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OPINIÃO POLÍTICA 11-09-13

Os instrumentos e o arsenal

Ivan de Carvalho

Os índios, especialmente os norte-americanos que apareciam nos filmes de Hollywood, eram vidrados numa machadinha. Mas o MST, o mui brasileiro Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, ampliou o arsenal. Arsenal? Estarei escrevendo sobre isto nas linhas seguintes.

Em suas marchas, invasões e ocupações de fazendas, prédios públicos e mais onde hajam se aventurado, eles portavam, além de alguns estandartes de pano com inscrições, outros representados por foices, enxadas, picaretas – nas mobilizações mais amplas, mais de 300, como disse Lula certa vez, se não me falha a memória – facões, ancinhos, varapaus, facas nada domésticas e machados (estes, talvez numa assimilação da cultura dos pele-vermelhas norte-americanos).

Uns mal encarados agricultores e pecuaristas, do alto de seus tratores e de suas tribunas (o MST também tem as suas), reclamavam, indignados, que os militantes ajuntados pelo MST chegavam às cancelas de suas fazendas e frequentemente as ultrapassavam carregando um arsenal (destinado a intimidar e, se conveniente, atacar) representado pelos instrumentos de batalha acima citados.

Indignado, o MST, que liminarmente rejeitava a acusação de que incluía, nem sempre, mas com frequência, no que os agricultores e pecuaristas chamavam de arsenal, algumas armas de fogo (revólveres, espingardas de caça), desqualificava a classificação de arsenal. Terrível essa injustiça de chamar de armas, que em seu conjunto formariam um arsenal, inocentes instrumentos de trabalho, aqueles objetos que usavam para cumprir sua penosa faina diária em terra alheia.
Bem, às 8 horas da manhã de terça-feira, no Centro Administrativo da Bahia, destino frequentado pelo MST ao longo de muitos anos, um encorpado grupo de militantes desse movimento social umbilicalmente ligado ao PT, que governa o Estado da Bahia, ameaça, com seu, digamos assim, arsenal de instrumentos de trabalho, invadir o prédio da Secretaria de Segurança Pública. E estavam fazendo algum movimento com a intenção de invadir mesmo, o que, consumando-se, seria altamente vexatório para o governo. Afinal, não era uma secretaria estadual qualquer, era a Secretaria de Segurança Pública, cuja missão (infelizmente tão mal cumprida) é manter o estado em ordem e as pessoas em segurança.

O MST foi recebido à bala. O subsecretário de Segurança Pública, Ari Pereira, sacou a arma, aparentemente apontou-a em direção aos manifestantes (a imprensa diz existir uma foto em que este gesto está registrado), mas na hora de puxar o gatilho ele apontou a arma para o alto e disparou. Ufa. Não haveria por ali, na entrada principal da Secretaria da Segurança Pública, um policial fardado. Um que pudesse dar o tiro dissuasor (ou tiros, há mais de uma versão) que o subsecretário surpreendentemente deu? Pergunto se não havia ao menos um soldado, pois de um batalhão de choque (desses que surgem nas manifestações de rua dissociadas do MST e outros “movimentos sociais”) sabe-se da inexistência no local. Nesses tempos de espionagem globalizada, fico surpreso, quase estupefato, ao entender que o governo baiano não sabia que o prédio que comanda a segurança no Estado da Bahia ia ser invadido às 8 horas da matina.

O MST tinha uma reivindicação séria e, como disse ontem o governador Jaques Wagner, é de responsabilidade do governo estadual, “mas não é tão simples, creio que isto no sentido de que é uma questão complexa. Desvendar o assassinato de uma liderança do MST, prender o culpado ou culpados e dar ao caso a devida resolução na esfera do Executivo.

Entre as declarações que fez ontem a respeito de todo o episódio, o governador, dizendo que o assunto será apurado, mas já antecipando razões de defesa do subsecretário Ari Pereira, disse: “Então o pessoal entra de foice, de facão, invadindo a sede da Segurança Pública, já praticamente entrando no local”.
Foice, facão… foram-se os instrumentos de trabalho, emergiu o arsenal. Será mesmo isso, ou entendi mal?

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