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OPINIÃO POLÍTICA

O dilema

Ivan de Carvalho

Os Estados Unidos estão a um passo de tomar uma decisão final sobre um ataque com mísseis e aviões a alvos militares na Síria, sob o fundamento de que o governo do ditador Bashar al-Assad usou armas químicas (no caso o gás sarin) contra bairros de Damasco, a capital do país. O governo americano assegura ter provas, inclusive laboratoriais, mas também de comunicações trocadas entre oficiais sírios – além das imagens conhecidas pelo mundo inteiro – que dão “alto grau de certeza” do uso do gás pelo governo sírio.

O conjunto das provas e principalmente as provas ainda reservadas parecem ser consistentes. Dois fatos políticos importantes levam a esta crença. O presidente Obama, que é democrata e tem maioria no Senado, obteve do senador republicano John McCain, que foi seu oponente nas eleições presidenciais, apoio para o ataque aéreo à Síria. Mais importante ainda é que Obama, em encontro com o líder da oposição na Câmara de Representantes (onde os democratas são minoritários), conseguiu convencer (terá, para isso, aberto o conjunto de provas reservadas) o líder republicano, que representa ali a oposição e deu apoio ao ataque.

Como o Congresso está em recesso até o dia 9, o mais provável é que o presidente Obama aguarde que o Capitólio volte a funcionar e decida se endossa ou não sua decisão (que disse já estar tomada, mas querer dividir com o povo, por meio do Congresso) fazer o ataque.

Trata-se de uma questão difícil. Não fazer nada, abster-se de agir (mesmo somente com bombardeios a partir de navios e aviões, numa ação “restrita”, sem invasão por terra, o que na conjuntura seria uma temeridade além de todos os limites), será, na prática, a anulação do tratado internacional que proibiu de usar armas químicas em guerras. O uso proliferaria, podendo-se supor que em seguida também as banidas armas biológicas passariam a ser usadas e as crises político-militares e humanitárias se tornariam tão fortes que poderiam dar margem, perdão, pretexto, para alguém disparar a primeira bomba nuclear, em seguida à qual viriam – as outras.

No entanto, o conjunto de fatores em jogo na região do chamado Oriente Médio é tão perigoso, tão explosivo, tão pleno de complicações políticas, militares, econômicas, religiosas e psicológicas que qualquer marola pode facilmente sofrer mutação para tsunami.

Então, fazer de conta, no que diz respeito a uma resposta com ação e não apenas discurso, que ninguém viu a catástrofe humanitária produzida pelo gás sarin do governo Bashar al-Assad, será um desastre. Será também extremamente perigoso o “ataque limitado” dos Estados Unidos e França à Síria. Ainda que isto ocorra com o forte estímulo político, diplomático e verbal do Reino Unido, Turquia, Liga Árabe e menos indiscretamente da Alemanha.

A Otan – hoje, por causa do fim da Guerra Fria, que dá todos os sinais de que está recomeçando – é muito mais uma entidade política que uma organização militar e não quer assumir a responsabilidade formal, evitando assim desgastes para alguns governos que a integram e sobretudo evitando desagradar a Rússia. No Conselho de Segurança da ONU, o assunto nem foi posto, pois eram certos os vetos da Rússia e China, aliadas do governo sírio.

Havendo o ataque com mísseis e aviões em escala não tão “restrita” – restrita apenas aos alvos militares e políticos do governo Bashar al-Assad, mas com intensidade –, a Síria ficará inerte? Tentará ataques aéreos contra Israel? Diretamente, é provável que não, embora Israel esteja de prontidão. Mas o que acontecerá no Líbano, onde a Síria tem forte influência e mania de proprietária? O Hezbollah, sustentado pela Síria e Irã, domina o sul do Líbano, limítrofe com Israel. O fustigamento poderá começar aí e, com certeza, partiria também da Faixa de Gaza, ao sul de Israel, não fosse o Exército egípcio, que hoje comanda o país dos faraós, detestar o Hamas e querer manter o tratado de paz com Israel.

Mas como se comportará a Rússia a partir de uma ação militar franco-americana, mesmo passageira, na aliada Síria? Nem penso a curto, mas a médio e longo prazos, como isso estimularia a Rússia no caminho que parece já haver discretamente adotado de preparar-se para uma nova Guerra Fria, que pode acabar não sendo, como a anterior, fria.

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