu longo, largo e paciente trabalho de prospecção política, nem sempre com resultados favoráveis. Mas acabou descobrindo reservas eleitorais tão abundantes para ele quanto as do óleo do Pré-sal, no qual o mundo inteiro anda de olho ultimamente”.

Depois de explorado e praticamente esgotado todo óleo e gás do solo baiano, com os resultados que se conhecem, a presidente dá sinais evidentes de que seguirá na trilha do principal responsável por sua chegada no cume do poder, onde pretende permanecer por mais quatro anos, a partir de 2014.

Agora prospectando as “reservas” de Libra e do Pré-sal. Incomparavelmente maiores que as dos campos baianos do tempo da campanha “O Petróleo é Nosso” e outras. Em Lobato, restou a memória viva de outra época e sonhos e ilusões perdidas, preservada na placa de cimento da praça comemorativa de descoberta e começo da exploração do petróleo no Brasil. Em geral, mal iluminada e cercada de mato e abandono do poder público por todos os lados.

A conferir

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta.

E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

vangelis on 26 outubro, 2013 at 1:42 #

Pois é, né VHS. Lembrando Lobato no samba do crioulo doido, Pinóquio inventou Narizinho que adora comer jabuticabas e inventar reinações enquanto a patuleia recebe a bolsa cheia de bolinhos de polvilho de Tia Anastácia. Valei-me Santo Stanislaw…


Hugo Siqueira on 13 novembro, 2013 at 9:45 #

“LEILÃO PORTUGUÊS” ÀS AVESSAS
Foi uma réplica do “leilão português” às avessas: pagou mais bônus e leva menos óleo ao contrário do “leilão Português em que o lusitano paga menos para fazer o serviço (carregar o piano)**. No caso o único consórcio vencedor, que esperou o último instante para apresentar proposta, evitando assim a chegada de outro concorrente inesperado.
Quem mais perdeu foi o leiloeiro: a Petrobras teve que pagar mais 10% de bônus para que as grandes empresas europeias – SHELL E TOTAL– fizessem a finesa de fazer parte do consórcio solitário. Ruim desse jeito até Stalin faria.
** Presta o serviço aquele que ofertar o menor preço daí o nome “leilão português”.
EXPLORAÇÃO a PRAZO DO PRÉ-SAL
A melhor forma de explorar petróleo é como faz Cuba: durante décadas da guerra fria “extraía” petróleo da antiga URSS. Com a perda do fornecedor, depois da queda do ‘muro’ passou “extrair” petróleo da Venezuela em troca de médicos. E o Brasil talvez possa substituir a Venezuela – agora em dificuldades – com fornecimento de petróleo do Pré-sal em troca de médicos. Não só médicos como mecânicos e funileiros, atividade na qual os cubanos são especialistas.


Hugo Siqueira on 13 novembro, 2013 at 9:51 #

“O Petróleo é Nosso”
É preciso esclarecer que Monteiro Lobato nunca foi favorável a exploração de petróleo poe empresas estatais.


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