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OPINIÃO POLÍTICA

Adiado o Prêmio Nobel

Ivan de Carvalho

Rousseff decidiu e então ela e Obama combinaram por telefone adiar a “visita de estado” que ela faria aos Estados Unidos em 23 de outubro. Aparentemente está muito zangada por não haver o presidente americano nem seu governo apresentado desculpas ou fornecido explicações completas para a espionagem eletrônica que atingiu a Petrobrás (o interesse dos Estados Unidos no pré-sal é grande e um pouco de espionagem é uma tentação irresistível) e setores do governo brasileiro, especialmente a presidente da República em pessoa, Dilma Rousseff, em suas comunicações com assessores (imagino que os oficiais e os informais, a exemplo de Lula).

Mas pode ser que a presidente Dilma Rousseff não esteja tão zangada assim. A denúncia de espionagem global feita pelo herói moderno Edward Snowden, no que diz respeito ao Brasil, tem sido manipulada habilmente como instrumento de política interna. Simples. A popularidade da presidente e a aprovação de seu governo haviam desabado em junho e executavam depois disso uma lenta e penosa recomposição. Lenta demais, frise-se. Então cai de paraquedas, portanto, dos céus, essa denúncia de espionagem perpetrada pelo “império”.

Ah, meu Deus, coisa melhor não podia desejar o marketing político-eleitoral. Não é mesmo, Patinhas? A presidente braba. O nacionalismo redescoberto explodindo em cada palavra, em cada sílaba, em cada letra do discurso político. A presidente dando esbregue no “império”. A presidente exigindo desculpas ostensivas ou explicações absolutas e, sabendo que não podia receber nem umas nem outras, avisando que sem o atendimento das exigências não faria a “visita de estado” prevista para outubro. Essas visitas são uns salamaleques, com direito a jantar de gala na Casa Branca. Uma espécie de Prêmio Nobel da diplomacia americana.

É claro que a bisbilhotagem global precisa ser, ainda que quase que só verbal e simbolicamente, como até agora tem ocorrido, repelida. Não porque os segredos visados, no caso Brasil, pelo que até agora veio à luz, sejam assim tão valiosos.

O nhém-nhém-nhém da presidente, por exemplo, com o ex-ministro Antonio Patriota e o assessor especial para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia sobre – para contentar o presidente companheiro Evo Morales – a malvadeza aplicada contra o senador boliviano Pinto Molina, que estava confinado na embaixada do Brasil na Bolívia, não chega a ser um assunto capaz de assanhar os analistas de informação da Agência Nacional de Segurança (NSA) do “império”.

Restariam mesmo dois focos de interesse.

O pré-sal, pois os Estados Unidos – que agora estão explorando a mil, em seu próprio território, o gás de xisto, que poderá torná-los mais ou menos autossuficientes em fontes de energia fóssil – querem de uma vez por todas livrar-se da ainda enorme dependência que hoje têm do petróleo do Oriente Próximo e Médio. Um caminho importante para isto é comprar ao Brasil o petróleo do Pré-Sal.

O outro foco de interesse da denunciada e não negada incursão da NSA no Palácio do Planalto provavelmente diz respeito à política estratégica do governo do Brasil em relação ao próprio país (no que diz respeito à preservação ou cassação da liberdade e da democracia) e as extensões dessa estratégia na interação com as de alguns outros países da América Latina, a exemplo de Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Argentina, pois o Paraguai deu o pulo do gato. Somem-se algumas daquelas coisinhas da América Central, como a Nicarágua (lembram-se daquela incrível patacoada de Honduras?) e chegaremos ao reconhecimento de que o Brasil, pelas suas dimensões territoriais, populacionais e econômicas, atrai curiosidade. E curiosidade, historicamente, atrai espionagem.
A espionagem realmente precisa ser repelida, vale repetir, porque ela é global, ela atinge tanto os Estados quanto – isso é muito pior – os indivíduos, ela é avassaladora e ela não será contida, mas temos todos o dever de tentar. De retardar. De preservar nichos em que não penetre.

Mas o incrível, o risível, o impensável é essa impressão forte de que o governo brasileiro não sabia que grau já atingiu o monitoramento global. Deve ter sido o último a saber. Ou talvez ainda nem saiba, já que pediu explicações completas – “tudo, everything” – quando só havia a receber nada, anything.

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Comentários

Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 8:55 #

Excelente artigo, Ivan! Mais um de sua extensa lista desenvolvida há décadas. Cade o livro?


jader on 18 setembro, 2013 at 11:11 #

Do Terra:

18 de Setembro de 2013•09h56 • atualizado às 10h31

Jornais internacionais destacam decisão de Dilma: ‘esnobou Obama’
Dilma Rousseff e Barack Obama lado a lado, em foto de abril de 2012, nos EUA Foto: Kevin Lamarque / Reuters
Dilma Rousseff e Barack Obama lado a lado, em foto de abril de 2012, nos EUA
Foto: Kevin Lamarque / Reuters

A decisão da presidente Dilma Rousseff de cancelar a visita que faria aos Estados Unidos devido às denúncias de espionagem do governo americano ao Brasil foi destacada por alguns dos principais jornais internacionais nesta quarta-feira. O britânico The Guardian afirmou que Dilma “esnobou Barack Obama na terça-feira, ao adiar uma visita oficial a Washington”. “A discussão entre as maiores economias da América do Norte e do Sul foi o último desastre diplomático dos documentos secretos divulgados pelo denunciante americano Edward Snowden”, escreveu o jornal, citando o cancelamento de uma reunião de Obama com o presidente russo, Vladimir Putin, após a decisão da Rússia de dar asilo político a Snowden.

O jornal The Guardian afirmou que o cancelamento da visita de Dilma é, “pelo menos, um atraso para as relações bilaterais, que pareciam estar melhorando desde que Rousseff chegou ao poder, em 2011”. “Ela foi a única líder estrangeira neste ano a ser convidada para um jantar de Estado na Casa Branca, e executivos planejavam usar a visita para assinar acordos de exploração de petróleo e de vendas de jatos de combate”, disse a publicação.

“Audácia” favorece Dilma , diz El País
O jornal espanhol El País afirmou que a decisão da presidente brasileira, que ele chamou de “audácia”, favorece-a dentro e fora do Brasil. “A audácia da presidente brasileira (…) tem dois lados claros: uma de política internacional e outra de política interna. E, em ambas, Rousseff parece ter marcado um gol para o brasil”, escreveu a publicação.

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?O El País analisou que a presidente brasileira escolheu desafiar Obama, “a quem fez diretamente responsável pelo escândalo”, pedindo explicações por escrito na mesma semana. “Todos sabiam que Obama não pediria perdão, muito menos por escrito e no prazo exigido pelo Brasil, mas com essa série de exigências, Rousseff passa a ser a primeira presidente brasileira que soube impor sua autoridade ao líder da primeira potência mundial”, disse.

O jornal francês Le Monde também repercutiu a decisão da presidente brasileira, e destacou que “as revelações sobre a espionagem estadunidense ao Brasil (…) fragilizaram um pouco mais as relações diplomáticas entre os dois países”. A publicação citou frases do comunicado de Dilma e afirmou que a notícia não foi bem recebida na Casa Branca.

Jornais americanos: decisão prejudica economia brasileira
Os jornais americanos Washington Post e The New York Times também repercutiram o cancelamento da visita de Dilma à capital americana, mas apresentaram uma perspectiva diferente – avaliaram que a decisão prejudica o Brasil economicamente. O Washington Post disse que o cancelamento “será, a curto prazo, prejudicial ao País, que tem uma economia em dificuldades que busca investimentos americanos e maior abertura a produtos brasileiros”.

Para a publicação, a decisão de Dilma é apenas política. “Rousseff – que teve um índice de aprovação de 36% no mês passado, em meio à onda de protestos contra os serviços públicos precários – sofreu pressão dos esquerdistas de seu Partido dos Trabalhadores para ficar em casa, Cancelar a viagem é visto como politicamente conveniente aqui (no Brasil), parcialmente porque ela enfrenta uma difícil campanha de reeleição no próximo ano”, escreveu o Washington Post.

O New York Times avaliou que o posicionamento de Dilma é uma “forte censura à administração de Obama sobre as revelações” de espionagem ao Brasil. “O movimento da senhora Rousseff mostrou como a divulgação de práticas de vigilância dos Estados Unidos por Edward J. Snowden agravaram os laços de Washington com uma série de países, incluindo aliados europeus como a Alemanha”, disse o jornal.

A publicação afirmou que o cancelamento de Dilma foi “uma decisão extremamente rara nos anais da diplomacia”. Para o New York Times, a reação da presidente brasileira “ameaça reverter anos de esforços de Washington para reconhecer o perfil crescente do Brasil no mundo em desenvolvimento e neutralizar a crescente influência da China, que superou os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil”.

Espionagem americana no Brasil


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 12:08 #

O Terra da manjado. Todo mundo já sabe que tem um duto do governo que alimenta o Terra e um jornalista de plantão pra fazer os relesses do governo, muito conhecido por sinal. por favor, outra fonte. A propósito, o site, apesar da baixa audiência, foi o que mais recebeu verbas publicitarias federais. Alias foi nao, e.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 12:09 #

Correção: relevasse


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 12:10 #

Release


jader on 18 setembro, 2013 at 13:16 #

Senhora Rosane , Como uma ex Aluna ( a melhor dizem as boas linguas) de Harvard , pode ler o The Guardian , Washington Post e The New York Times, tudo no original. Se precisar posso fazer uma tradução do Le monde e El Pais.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 15:05 #

Ora, ora. Se fosses tu menos papagaio e mais observador, encontrarias no artigo de Ivan resposta para tais manchetes sob encomenda repercutidas pelo escriba governamental que trabalha no Terra.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 15:11 #

Esse filme eu já assisti.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 15:12 #

Recomendo: comunicativos Power, de Manuel Castells.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 15:13 #

Correção: Communication


rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 15:21 #

Em tempo: agradeço-lhe a gentileza, mas também leio espanhol e francês.


Graça Azevedo on 18 setembro, 2013 at 16:56 #

Pobre de quem acusa sem provas. Mostra que, com todos os títulos que possa ter, falta-lhe um: seriedade no trato com a moral de outra pessoa.


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