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CRÔNICA/ CUBANOS

Buena Vista Hospital Club

Janio Ferreira Soares

Como é o assunto da hora, entrei na onda e resolvi fazer uma pequena homenagem aos médicos cubanos que acabaram de chegar à Bahia. Para tanto, peguei uma garrafa de rum, a Playboy de Nanda Costa e coloquei um disco de Ibrahim Ferrer para sacudir os velhos falantes que nunca se negaram a mandar brasa naqueles momentos em que a labuta permite que tons, semitons e bemóis embalem a leveza do ócio. E enquanto Aquellos Ojos Verdes e outras do mesmo naipe se alternam num desfile digno de uma bodega de Havana – e do Fidel incidental que se insinua nas partes íntimas da atriz -, fico pensando em como será quando nossos sertanejos estiverem diante dos forasteiros doutores. Desconfiados como são, presumo muita confusão na hora em que, por exemplo, dona Sebastiana entrar com seu filho Raminho na sala do doutor Pablo. Treinado para agradar, certamente o cubano arriscará um baianhol de ocasião.

– E aí, mi chica, tudo massa? Mi nombre es Pablo, igual lo cantante baiano del arrocha! Que passa com su muchacho?

Mesmo sem entender nada, dona Sebastiana se antecipa e vai logo dizendo que seu muchacho, coitado, anda com a barriga estufada e os olhinhos mais arregalados que os de um bacurau diante de um farol de xenon, o que, na sua larga experiência de mãe de mais de oito, só pode ser lombriga. Consultando um glossário que o ministro Padilha providenciou, Pablo “del arrocha” vê que lombriga significa “lombriz”, e começa a consulta.

Brincadeiras à parte, quem tem um mínimo de bom senso sabe que a chegada dos estrangeiros não vai resolver em nada os crônicos problemas de nossa saúde pública. De que adianta uma maior agilidade nas consultas se os exames solicitados demorarão uma eternidade para voltar às mãos do doutor? E, na hipótese de o resultado indicar uma cirurgia, ela será feita onde? No Sírio Libanês da esquina?

Com o rum pela metade, agora é a vez do doutor Compay Segundo me receitar algumas gotas de Perfídia ao cair da tarde. Sorvo-as com inolvidável prazer e entorpeço feliz no leito do meu Buena Vista Hospital Club.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Esporte e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio Sâo Francisco
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