=======================================================


CARTA ABERTA A CAETANO

BENJAMIN MOSER
ESPECIAL PARA A FOLHA

Caro Caetano,

Nos EUA, quando eu era menino, havia uma campanha para prevenir acidentes na estrada. O slogan rezava: “Amigos não deixam amigos bêbados dirigir”. Lembrei disso ao ler suas declarações e as de Paula Lavigne sobre biografias no Brasil. Fiquei tão chocado que me sinto obrigado a lhe dizer: amigo, pelo amor de Deus, não dirija.

Nós nos conhecemos há muitos anos, desde que ajudei a editar seu “Verdade Tropical” nos EUA. Depois, você foi maravilhoso quando lancei no Brasil a minha biografia de Clarice Lispector, escrevendo artigos e ajudando com o alcance que só você possui. Admiro você, de todo o coração.

E é como amigo e biógrafo que te escrevo hoje. Sei que você sabe da importância de biografias para a divulgação de obras e a preservação da memória; e sei que você sabe quão onerosos são os obstáculos à difusão da cultura brasileira dentro do próprio Brasil, sem falar do exterior.

Fico constrangido em dizer que achei as declarações suas e da Paula, exigindo censura prévia de biografias, escandalosas, indignas de uma pessoa que tanto tem dado para a cultura. Para o bem dessa cultura, preciso dizer por quê.

Primeiro, achei esquisitíssimo músicos dizerem que biógrafos querem ficar com “fortunas”. Caetano, como dizem no Brasil: fala sério. Ofereço o meu exemplo. A biografia de Clarice ficou nas listas de mais vendidos em todo o Brasil.

Mas, para chegar lá, o que foi preciso? Andei por cinco anos pela Ucrânia, pela Europa, pelos EUA, pesquisando nos arquivos e fazendo 257 entrevistas. Comprei centenas de livros. Visitei o Brasil 12 vezes.

Você acha que fiquei rico, depois de cinco anos de tais despesas? Faça o cálculo. A única coisa que ganhei foi a satisfação de ver o meu trabalho ajudar a pôr Clarice Lispector no lugar que merece.

Tive várias vantagens desde o início. Tive o apoio da família da Clarice. Publico em língua inglesa, em outro país. Tenho a sorte de ter dinheiro próprio. Imagine quantos escritores no Brasil reúnem essas condições: ninguém.

Mas a minha maior vantagem foi simplesmente ignorância. Não fazia ideia das condições em que trabalham escritores e jornalistas brasileiros. Não sabia o quanto não se pode dizer, num clima de medo que lembra a época de Machado de Assis, em que nada podia ofender a “Corte”.

Aprendi o quanto ganham escritores, jornalistas e editores no Brasil, e quanto os seus empregos são inseguros e como são amedrontados por ações jurídicas, como essas com que a Paula, tão bregamente, anda ameaçando.

É um tipo de censura que você talvez não reconheça por não ser a de sua época. Não obriga artistas a deixarem o país, não manda policiais aos teatros para bater nos atores. Mas que é censura, é. E mais eficaz do que a da ditadura. Antes, as obras eram censuradas, mas existiam. Hoje, nem chegam a existir.

Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Para só falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?

Eu queria fazer. Mas não vou. Porque o clima no Brasil, financeiro e jurídico, torna esses empreendimentos quase impossíveis. Quantos escritores brasileiros estão impedidos de escrever sobre a história do seu país, justamente por atitudes como as suas?

Por isso, também, essas declarações, de que o biógrafo faz isso só por amor ao lucro, ficam tão pouco elegantes na boca de Paula Lavigne. Toda a discussão fica em torno de nossas supostas “fortunas”.

Você sabe que no Brasil existem leis contra a difamação; que um biógrafo, quando cita uma obra ainda com “copyright”, tem obrigação de pagar para tal uso. Não é diferente de você cantar uma música de Roberto Carlos. Essas proteções já existem, podem ser melhoradas. Mas falo de algo bem diferente do que você está defendendo.

De qualquer forma, essas obsessões com “fortunas” alheias fazem parte de um Brasil do qual eu menos gosto. Une a tradicional inveja do vizinho com a moderna ênfase em dinheiro que transformou um livro, um disco, uma pintura em “produto cultural”.

Não é questão de dinheiro, Caetano. A questão é: que tipo de país você quer deixar para os seus filhos? A liberdade de expressão não existe para proteger elogios. Disso, todo mundo gosta. A diferença entre o jornalismo e a propaganda é que o jornalismo é crítico. Não existe só para difundir as opiniões dos mais poderosos. E essa liberdade ou é absoluta, ou não existe.

Imagino, e compreendo, que você pense que está defendendo o direito dos artistas à vida privada. Mas quem vai julgar quem é artista, o que é vida privada e sobre quem ou o que se pode escrever? Você escreve em jornal. Como o artista deve fazer, tem se metido no debate público. Sarney, da Academia Brasileira das Letras, escreve romances. Deve ser interditada também qualquer obra crítica sobre ele, sem autorização prévia?

Não pense, Caetano, que o seu passado de censurado e de exilado o protege de vocêse converter em outra coisa. Lembre que o Sarney, quando eleito governador do Maranhão, chegou numa onda de aprovação da esquerda.

Não seja um velho coronel, Caetano. Volte para o lado do bem. Um abraçaço do seu amigo,

Benjamin Moser

Benjamin Moser é autor de “Clarice” (Cosac Naify)

Be Sociable, Share!

Comentários

vangelis on 10 outubro, 2013 at 11:22 #

“Cai no areal na hora adversa que Deus concede aos seus
para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos
que são Deus.
Que importa o areal, a morte, a desventura, se com Deus
me guardei
É o que me sonhei, que eterno dura e esse que regressarei…” http://www.youtube.com/watch?v=EeBa5AGBCkc#t=38


regina on 10 outubro, 2013 at 15:25 #

Quem disse “dessa agua não beberei”??????
Estou pasma com os últimos acontecimentos!!!! Às vezes penso que não estou entendendo o que leio…
Et tu, Brute?


regina on 10 outubro, 2013 at 15:37 #

regina on 10 outubro, 2013 at 15:56 #

Há quase duas décadas, no patético episódio da censura ao filme “Je vous salue, Marie” (Eu Vos Saúdo, Maria) de Jean-Luc Godard, poucos meses após a então Nova República de José Sarney ter anunciado o fim da mesma no Brasil, Roberto Carlos e Caetano Veloso estavam em campos opostos. Agora, na questão das biografias não autorizadas cantam afinados, pedindo a manutenção de uma lei caduca e obscurantista. Por mais que o Procure Saber (grupo que une nessa e noutras causas Roberto, Caetano, Chico, Erasmo, Djavan…) tente desvincular, há, sim, censura na forma como a atual legislação tem sido aplicada, tirando das livrarias livros corretos, éticos. Países como EUA, Reino Unido, Espanha, França são mais coerentes, permitindo biografias não autorizadas, sempre cabendo o recurso de ir brigar na Justiça.

Voltemos, portanto, ao episódio que é relembrado em detalhes na ótima e proibida (retirada das livrarias a pedido do cantor, amparado na legislação vigente) biografia “Roberto Carlos em detalhes”, que Paulo Cesar de Araújo lançou em 2006 após uma década de trabalho. Roberto aplaudindo em fevereiro de 1986 o ato presidencial, em trecho que tiro do livro: “Não vi e não gostaria de ver. Sou contra esse tipo de filme que mexe com divindades. Acho que deve haver respeito para com a Virgem Maria. Pelo que li sobre o filme estou de acordo com o presidente Sarney sobre sua proibição”. Caetano, então ainda fiel ao lema “É proibido proibir” (que o empresário e avant la lettre marketeiro da Tropicália Guilherme Araújo lera nas muros de Paris e sugeriu virar música), rodou a baiana contra a achismo de RC. Num artigo na “Folha de S. Paulo”, que Araújo também transcreve trechos, Caetano defendeu o filme que assistira meses antes e disparou: “ O telegrama de Roberto Carlos a Sarney envergonha a nossa classe. (…) Vamos manter uma atitude de repúdio ao veto e de desprezo aos hipócritas e pusilânimes que o apóiam”.

Nesse momento, pode ser conveniente para Roberto e Caetano que o livro de Araújo esteja fora das livrarias, mas o episódio de “Je vous salue, Marie” foi amplamente noticiado e atualmente nem precisamos sair de casa para fazer uma busca nos arquivos digitais da grande imprensa. Em relação à proibição da biografia, o que mais me espantou na época foi a visão curta de Roberto e seus assessores, afinal, “Em detalhes” beira a chapa-branca. É biografia feita por fã e bom pesquisador e jornalista, pouco avançando em questões constrangedoras para o personagem. Em alguns momentos, até sai em sua defesa (mesmo que para isso jogue lama meio a esmo num monte de “vários outros”): “Uma outra questão que gerava patrulhamento sobre Roberto Carlos era a participação em eventos cívicos durante a ditadura militar. Mas, na verdade, a maioria dos artistas da MPB fez isso durante aquele período. Entre esses, vimos Elis Regina, Jair Rodrigues, Jorge Ben, Zé Kéti, Wilson Simonal, Ivan Lins, Marcos Valle, Elizete Cardoso, Emilinha Borba, Ângela Maria, Os Mutantes, Os Incríveis, Luiz Gonzaga, Ronnie Von, Cauby Peixoto e vários e vários outros”.

Em tempos de Comissão da Verdade, se forem mexer nesse vespeiro… O que me lembrou, sem que consiga me desvencilhar do tema que me tira da música, da ótima série de reportagens Aloy Jupiara e Chico Otávio desta semana n’O Globo mostrando a parceria dos chefões do jogo do bicho carioca com a repressão da ditadura militar nos anos 70 e 80. Entre eles, Aniz (Anísio) Abrãao David, o também presidente de honra da Beija-Flor, a escola de samba de RC, a quem vimos no cassino do cruzeiro “Emoções” de fevereiro de 2008. Na época, de férias no jornal no qual trabalhava, após consultar meu chefe imediato, aceitei o convite e fiz uma crônica no blog que eu mantinha sobre a experiência daqueles quatro dias.

http://g1.globo.com/musica/antonio-carlos-miguel/platb/2013/10/10/je-vous-salue-censure/


regina on 10 outubro, 2013 at 21:46 #

jader on 11 outubro, 2013 at 9:36 #

Não devia ser proibido
Data: 10 out 2013
Por: Serena Assumpção
Categorias: Anelis Assumpção, Beto Villares, biografia, Cartola, Clementina de Jesus, Geraldo Filme, Itamar Assumpção, João da Baiana, literatura, memória, MPB, Naná Vasconcelos, Nelson Cavaquinho, Paulo Lepetit, Rogério Velloso, Serena Assumpção, Wilson Baptista
Comentário: 0
Desde a morte de meu pai, Itamar Assumpção, em 2003, eu e minha pequena família de mulheres estamos articulando, orientando, organizando e disponibilizando ao público seu legado musical, baseadas, principalmente, no que absorvemos do pensamento artístico de Itamar.

7898444700418itamar_assump_o2Algumas ações executadas foram fundamentais para que esse processo se consolidasse com força: o lançamento do disco gravado com Naná Vasconcelos, Isso Vai Dar Repercussão, em 2004, um ano após sua morte, e o Livro de Canções e Histórias de Itamar – Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes? ”, em 2006. Nesse mesmo ano, começamos as negociações com o Selo Sesc, na tentativa de viabilizar aquele que é o box com toda a discografia de Itamar remasterizada, e mais dois discos de músicas inéditas. A Caixa Preta (à dir.) foi lançada em 2010.

Os discos inéditos, chamados Pretobras 2 – Maldito Vírgula e Pretobras 3 – Devia Ser Proibido, produzidos por Beto Villares e Paulinho Lepetit, respectivamente, encerram a trilogia imaginada por Itamar e iniciada com Pretobras – Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes, em 1998 – muito antes do ano do lançamento da Caixa Preta. Como compositor compulsivo e artista disposto ao trabalho que era, ele deixou as músicas prontas e registradas em diversos lugares.

Finalmente, no ano de 2011, foi lançado o longa-documentário Daquele Instante em Diante, que esteve em cartaz por cerca de 40 dias – sem cobrança de ingresso – em todas as salas Itaú-Unibanco do Brasil. O filme, sucesso de público e crítica, continua a ser exibido eventualmente e gratuitamente. Há pouco, o diretor, Rogério Velloso, num movimento arrojado e corajoso, disponibilizou o filme na rede de computadores. Declaro que essa movimentação foi apoiada por mim e por minha família, já que acreditamos no conhecimento e na informação livres, assim como deveriam ser livres – inclusive da burocracia – TODAS as formas de expressões artísticas.

Ao pensar em uma provável biografia de meu pai, obviamente tenho como ideal a situação de estarmos (as herdeiras) acompanhando o processo de escrita, inclusive para contribuirmos com a verdade fundamental – e a não-fundamental – de sua história. Sem sombra de dúvidas, reunimos elementos informativos e afetivos de extrema relevância para o mínimo de entendimento sobre o artista e sua obra. Especialmente minha mãe, Elizena, esposa e companheira de Itamar em seus últimos 35 anos de vida.

No entanto, e talvez por considerar demais improvável a possibilidade de algum biógrafo começar a trabalhar num projeto literário sobre Itamar Assumpção sem antes passar por essas três humanidades primordiais – eu, Zena e Anelis –, considero qualquer tipo de restrição e impedimento jurídico/financeiro/institucional (emoldurados pela forma mais primitiva do capitalismo) ao legado cultural deixado por Itamar – e por outros fazedores de arte – de uma cafonice que só é possível mesmo encontrar no Brasil de meus deuses baianos! Esse monopólio de ações e maniqueísmos na área dita “cultural”é absurdamente retrógrado e obtuso.

É importante que se saiba que as ações de continuidade, derivadas do trabalho de uma vida inteira de Itamar, merecem e precisam de afirmações e revistas constantes e, sim, esperamos e estamos obtendo com elas todo o respaldo financeiro que não apenas nos fora dado por direito legal, mas principalmente, fortemente confiados por meu pai durante toda a sua vida.

Ora. Por que abriríamos mão do mais importante fio condutor da postura artística de Itamar, exatamente essa dignidade e esse sentido de justiça-equilíbrio, incontestes?

Por isso, pessoalmente, não apóio nenhuma vertente de censura. Ainda mais essa que deselegantemente tem se apresentado, a censura reacionária. Aprendi bem pequena que nem tudo o dinheiro compra – ou compra o suposto pequeno poder. Não compram, por exemplo, a memória de um artista talentoso. Não compram o trânsito livre, o livre pensar, o livre fazer, o livre gostar, a liberdade, em toda sua subjetividade sofisticada.

Não compram o caráter sem a mácula da demagogia e do bom-mocismo.

E definitivamente, não compram a paz de um espírito.

itamar4

(Dedico este texto às memórias de Itamar Assumpção, Wilson Baptista, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Geraldo Filme, Cartola e João da Baiana.)

(Serena Assumpção é cantora e filha de um dos maiores gênios da música brasileira, Itamar Assumpção.)


regina on 11 outubro, 2013 at 16:31 #

Caixa-preta de um biógrafo falido (debate público, confissões privadas)

Mário Magalhães 11/10/2013

Em 2003, quando abandonei minha confortável vida de jornalista de redação, alguns amigos supuseram que eu ficara maluco. Trocar a segurança do ótimo salário e o prestígio de repórter de grande jornal pela aventura de me tornar biógrafo não passaria disso mesmo: uma aventura. Ao saberem que o meu personagem seria um brasileiro maldito, castigado pelas conspirações do silêncio e do preconceito, tiveram certeza: eu surtara.

Dez anos depois, desconfio de que os amigos estavam certos. Porém, numa contradição aparente, não me arrependo do rumo tomado: dediquei nove anos de trabalho insano a preparar uma biografia não autorizada do revolucionário Carlos Marighella (1911-69). Por cinco anos e nove meses, cuidei exclusivamente do livro, sem outra fonte de renda digna de nota.

Até agora, considerava que os perrengues enfrentados, decorrentes da minha decisão, constituíam assunto da esfera privada. Diante do debate público sobre restrições à publicação de biografias, penso que se torna legítimo contar um pouco do meu sufoco. “Editores e biógrafos ganham fortunas”, afirmou Djavan (leia aqui). Será?

O que eu fiz nos nove anos mergulhado no livro: entrevistei 256 pessoas, algumas por dezenas de horas, em várias sessões, viajando para cá e para lá; consultei dezenas de milhares de páginas de documentos, boa parte secreta na origem _os papéis e as fotografias são oriundos de 32 arquivos públicos e privados de Brasil, Paraguai, Estados Unidos, República Tcheca e Rússia; devorei uma bibliografia de 500 títulos; organizei 2.580 notas sobre fontes, agrupadas ao fim do volume; escrevi e reescrevi obsessivamente, em busca da minha utopia literária: uma narrativa de tirar o fôlego, assim como havia sido de tirar o fôlego a vida do protagonista.

Com exceção de uma pequena, mas valiosa e reconhecida ajuda da Companhia das Letras, banquei tudo do próprio bolso: passagens aéreas, hospedagens, pesquisadores auxiliares em Salvador, São Paulo, Campinas e Moscou, profissionais qualificados na transcrição de quase mil horas de gravação, serviços de conversão de microfilmes em imagem digital e muito, muito mais. Sem eliminar as despesas de uma família de classe média carioca, com três filhos em idade escolar, da universidade privada à pré-escola idem (o caçula nasceu durante a elaboração da biografia).

Graças a muita gente a quem serei grato até o meu derradeiro suspiro, o livro foi bem-sucedido. A crítica recebeu-o generosamente, tanto a acadêmica quanto a jornalística. A Associação Paulista de Críticos de Arte premiou-o como a melhor biografia de 2012. O ator Wagner Moura e a O2, produtora do cineasta Fernando Meirelles, arremataram os direitos de adaptação para o cinema. Sob a direção de Wagner, o filme deve chegar às telas em 2016.

Nada superou a boa vontade e o carinho dos leitores. Nas livrarias desde outubro de 2012, “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” alcançou quatro reimpressões. Ao todo, já saíram 30 mil exemplares, no país em que a tiragem padrão oscila de 2.000 a 3.000 cópias.

Com todos esses triunfos, a conta é esta, na ponta do lápis e no teclado da calculadora: somando os direitos autorais a que tive direito pelos livros vendidos e a remuneração que receberei pela cessão da biografia para o cinema, o valor representa nanicos 15% do total dos salários de que eu abri mão ao me despedir do jornal. Não me enganei: quinze por cento. Voluntariamente, perdi ou deixei de ganhar 85 em cada 100 reais.

O cálculo é conservador, pois não inclui antigos benefícios, como participação nos lucros da empresa e automóvel zero quilômetro subsidiado.

Para que eu embolsasse o equivalente a um terço (e não 100%) dos salários que teria acumulado em 69 meses, “Marighella” precisaria vender cinco vezes mais do que já vendeu. A meta é irreal, como tem consciência qualquer editor júnior.

O balanço está incompleto. Para trabalhar só no livro, exterminei o respeitável pé-de-meia engordado desde 1986, quando dei os primeiros passos no jornalismo. Lancei-me à biografia em 2003. Quando meu dinheiro acabou, no segundo semestre de 2006, regressei ao jornal, do qual saí de vez em janeiro de 2010: sem dedicação exclusiva, não conseguiria concluir “Marighella”, pelo menos não o “Marighella” que eu escrevi.

Nesses nove anos, o padrão de vida aqui em casa decaiu. Como o pessoal tem os corações imensos, desses que comovem até almas brutas, ninguém se queixou. O vermelho tingiu meus extratos de conta corrente. Tivemos que fazer um empréstimo bancário. Um, não: três. Só pude ficar por conta do livro até o fim do ano passado porque a minha mulher, jornalista assalariada, segurou as pontas.

Chororô? Qual nada! Jamais fui tão feliz no jornalismo como nessa década investigando e narrando as estripulias do mulato baiano. Mas nunca mais vou topar uma empreitada semelhante, porque já impus sacrifícios demasiados a quem me ama e é retribuído intensamente.

Pessoal da censura

O modesto resultado financeiro do livro, a despeito do êxito de público e de crítica, não me surpreendeu, confesso. Eu já sabia que seria assim. Por que, então, fiz o que fiz? Por dois motivos, acredite quem quiser.

Primeiro, padeço de uma irrecuperável perversão de caráter: o amor patológico pelo jornalismo e, sobretudo, a paixão pelo gênero jornalístico da reportagem. Às vésperas dos meus 40 anos, completados em 2004, eu aspirava a encarar uma reportagem épica, sem as amarras de tempo (para apurar e escrever) e espaço (para publicar) inerentes a um diário impresso.

Segundo, mas não menos importante, e perdoem a ambição desmedida, típica de repórteres por vocação: eu sonhava legar uma história que, daqui a cem anos, contribuísse para que os brasileiros conhecessem o que foi o nosso embriagante século XX. A trajetória de Marighella tinha encantos jornalísticos suplementares: como certa historiografia oficial tentou eliminar seus rastros, e ele mesmo, por questão de sobrevivência, apagava as pegadas, desvendar mistérios insolúveis configurava desafio sedutor demais.

Todo esse esforço teria sido em vão se o espírito público não pautasse os herdeiros de Carlos Marighella, em particular seu filho, Carlos Augusto Marighella, e a viúva, Clara Charf. Jamais lhes pedi autorização para o livro. Não lhes submeti os originais, nem eles pediram para ler. Acolheram-me com fidalguia e entusiasmo, confiaram no meu trabalho. No entanto, se quisessem, poderiam ter impedido a circulação da biografia: a legislação antidemocrática, primitiva e obscurantista em vigor lhes oferece esse direito.

De acordo com o Código Civil, o direito de os cidadãos conhecerem a história é prerrogativa dos biografados e seus descendentes. O Estado não o assegura, para regozijo de políticos corruptos que almejam eternizar o segredo sobre seus atos. O acesso à memória e à verdade são direitos humanos hoje sonegados por normas totalitárias.

Exagero? Se alguém se propuser a escrevinhar uma biografia independente sobre o Cabo Anselmo, o verme que entregou a mulher grávida para os verdugos da ditadura pós-1964 a trucidarem, terá de pedir autorização ao delator.

Sabe o Amarildo, o trabalhador da construção civil que sumiu na Rocinha na noite de 14 de julho? O comandante da Unidade de Polícia Pacificadora na favela era o major Edson Santos, mais tarde indiciado por tortura seguida de morte e ocultação de cadáver. Quem quiser produzir uma biografia desse oficial da Polícia Militar só a verá nas estantes das livrarias se o major consentir. São elogiáveis as iniciativas para amparar materialmente a família do Amarildo, mas abomináveis os lobbies em favor de uma legislação que asfixia (como o saco plástico do Bope) e eletrocuta (como policiais procediam com moradores da Rocinha) biografias de torturadores e matadores.

Que tipo de biografia resulta desse sistema? Rame-rames laudatórios.

A ordem jurídica aceita hoje censura prévia. Quem gosta de censura é ditadura. Todo o malabarismo retórico que busca bloquear o conhecimento público sobre fatos e pessoas de dimensão pública sucumbe diante da seguinte constatação: se aparecer um neto desconhecido de Adolf Hitler no Brasil, teremos de solicitar protocolarmente autorização sua para publicar uma biografia em que o líder nazista seja descrito como genocida.

Só em nosso país, entre as grandes democracias, Hitler seria consagrado como herói, pois só haveria biografias chapas-brancas.

E Paulo César Farias? Uma biografia trombetearia sua postura de empreendedor decente, como exigiria a família, ou apresentaria o inventário de suas falcatruas pelos labirintos da corrupção? Na biografia do PC, o biógrafo teria de cascatear sobre sua morte, inventando que Suzana Marcolino matou-o, como sustentam os irmãos Farias? É assim que o pessoal da censura preconiza que se conte a história do Brasil?

Dudu Braga, filho de Roberto Carlos, indagou no Twitter (aqui): “Na discussão das biografias não autorizadas colocam artistas e esportistas no mesmo saco que ditadores e criminosos?”.

Como assim, “colocam”? Quem defende as restrições existentes é o grupo Procure Saber, no qual reluz Roberto Carlos. A lei não vale para todos? Ou Dudu Braga propõe normas específicas para os artistas, distintas das que governam os demais cidadãos? Na escravidão era assim.

O estatuto atual, com o respaldo do Procure Saber, protege, sim, ditadores e criminosos. Quem procurar saber da barbárie comandada por tiranos terá de recorrer a publicações estrangeiras, porque suas biografias terão sido abortadas no Brasil, com amparo legal.

Biografia nunca mais?

Escrever uma biografia, mesmo de sucesso, é péssimo negócio, ficou demonstrado. Djavan pontificou: “Editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação”. Qual sofrimento, o de Anselmo ou o de Soledad, a brava guerrilheira que o “cabo” entregou aos carrascos?

Sobre “fortunas”, Djavan incorreu em inverdade, espero que por ignorância, e não desonestidade. Mais: para reparar o “ônus do sofrimento e da indignação” existe a Justiça, à qual pode e deve recorrer quem se julga vítima de crimes como calúnia e violação de privacidade. Como neoarautos da censura prévia, o músico e seus parceiros se associam ao autoritarismo característico de regimes fascistas e stalinistas, e não da democracia.

Na ditadura, batalhávamos todos contra a censura prévia. Continuo na mesma barricada, contra as Donas Solanges, públicas ou privadas. Talvez um dia, vai que por uma biografia não autorizada, venhamos a descobrir por que muitos trocaram de lado mais rápido que a mudança da maré.

Estranho a obsessão do novo pessoal da censura com a poupança dos biógrafos que eles passaram a demonizar. Qual o problema em ganhar dinheiro com trabalho suado e escrupuloso, como eles ganham? A propósito, no meu projeto Marighella não recebi verbas públicas, assumidas ou disfarçadas sob os rótulos de renúncia fiscal, tipo Lei Rouanet. Nem um centavo. E nos seus projetos, Djavan?

O desprezo pelo trabalho alheio é ainda mais escrachado na “sugestão” da empresária Paula Lavigne, voz mais estridente do lobby pró-censura prévia (aqui): “Se alguém quiser escrever uma biografia e publicá-la na internet sem cobrar, tudo bem. O problema é lucrar com isso”.

Tal trabalho escravo, inconstitucional desde o século XIX, fulminaria biografias não autorizadas. Reiterando: biografia escrita por repórter constitui reportagem, que é um gênero do jornalismo. Reportagens de fôlego, como biografias, exigem três condições: a) domínio técnico; b) disposição editorial; c) condições materiais. Se não houver remuneração, proveniente da venda de livros, não há como se dedicar a uma história de vida. A não ser que o autor seja milionário… ou louco.

O Procure Saber também advoga que os biografados _artistas ou não, enquanto a lei valer para todos, sem distinguir castas_ recebam obrigatoriamente percentuais da receita dos livros. O compositor Pedro Luís apoia: “Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. Quem faz a revisão, a capa, não é remunerado? E o assunto do produto, não?”. O Cabo Anselmo agradece pelos caraminguás. Não se esqueçam do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O famigerado torturador não haverá de rejeitar uma biografia camarada.

As propostas exalam menosprezo, quase asco, pelo trabalho que não é seu. Os compositores reivindicam receber dos biógrafos por eventuais livros de que sejam personagens principais, mas não nutrem o hábito de pagar aos personagens que inspiram suas composições. Não têm mesmo que os remunerar, porque as pessoas não dividiram o trabalho de criação. O criador é remunerado, não o objeto que o inspira. Abstenho-me de enumerar uma relação infinda de músicas célebres inspiradas em pessoas de carne e osso.

Registro: nada contraponho a sociedades acordadas livremente entre biógrafos e biografados. Biografias autorizadas, às vezes muito boas, são legítimas como as não autorizadas. A violência institucional é abolir as biografias independentes, nas quais Paulo Maluf não figura como político devotado à decência, e Fernando Collor de Mello não encarna um estadista injustiçado. Haveria jornalismo crítico em uma biografia na qual a família de Benito Mussolini se tornasse sócia do biógrafo?

A legislação em vigor fere o direito de informar e ser informado, viola a liberdade de expressão, institui o monopólio da verdade, atrasa o Brasil. Não se resume a uma contenda entre biógrafos e censores, mas interessa à nação. É tão daninha que numerosos historiadores e jornalistas descartaram biografias promissoras, nocauteados pela intimidação de biografados e herdeiros que só admitem retratos bajuladores.

Para quem amargou tantos sacrifícios, soa ofensiva a acusação, desfraldada ou sutil, de que só se faz biografia para enricar. Mas isso é o de menos. Desgraça, como imaginou o compositor Alceu Valença, será montar no futuro uma nova comissão da verdade para revelar o que poderiam ter contado biografias banidas.

Da minha parte, caríssimo Djavan, seguirei em frente com minha sina de biógrafo de uma biografia só e meu valente Citroën C3, ano 2007.

Desisto de biografias, enquanto perdurarem os ameaçadores garrotes da censura. Maluquice como a que eu cometi, somente uma vez na vida, e olhe lá.

“Marighella” foi minha primeira e, se nada mudar, última biografia.

http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos