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CRÔNICA

Embargos, anuns e almas-de-gato

Janio Ferreira Soare

Semana passada, enquanto os ministros do Superior Tribunal Federal decidiam o destino dos réus do mensalão, vários pássaros começaram a aportar no meu quintal, nem aí para embargos infringentes, Zé Dirceu e que tais. Ao contrário dos digníssimos que continuam duelando num juridiquês boçal e repleto de tendências partidárias, os nossos animados e desavergonhados bípedes só estão preocupados em – “pela ordem, senhor presidente!” – soltar seus trinados (alguns, creio, em latim clássico), balançar suas penas e, por fim, copular como se não houvesse amanhã, seguindo assim seus instintos reprodutivos nesses tempos primaveris.

Aproveitando que eu estava lendo algo a respeito do tengu (fábula japonesa que prega a existência de seres místicos semi-humanos com cabeças de aves), resolvi observá-los mais atentamente e, para minha surpresa, descobri que existem muitas semelhanças entre as partes supracitadas. Divaguemos, pois, excelentíssimo leitor.

O que são aqueles senhores de capas senão um bando de anuns que agora ciscam nas folhas do jardim com seus longos rabos negros como se fossem as poderosas togas deslizando seus abainhados sobre os mármores do Supremo? A propósito, um deles, bem no estilo Joaquim Barbosa, botou para correr uns quatro machos que ameaçavam embargar seu acasalamento com a única fêmea do pedaço. Questão de prerrogativa, presumo.

Já Lewandowski, com o seu esbelto perfil de garça, também poderia tranquilamente fazer parte da turma das elegantes almas-de-gato que ora gorjeiam pousadas num fio de alta tensão, com suas penugens capilares dançando ao sabor da brisa que vem do norte, tal e qual o topete do ministro quando da última trombada verbal com o arisco Joaquim. Sem falar na classe da ministra Carmem Lúcia, que lembra a suavidade de uma codorninha na relva; ou no titeludo e cantante Luiz Fux, que provavelmente se enxerga uma harpia, mas se parece mesmo é com um bem-te-vi do papo amarelo. Mesmo sem fazer parte do assunto, não encontrei nenhum pássaro de bandana. Será o fim da espécie, meu Deus?

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura

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Comentários

vitor on 28 setembro, 2013 at 15:15 #

Um texte de dar inveja, Janio. Alegoria perfeita!

E bateu em mim uma saudade danada do tempo em que via, maravilhado e surpreendido sempre, a chegada de cada primavera em Glória e Paulo Afonso.

Dos quintais das casas na beira do rio da minha aldeia e do chalé onde eu morava; das serras em volta coalhadas de aves, bandos de andorinhas pousadas nos fios da CHESF ao entardecer; do florescer desta época no deserto do Raso da Catarina. E o cheiro de murici, tamarindo e umbu cajá,no ar? Onde e quando reencontrar tudo isso?

Parabenizo e agradeço por tornar possível tão boas recordações em tempos de gralhas e urubus.

Vitor Hugo


Janio on 28 setembro, 2013 at 18:10 #

Vitor, querido, não tem erro. Ano após ano, mais ou menos uns dez dias antes da Primavera chegar, um vim-vim macho chega e começa a fazer seu ninho no mesmo galho de um velho boungaville. Tenho pra mim que essa onda deve ser passada de pai pra filho, já que há mais de 25 anos isso acontece religiosamente. Enquanto isso, em Brasilia, 19 horas.


Olivia on 29 setembro, 2013 at 2:33 #

Uma beleza de texto, Janinho.


Gracinha on 30 setembro, 2013 at 0:21 #

Lindo Janio! Que bom poder contar com a primavera…


luís augusto on 30 setembro, 2013 at 8:46 #

O talento desse moço, a quem acompanho semanalmente em A Tarde, é transbordante.


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