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OPINIÃO POLÍTICA

Desprezo à vida humana

Ivan de Carvalho

O governador do Distrito Federal é Agnelo Queiroz. Ele é do PT, mas consideremos, ainda que seja para não esticar a conversa, que isso nada significa, não tem a menor importância. Afinal, existem unidades federadas que não são governadas pelo PT e onde o sistema de saúde (incluindo a parte dele que compete diretamente às administrações estaduais) são um lixo. Isso é em quase todo lugar.

No caso do Distrito Federal, até haveria razão para uma grande dose de surpresa. É que quando candidato a governador, Agnelo Queiroz, atentem só, assegurou aos eleitores que todos (?!) os problemas de saúde do Distrito Federal seriam resolvidos nos primeiros milagrosos cem dias de seu governo, se fosse ele o eleito. Foi. E já está no cargo há dois anos, oito meses e meio.

O desempenho do Sistema Único de Saúde no Distrito Federal, nesse período, piorou. Isso parecia muito difícil de acontecer, ante a situação anterior, mas o governo Agnelo Queiroz conseguiu. É o que, com dois exemplos muito esclarecedores, mostrou Patrícia Fernandes, sábado, no site do Jornal de Brasília, em reportagem sintética, mas investigativa, reproduzida pelo blog gamalivre.com.br.

Há uma estranha e lamentável ausência de reportagens investigativas na área de desempenho do SUS no país, enquanto se faz um barulho ensurdecedor e muito conveniente ao governo federal por causa de um extremamente polêmico programa chamado “Mais Médicos” – com alguns pontos detestáveis, um dos quais até caracteriza ostensiva chantagem, a impossibilidade dos médicos cubanos não poderem trazer suas famílias ao Brasil.
Mas não misturemos as coisas. Voltemos ao Distrito Federal. No Hospital Regional da Asa Norte, duas pacientes fizerem cirurgia para retirar pedras na vesícula. Receberam alta, mas logo tiveram de voltar ao hospital às pressas, com dores fortes e quadro infeccioso severo. O hospital entendeu que para o diagnóstico do que estava ocorrendo com elas (o fato de serem duas pacientes com problema similar subsequente ao mesmo tipo de cirurgia já dá bons motivos para desconfiar que o mal feito foi feito desde o começo) é necessário fazer o exame de colangiopancreatografia retrógrada endoscópica – CPRE. Mas então é que o impossível – não exageremos, o inacreditável, apenas – acontece: todos os aparelhos da rede pública do Distrito Federal que fazem este exame e que são coisa corriqueira, de nenhum modo alguma traquitana só encontrável nos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, estão com defeito.

Qual seria a coisa óbvia? Na visão do governo do DF, instaurar ou dar curso a uma licitação (a Secretaria de Saúde emitiu nota em que usou linguagem que deixa dúvida se a licitação iria ser aberta ou já estava em curso), esperar a proclamação de um vencedor, colocá-lo a trabalhar naquele ritmo malemolente em que os outros eventos desse caso vinham ocorrendo (ressalvadas, claro, as dores, bem como os processos infecciosos severos que poderiam ou podem – depois da publicação da reportagem, talvez seja mais prudente dizer poderiam – levar a uma septicemia e ao cemitério) e quando os aparelhos fossem, se possível, consertados, serem procedidos os exames nas duas pacientes, caso ainda vivas.

Na visão do cidadão, do contribuinte e, nada desaconselha dizer, também do eleitor, o procedimento seria outro. O governo do DF, por intermédio de sua Secretaria de Saúde, encaminhar imediatamente as duas pacientes para clínicas de qualidade (que as unidades públicas, pelo visto, não têm), nas quais os aparelhos para o exame CPRE estejam em perfeito estado e fazer então o tal exame que leva ao diagnóstico e desvia as pacientes do caminho do cemitério. Isto é o que um juiz mandaria fazer imediatamente se fosse provocado por uma ou pelas duas pacientes, com prazo, creio que não maior de 24 horas, para ter sua ordem liminar cumprida. O juiz estaria baseando sua decisão na Constituição da República.

O governo do Distrito Federal preferiu basear-se na irresponsabilidade e no desprezo à vida humana.

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