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Postado em 12-10-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 12-10-2013 11:08

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CRÔNICA

O Céu dos meus heróis

Janio Ferreira Soares

Embora entenda não haver coisa alguma após a morte, gosto de imaginar situações para aqueles que se foram e que, de certo modo, fazem parte da minha história. Por esses dias mesmo, depois que fiquei sabendo do falecimento do ator Giuliano Gemma, idealizei um lugarejo no Velho Oeste onde bandidos e mocinhos jogam pôquer num saloon esfumaçado, enquanto dançarinas gordinhas sacodem as pernas ao som de um boogie-woogie tocado por um pianista manco. Lá fora, a ventania do fim de tarde arrasta garranchos em direção à silhueta de um caubói que parece flutuar na poeira alaranjada do entardecer de Yelowstone.

Atraído pela música, Giuliano desce do cavalo, amarra-o num tronco de um umbuzeiro em flor (lembre-se que o lugar é de quimera) e empurra a meia-porta com o cano de seu Winchester. Depois de uma generosa dose de bourbon, ele faz a inevitável pergunta dos que chegam ao desconhecido: “então é pra cá que vêm os bons, os maus e os feios depois que partem, não é mesmo…?” “Montgomery, senhor”, diz o barman com uma toalha no pescoço, ao tempo em que risca um fósforo para reacender um toco de charuto que o vento apagou.

De repente ouve-se um grito vindo do mezanino: “Ringo, seu muchacho de uma figa!”. Da escada de madeira desce um baixinho com um sombreiro bordado na cabeça e um crucifixo da Virgem de Guadalupe pendurado no pescoço. “Fernando Sancho, seu guapo safado, quanto tempo! A última vez que te vi estavas de ceroula correndo das balas do meu colt”. Sancho solta uma daquelas gargalhadas que parecem marinadas no deboche e pede ao barman uma garrafa de tequila, “daquela que matou Cantiflas”. É hora de beber o morto.

“Acendam o fogo e queimem a carne, hombres”, ordena Sancho do alto de sua pose de um velho bandoleiro. A fumaça atrai Bob Marley e amigos que, mesmo habitando numa célula paralela, aparecem para cantar I shot the Xeriff, a favorita de John Wayne, que com uma estrela de seis pontas pendurada no peito convida Elizabeth Taylor para um trago no estábulo, “sem querer ofender o Burton, please!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio Sâo Francisco

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Comentários

Luiz Gonzaga Do Penedo on 21 novembro, 2013 at 22:47 #

Suas crônicas são o deleite de cada um de seus leitores. Grande abraço. Luiz da serra do Penedo


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