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OPINIÃO POLÍTICA

Contratempo no quinteto

Ivan de Carvalho

A negativa da maioria do Parlamento britânico, onde o primeiro-ministro conservador David Cameron tem maioria, ao pedido dele para, juntamente com os Estados Unidos e a França, retaliar militarmente o uso de arma química (gás sarin) pelo governo sírio contra a população civil, o que matou mais de mil pessoas, representa um trincamento, ou pelo menos um contratempo, na unidade não oficial, mas firme e persistente, entre cinco países que há alguns anos vêm atuando militar e politicamente como se fossem um só.
A França não é um desses cinco países e está presente na questão do gás sarin na Síria pela convicção de que é uma imprudência não dar uma resposta enérgica, militar, ainda que limitada a ataques contra alvos escolhidos com mísseis e aviões – sem envolvimento de tropas por terra – a uma ação de guerra química, proibida pelas Nações Unidas mediante tratado que envolve quase a totalidade dos países do mundo. No caso, a guerra química foi feita contra população civil, homens, mulheres e crianças, o que aumenta – se isto é possível – a gravidade do que aconteceu.
Se não se dá uma resposta ao precedente, este poderá eventualmente vir a gerar uma rotina. E já que o uso de armas químicas, mesmo proibido, é praticado sem que o autor sofra uma consequência importante, o que impedirá de, na próxima esquina, pessoas da mesma estirpe do ditador sírio Bashar al-Assad lançarem mão de armas biológicas?
Por isto, enfrentando a interesseira oposição da Rússia e da República Popular da China, o que impede uma ação com aprovação do Conselho de Segurança da ONU, Estados Unidos, Reino Unido e França, com forte estímulo da Alemanha, preparavam-se para uma ação militar aérea. E então o primeiro-ministro inglês, querendo dividir com o Parlamento o desgaste por uma ação que não é bem vista por 70 por cento da população do Reino Unido – ainda ressabiada com as “armas de destruição em massa” – não encontradas no Iraque quando, sob o pretexto de que elas existiam, Estados Unidos e Inglaterra invadiram o país do ditador-monstro Saddam Hussein.
Embora tivesse autoridade para atacar sem pedir a autorização do Parlamento, David Cameron fez o pedido – e então o teve negado e ficou de mãos atadas. Com isso, conseguiu uma derrota política interna e enfraquecer a planejada ação americana do democrata Barack Obama secundada pela França do socialista François Hollande.
Mas voltemos aos cinco Estados que formam há alguns anos e cada vez mais estreitamente uma unidade político-militar, sem esquecer as áreas de inteligência e de tecnologia. Trata-se de assunto bem pouco conhecido da população em geral, mas do qual estão a par as cúpulas políticas, militares, econômicas, de inteligência e diplomáticas do mundo inteiro, não se podendo garantir, infelizmente, que algum Antônio Patriota ou Marco Aurélio Garcia estejam a tal respeito mais por fora que umbigo de vedete. E dispostos a dizer que não sabiam de nada.
São esses Estados o Reino Unido, os Estados Unidos da América, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia. Note-se que, entre os cinco, estão três dos maiores países do mundo, além da maior potência militar e de uma potência militar da segunda classe, mas muito relevante (o Reino Unido) e do Canadá, praticamente formando uma unidade militar com os Estados Unidos. A distribuição do quinteto no planeta também é relevante sob o aspecto geopolítico.

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