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Catherine Deneuve:no tapete vermelho da fama em Cannes

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DEU NO ESTADÃO

Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

Em sucessivas entrevistas com o repórter do Estado, Catherine Deneuve( 70 anos completados anteontem, 22/10) repetiu que a carreira de atriz parecia traçada para ela e a irmã. Filha de dois atores – de teatro e cinema –, Catherine Fabienne Dorleac estreou em 1955 com um filme que havia sido feito dois anos antes, Les Colegiennes. A irmã, Françoise Dorleac, que também adotara o sobrenome do pai, adquiriu certa notoriedade antes que ela e Catherine trocou de nome, adotando o sobrenome da mãe para virar confusão. Seu primeiro papel de destaque foi como heroína de Sade, num filme dirigido pelo então marido, Roger Vadim. O Vicio e a Virtude, adaptado durante a ocupação da Franca pelos nazistas, chamou a atenção para a loira angelical que, logo em seguida, estrelou o musical Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy, Catherine Deneuve completa hoje, 22 de outubro, 70 anos. Pode ter engordado um pouco, o que é comum na idade, mas não perdeu a forma. Continua sendo um sinônimo de classe. E uma imagem tao duradoura da cultura francesa como a moda e o vinho.

Loira, bela, com cara de anjo. Foi assim que ela se impôs, no começo. Mas havia algo de duro naqueles olhos. Já se percebia no musical de Demy, em que ela cantava para o amado (Nino Castelnuovo) que o esperaria para sempre, quando ele ia para a guerra. Ao voltar da Argélia, ele a encontrava casada e burguesa. Demy a dirigiu outras vezes, inclusive em Duas Garotas Românticas, em que ela dividia a cena com a irmã. Francoise morreu num acidente de carro e Catherine durante anos evitou falar sobre o assunto, principalmente com a imprensa. Entre os dois Demys, ela fez Repulsa ao Sexo com Roman Polanski, no papel de uma manicure que ingressa num mundo paralelo de perturbação mental. Outro papel de mulher não confiável, como o que lhe confiara Demy. Catherine saiu-se tão bem no papel que Luis Buñuel a chamou para ser a sua Bela da Tarde. Foi o filme que revelou a nova Catherine.

Severine, a burguesa, leva uma vida respeitável de mulher casada, mas a tarde se prostitui no bordel de Madame Anais. O filme esculpiu sua fama de loira fria. Ela teria sido uma atriz hitchcockiana perfeita, mas o mestre do suspense nunca a chamou. Seu discípulo François Truffaut, sim, e Catherine fez com ele A Sereia do Mississippi, em que destruía a vida do burguês Jean-Paul Belmondo. Com Truffaut fez também O Ultimo Metrô, sobre uma companhia de teatro na Franca ocupada. E voltou a filmar com Buñuel – Tristana, adaptado do romance de Perez Galdos.

Sua carreira é marcada por grandes êxitos e parcerias constantes – com autores como Andre Téchiné e com atores como Gerard Depardieu. O último filme que os dois fizeram juntos foi Potiche, a Esposa Troféu, de François Ozon. Filmou até em Hollywood, em inglês, com um grande como Robert Aldrich. Contracenou com outros grandes como ele – Mastroianni, claro, e Belmondo, Alain Delon, John Malkovich, Jack Lemmon, Vincent Perez. Vestida por Saint-Laurent, virou um dos emblemas do tapete vermelho de Cannes. Casou-se três vezes – com Vadim, o fotógrafo David Bailey e Marcello Mastroianni. Com o último, teve a filha Chiara Mastroianni. Como ela própria, Chiara seguiu a carreira de atriz, mas não era boa, no começo. Com o tempo, Chiara adquiriu uma beleza mais grave e uma verdadeira personalidade de atriz. Christophe Honore, com quem fez as Bem-Amadas, brincou dizendo que não havia chamado o mito Deneuve para o filme, mas a mãe de sua amiga Chiara.

Em Cannes, 2008, ela mostrou seu centésimo filme, Conto de Natal, de Arnaud Desplechin, e ganhou uma Palma de Ouro especial por sua carreira. Aos 69 anos, não se tornou uma senhora respeitável e, em fevereiro, participou da competição de Berlim com Elle sen Va. A história de uma mulher madura abandonada pelo amante e que cai na estrada. Arranja outro amante ocasional, e o cara vai com ela para a cama seduzido pelo que – chega a dizer – deve ter sido a sua beleza na juventude. Catherine, na sequência, encontra o neto. Não teve problema nenhum em fazer a cena nem em assumir a idade. Era o que havia de atraente no papel, disse ao repórter. De certos filmes, a gente diz que se tornam clássicos e que a idade caio bem neles porque o tempo os respeita. Catherine, aos 70, continua uma belle femme. Um mito? Apenas uma mulher, ela prefere se autodefinir.

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