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OPINIÃO POLÍTICA

Coisa de gerente

Ivan de Carvalho

Faltam apenas dez dias para a presidente Dilma Rousseff ser submetida a um teste importante. No dia 7 de setembro, quando se comemora a independência do Brasil, ela vai presidir, em Brasília, o desfile militar que marca o “grito do Ipiranga”, nossa algo polêmica declaração de independência em relação a Portugal.

Para o mesmo dia, estão sendo convocadas para diversas cidades do país manifestações populares de rua e no principal foco de atenção a este respeito está naturalmente a capital federal, exatamente por ser lá que está a cúpula do poder nacional e, especialmente, a presidente da República.

É claro que o governo Dilma Rousseff e a Polícia Militar do Distrito Federal vão fazer todo o possível para excluir a possibilidade de uma confrontação visual e verbal (ainda que não violenta) entre as autoridades encarapitadas no certamente bem protegido palanque oficial e eventual multidão que venha a atender às convocações para uma manifestação de rua em áreas adjacentes.

Em ocasião anterior, também no 7 de setembro, o governo agiu – e é até natural que isso ocorresse – para não permitir a coincidência dos festejos da Independência e de manifestação (na época, contra a corrupção) no mesmo local. Os dois eventos ocorreram em áreas próximas e mesmo em horários sucessivos, mas chegou a haver uma certa interação: vaias partidas dos manifestantes chegaram a ser ouvidas, com não confessado, mas indisfarçável desagrado, pelo pessoal do palanque oficial.

Depois das grandes manifestações de junho no país, já aí envolvendo não somente a questão da corrupção, mas as da mobilidade urbana, saúde pública, insegurança pública e educação, principalmente, é possível que o 7 de setembro deste ano apresente algo politicamente bem mais denso em matéria de manifestações populares de rua.

No entanto, isto não pode ser dado como certo, pois a partir da espetacular queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff e da avaliação de seu governo de abril ao fim de junho, ela iniciou uma lenta recuperação detectada por pesquisas de opinião pública do Datafolha e Ibope. Pode ser que essa tendência de lenta recuperação acabe funcionando como um desestímulo à intensidade das manifestações de insatisfação popular.

De qualquer maneira, as manifestações convocadas pelas redes sociais para 7 de setembro, por sua dimensão maior ou menor, deverão ter uma influência expressiva, a favor ou contra a recuperação da popularidade de Dilma Rousseff e de seu governo, não importa muito a incrível patuscada gerada entre o Palácio do Planalto, o Ministério das Relações Exteriores e a Embaixada do Brasil na Bolívia. Este é um assunto “sofisticado” que talvez não emocione e nem tenha seu caráter absurdo e burlesco (não pelo diplomata Saboya, que é o herói da história, o único que cumpriu seu dever) no foco das atenções da maioria da população.

Bem, voltando ao 7 de setembro, se a presidente passar no teste, isto pode ser um sinal forte de que está com uma tendência persistente de recuperação, ainda que por enquanto esta esteja se revelando lenta. Mas este sinal, este indicador, não é uma garantia incondicional, pois em verdade a grande dificuldade de aprovação do governo Dilma Rousseff e a candidatura dela à reeleição é o cenário de dificuldade econômica e financeira em que o país está mergulhando – ou se aprofundando.

Já houve uma queda de dez por cento do poder aquisitivo da população, dizem muitos economistas. O Banco Central se dispõe a aumentar os juros (depois de os haver abaixado para estimular o crescimento da economia, que foi um fiasco e estima-se que continuará sendo) para empurrar para baixo a inflação, enquanto a cotação do real cai ante o dólar, que foge do país, o que pressiona a inflação para cima, encarecendo produtos importados. Então o governo adota medidas de desoneração de itens de importação, para suavizar esse efeito.

A impressão que fica é a de uma contínua improvisação no setor econômico-financeiro. Táticas sem estratégia. Coisa de gerente, não de presidente.

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