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OPINIÃO POLÍTICA

Vândalos, cretinos e polícia

Ivan de Carvalho

As manifestações populares de rua ocorridas mais intensamente em junho e que, embora com dimensões bem menores e em defesa de interesses mais específicos, continuam ocorrendo, criaram o fenômeno dos “vândalos” brasileiros.

Os vândalos históricos era uma tribo germânica oriental que, no século V, penetrou no Império Romano e criou um estado no norte da África, ocupando a estratégica Cartago, uma antiga cidade fenícia que Roma conquistara ao fim das chamadas Guerras Púnicas. Cartago tornou-se o centro do estado dos vândalos e sua localização às margens do Mediterrâneo permitiram que eles, sem demora, saqueassem Roma no ano de 455. Foi um passo importante para, poucos anos mais tarde, acontecer a queda do Império Romano do Ocidente.

Então, por causa dessa ação contra Roma, a palavra vândalo ganhou, principalmente nas áreas que integrara, o Império Romano, essa conotação que tem hoje e que a mídia propaga amplamente quando um grupo de idiotas, geralmente ao fim de uma manifestação pacífica de rua, surge com suas máscaras, rojões, coquetéis molotov, botoques e bolas de gude (estas atingem pessoas, quebram vidros e derrubam cavalos), pedaços de pau e ferro para depredar lojas, carros policiais ou particulares, ônibus, agências bancárias, prédios públicos.

Com isso eles realmente merecem a qualificação (ou desqualificação) de vândalos, assim como a civilização cretense, numa fase em que empreendeu a conquista militar de alguns povos, criou para o vocabulário português a palavra depreciativa cretino (derivativo maldoso de cretense) e hoje, no país, tantos existem agindo de modo a merecerem tal desqualificação. Na verdade, parece haverem tantos cretinos no pedaço que os vândalos, apesar de seus apetrechos de luta, apanharão vergonhosamente, caso cometam mais uma insanidade – no que parecem viciados – a de enfrentar os cretinos. E estes vencerão fácil sem precisar dar um tapa sequer. Os cretinos são espertos e muito mais numerosos, e eficazes que os vândalos.

Enquanto os vândalos agem, a sociedade troca a disposição de junho para participar das manifestações e se retrai, com receio de ser involuntariamente envolvida pela violência dos conflitos entre os vândalos e a polícia, parece que sempre disposta a deixar que o quebra-quebra comece para intervir com o atraso que garante as cenas de violência que a mídia deve transmitir, cenas que os cretinos, em seus gabinetes, adoram.

Mas essas considerações sobre vândalos – na qual os espertos cretinos pegaram carona – são feitas a propósito da tese de que as polícias militares devem ser desmilitarizadas. Desmilitarizadas, como? Quando os vândalos – que certamente preferem e se deliciam ao serem chamados pela mídia de Black blocs (grande porcaria, mas, idiotas, eles não sabem) – partirem para a depredação ampla, geral e irrestrita, utilizando todo o arsenal que têm usado e mais o que ainda inventarem, vão ser enfrentados por guardinhas com aqueles cassetetes comparativamente inofensivos.

Incrível é que o ministro da Defesa, Celso Amorim, questionado sobre a desmilitarização das PMs, disse que não é especialista no assunto (um bom motivo para pedir demissão do cargo, já que se não entende de polícia, não será de exército, marinha e aeronáutica que vai entender).

Ele, que talvez devesse ter nascido na bela ilha grega de Creta, permitiu-se ainda dizer o seguinte: “Acho que algum tipo de polícia há que existir. O fato de ser militarizada ou não, se é melhor ou pior, confesso que nunca dediquei tempo suficiente para isso”, vale dizer, para estudar isso. Disse isso a uma plateia lotada de estudantes, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, quando foi animadamente vaiado. “É normal discutir, mas eu não sei. Dar minha opinião agora seria leviano”.

Não vai dar a opinião dele nunca. Vai esperar que a presidente da República fale ou lhe diga a opinião dela para ele falar.

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