Os presos e desaparecidos foram lembrados na vila Grimaldi, centro de tortura entre 1973 e 1990 MARTIN BERNETTI/AFP

=====================================================

DEU NO JORNAL PÚBLICO, DE LISBOA

Ana Gomes Ferreira

As manifestações começaram mal deu a meia-noite, e os confrontos também. Grupos de pessoas que protestaram, na madrugada desta quarta-feira, contra o golpe que há 40 anos depôs o Presidente eleito Salvador Allende, foram travadas pela polícia e houve confrontos em Santiago.

Foram atiradas bombas incendiárias, cortadas algumas estradas e erguidas barricadas com pneus em fogo. Treze pessoas foram detidas às primeiras horas da manhã, relata a Associated Press. Uma fonte da polícia disse ter ficado surpreendido pois esperava mais gente na rua e confrontos mais violentos.

No dia 11 de Setembro de 1973 o general Augusto Pinochet derrubou, pela força das armas, o Presidente Allende, um socialista que morreu nesse dia.

Começaram, faz nesta quarta-feira quatro décadas, 17 anos de uma ditadura que assassinou 3095 pessoas, 1200 delas ainda consideradas “desaparecidas”.

O aniversário apanhou o Chile em campanha eleitoral — em Novembro os cidadãos escolhem um novo Presidente — e este clima de discussão política alimentou um debate intenso sobre a herança de Pinochet e o passado dos intervenientes na vida pública.

Os “cúmplices passivos”

A direita está debaixo de um ataque generalizado e deverá perder as eleições — o atual chefe de Estado, Sebastián Piñera, é um homem da direita, que enfureceu o seu próprio campo ao falar, há dias, nos “cúmplices passivos” de Pinochet. O bloco Renovação Nacional (que elegeu Piñera) e a União Democrata Independente (UDI, extrema-direita) fizeram um protesto formal à presidência considerando as palavras incómodas e injustas, relata o El País.

Foi o próprio Piñera quem incentivou o debate e ajudou a criar a clivagem que se acentuou nos últimos dias no cenário político chileno, aproveitando a aproximação do aniversário do golpe. “O passo decisivo foi dado por Piñera quando sublinhou as responsabilidades da imprensa e dos juízes nas violações dos direitos humanos. O uso deste conceito foi uma verdadeira condenação da atitude geral adotada pela direita, em especial da UDI, durante a ditadura e já depois na transição”, disse Peña.

O debate afundou nas sondagens a candidata da direita, Evelyn Matthei. Matthei, cujo pai militar colaborou com Pinochet, fez campanha pelo “Sim” no referendo de 1988 sobre a permanência de Pinochet por mais oito anos no poder ou a sua saída.

A sua grande opositora, Michelle Bachelet (que já foi chefe de Estado), candidata do centro-esquerda (que junta partidos tão distintos como o Socialista, a Democracia Cristã e o Comunista), exigiu que a rival se desculpasse publicamente sobre a participação na campanha do “Sim” — Pinochet perdeu o que precipitou a sua saída do poder em 1990; morreu em 2006.

“Eu tinha 20 anos quando o golpe se deu. Não tenho que pedir perdão”, disse Matthei.

“Há fatos que ainda se desconhecem, justiça que não foi feita, dor e feridas que não sararam. E há gente que não reconhece ou se arrepende do que fez ou não fez”, disse Michelle Bachelet, cujo pai também era militar mas se manteve fiel a Allande e, por isso, foi preso e morreu de ataque de coração devido às torturas. A própria Bachelet foi presa e torturada antes de partir para o exílio.

Pegadas do regime

Sebastian Piñera disse que o Chile está pronto para a reconciliação, mas esse objetivo parece longinquo. O próprio Presidente em fim de mandato acrescentou que faltam elementos fundamentais: “A verdade e a justiça são dois imperativos morais de qualquer sociedade que passa por momentos traumáticos como os nossos. Ainda falta verdade e justiça”.

Os cidadãos, e lendo os resultados das sondagens, parecem estar mais à frente do que os políticos na procura dessas metas — numa sondagem recente do instituto CERC, 55% dos inquiridos disseram que os anos Pinochet foram “totalmente maus”; há três anos eram 35%. Só nove por cento responderam que foram “totalmente bons”.

“A nova geração pressiona , quer que os pais contem a verdade, contem como foi e quem foi responsável”, disse à Reuters o analista Pablo Salvat, professor de política na Universidade Alberto Hurtado de Santiago do Chile. Só há poucos anos, explicou o professor, quando tiveram acesso à Internet e à televisão por cabo, muitos chilenos perceberam bem ou tiveram conhecimento do que aconteceu durante a ditadura.

No inquérito do Centro de Estudos da Realidade Contemporânea, 76% dos entrevistados consideraram que Pinochet foi um “ditador” e 75% disseram que “as pegadas do regime” ainda estão frescas.

Uma dessas pegadas é o sistema eleitoral, que torna difícil que um partido consiga a maioria no Congresso. Bachelet deverá ganhar (44% das intenções de voto contra 12% para Matthei), mas para cumprir todas as suas promessas — e as principais são reformar a lei eleitoral e a Constituição que está cheia da tais pegadas — tem que conseguir que a direita se alie a si no parlamento; a direita insiste que bastam pequenos ajustes na Lei Fundamental.

“Se Bachelet ganhar vai ter grandes dificuldades… e as pessoas vão exigir na rua que cumpra as promessas que fez”, diz Sergio Bitar, que foi ministro de Allande e de Bachelet.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • setembro 2013
    S T Q Q S S D
    « ago   out »
     1
    2345678
    9101112131415
    16171819202122
    23242526272829
    30