JORNAL COMENTADO, POR TONY PACHECO. TEXTO PUBLICADO ORIGINARIAMENTE NO BLOG “OS INIMIGOS DO REI”, QUE BAHIA EM PAUTA RECOMENDA. (VHS)
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Imperador Rômulo, ajoelhado, entrega sua
coroa ao invasor Odoacro/ Os Inimigos do Rei


EUA: DE ÁGUIA A PASSARINHO

Tony Pacheco

“Ataque a militares americanos dentro dos próprios EUA”
(toda a mídia mundial)

Quem, como meu amigo e jornalista Alex Ferraz, perambulou pelas ruas de Washington sabe que toda a arquitetura da capital americana é inspirada na civilização greco-romana. Os americanos se acham herdeiros legítimos do Império Romano. Só que isso, há algum tempo, era um trunfo, pois, no auge, o Império Romano detinha 6,7 milhões de quilômetros quadrados da Europa, Ásia e África, mas, na sua decadência lembra demais os momentos pelos quais o Império Americano está passando neste momento.

Primeiro, foi o desafiante nanico, o “País dos Kim”, a Coreia do Norte, que vem infernizando a vida dos americanos montando um arsenal nuclear incipiente, mas suficiente para ameaçar o Japão, o maior aliado do Império Americano na Ásia. Os EUA nada puderam fazer, pois a madrinha dos coreanos é a China, que de vez em quando passa um carão nos meninos pintões que governam a pequena península, mas gosta mesmo é de deixar as crianças atormentando o Tio Sam.

Concomitantemente, os homens-de-toalha-na-cabeça que governam a antiga Pérsia, hoje o Irã dos aiotalás fundamentalistas muçulmanos, desde o fim do regime do xá Pahlevi, em 1979, vem se tornando um calo insuportável no domínio americano no Oriente Médio. No caso do Irã, a madrinha é a Rússia.

Destruído o Império Soviético a partir da Queda do Muro de Berlim, em 1989, a partir daí a Rússia perdeu o controle sobre todas as suas repúblicas islâmicas na Ásia (Azerbaidjão, Kazaquistão, Turcomenistão, Kirguizistão, Uzbequistão e Tadjiquistão) e sua proeminência sobre os países árabes diminuiu sensivelmente. No entanto, a partir da ascensão de Vladimir Putin ao poder em Moscou, em 1999, a Rússia começou a “colar os caquinhos do seu velho mundo” (Marina Lima). Neste sentido, passou a dar suporte à arrogância do Irã em seu permanente desafio ao governo americano.

Junte-se a isso, como diria o velho Marx, os interesses econômicos por trás: Rússia e Irã compartilham interesses de petróleo e gás no mercado internacional.
E, aí, chegamos à Síria. Esta, para o Império Americano, além do valor estratégico de suas reservas de gás, tem o valor sentimental (ideológico) de ter sido pátria de três imperadores romanos (Heliogábalo, Filipe O Arábe e Prisco) e dói demais em Washington saber que os laços entre Moscou e Damasco, que já foram fortíssimos na época da República Árabe Unida (Egito e Síria), hoje voltam a ser sólidos a ponto de Vladimir Putin dizer por minuto que não vai tolerar uma intervenção militar dos EUA na Síria.

E quando Barack Obama disse que o governo sírio usou gás Sarin contra seu próprio povo (em rebelião permanente), Putin simplesmente retrucou que quem usou armas químicas foram os rebeldes apoiados pelos EUA para darem um motivo para a intervenção americana. Durma-se com um barulho desses…

A Síria é, por assim dizer, o marco principal do que se convencionou chamar de “O Declínio do Império Americano”. Na Guerra Irã-Iraque, simplesmente apoiou o Irã, contra os interesses americanos. Já, agora, pela primeira vez um líder americano fica fazendo consultas intermináveis a seus aliados europeus e ao Congresso dos próprios EUA para poder dar uma surra corretiva num país que se insurge contra seu poderio. Até as aventuras no Kuait, Afeganistão e Iraque, o que incomodava ao Império Americano era exemplarmente enfrentado com homens e armas.

Agora, a fala mansa, a dubiedade, a tibieza e a incerteza mostram que tal como na queda do Império Romano do Ocidente (séc. V), os “bárbaros” ATACAM O TERRITÓRIO DO IMPÉRIO (“território” aí como os interesses geopolíticos, já que Síria é simplesmente um país da fronteira de Israel e desestabiliza os aliados na área, como Jordânia, Iraque e Arábia Saudita) e a única coisa que o Império Americano está fazendo é ESPERNEAR ( “jus esperneandi” tão caro aos advogados e juízes). Até o “megalo-nanico” Brasil se mete na conversa e diz que não há necessidade de intervenção militar.

Sim, pode-se meter armas químicas em seu próprio povo, como o regime sírio fez, e ISSO NÃO É DA CONTA DE NINGUÉM para Brasília. Claro que não, sem uma polícia internacional, que é o papel que os EUA fez nos últimos 100 anos, qualquer país vai poder reprimir violentamente seus opositores internos e ninguém mais vai se meter, como ninguém se mete com a China, país que desde os anos 1950 vem massacrando sistematicamente os budistas no Tibet.

De concreto, o vacilante Império Americano de tanto consultar a comunidade internacional sobre uma intervenção humanitária na Síria (com, claro, razões geopolíticas e econômicas por trás) vai acabar mandando um recado claro ao mundo: “nós, americanos, não acreditamos mais em nossos princípios e, portanto, não temos mais nem apoio interno para intervir em lugar nenhum”.

Só nos faz lembrar Odoacro, que ao invadir o Império Romano, pondo fim a cinco séculos de poderio, nem precisou matar o imperador Rômulo Augusto. Este entregou a coroa ao líder bárbaro e Odoacro, encantado com a beleza do jovem ex-imperador, ainda deu-lhe uma pensão vitalícia para viver com seus familiares sem ser importunado.

Mas, como Obama nem é jovem nem é lindo, não se sabe bem qual seria o destino dele ao final do Império Americano…

*TonY Pacheco é jornalista-radialista formado pela UFBA, registrado no Ministério do Trabalho sob número 966.

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Comentários

Rosane Santana on 17 setembro, 2013 at 14:42 #

Caro Tony, você e Alex são dois dos mais brilhantes jornalistas baianos, em minha opiniao. Inteligentissimos e cultos, de deixar no chinelo celebridades do jornalismo brasileiro. Mas, meu querido Tony, prefiro o imperialismo americano decadente a outros impérios no estilo moscovita. Imagine, colega, o dia em que o mundo for dominado pelos chineses, perseguidores de gays, mulheres e, sabe-se lá, outras minorias, reacionários, arbitrários e outras tantas coibiras. Reconheçamos e façamos justiça aos extraordinários avanços no campo dos direitos individuais da sociedade americana. Viva Obama. Um beijo, com admiração.


Rosane Santana on 17 setembro, 2013 at 14:44 #

Caro Tony, você e Alex são dois dos mais brilhantes jornalistas baianos, em minha opiniao. Inteligentissimos e cultos, de deixar no chinelo celebridades do jornalismo brasileiro. Mas, meu querido Tony, prefiro o imperialismo americano decadente a outros impérios no estilo moscovita. Imagine, colega, o dia em que o mundo for dominado pelos chineses, perseguidores de gays, mulheres e, sabe-se lá, outras minorias, reacionários, arbitrários e outras tantas coibiras. Reconheçamos e façamos justiça aos extraordinários avanços no campo dos direitos individuais
da sociedade americana. Viva Obama. Um beijo, com admiração.


Rosane Santana on 17 setembro, 2013 at 14:49 #

Correção: coisitas.


rosane santana on 17 setembro, 2013 at 14:58 #

Em tempo: É claro, querido colega, que os EUA são filhos do Iluminismo e, portanto, da tradição greco-romana, sim, você sabe disso tanto quanto eu.


Ivan de Carvalho on 18 setembro, 2013 at 1:34 #

Rosane, você, na minha opinião, tem razão em todas as observações que fez em seu comentário. Poderia apenas ter acrescentado que, não só na China, mas na Rússia, os homossexuais acabam de entrar na linha de tiro (como estiveram sob o nazismo, junto com os recordistas judeus e outras minorias), com uma lei recentemente aprovada, que está causando grande polêmica no país e fora dele.
Tony, você, na minha opinião, foi muito perceptivo quanto ao fato de a Rússia, sob Putin, ter começado a “colar os caquinhos do seu velho mundo”. Mas quisera eu que fosse só isso. Não. A Rússia iniciou há algum tempo uma fase de ascensão que, em paralelo e com o benefício do enfraquecimento da aliança ocidental que era liderada pelos Estados Unidos, levará os orgulhosos russos (sim, ali há um povo cheio de orgulho, que não é um bom sentimento) a liderarem, daqui a não muito tempo – e não por muitos anos – a mais poderosa, terrível e ensandecida força política e militar do planeta.
Onde fui buscar essas previsões? Bem, isso já é uma outra estória.
Em tempo: o papel dos Estados Unidos nesse drama vindouro será também terrível. O ponto de inflexão, acho que todo mundo sabe, aconteceu em 11 de setembro de 2001.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 6:17 #

Show de bola, Ivan, grande abraço.


Tony Pacheco on 18 setembro, 2013 at 10:43 #

Rosane, os elogios, vindos de uma jornalista do seu calibre, realmente em deixam felizes. Concordo totalmente com Você. Fiz a análise pois ela é real: existe mesmo uma crise no poder imperial americano. Mas, é claro que prefiro mil vezes o Império Americano ou qualquer coisa vinda da Rússia, da China ou de países islâmicos. Agora, Obama realmente é fraquinho para este momento do Império Americano.


Hálice Freitas on 18 setembro, 2013 at 11:09 #

Olha eu aqui “tra vez”. Tony não estou te seguindo, mas sim, seus textos. Vixe! Viajou por esses lugares. Estava relembrando todo esse aparato de informação. Sem comentário. Prometi não comentar nada.
Poxa, queria ter escrito esse artigo, mas sei que não seria igual o teu, e nem pode!. Então, contento-me em deliciar das palavras históricas que se debruçaram sobre essa página tão rela e tão nítida.


vitor on 18 setembro, 2013 at 13:34 #

Além da beleza do texto e da excelência do conteúdo, quero destacar a magnifica e expressiva (como informação) gravura que Tony Pacheco descobriu para ilustrar um texto primoroso no blog Os Inimigos do Rei. Bahia em Pauta se orgulha de tê-lo reproduzido. Parabéns, Tony!


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 14:53 #

Caro Tony, muito obrigada. Sua inteligência me inspira e e fundamental para a construção de uma esfera publica habermasiana mais critica e politizada. Beijo.


Rosane Santana on 18 setembro, 2013 at 14:54 #

E viva nosso Vítor, grande criador e incentivador deste espaço, figura de generosidade rara.


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