DEU NO G1

O embaixador aposentado Gilberto Vergne Saboia afirmou nesta segunda-feira (26) ao G1 que apoia como pai a atitude do filho Eduardo Saboia, diplomata brasileiro que, como interino na embaixada do Brasil na Bolívia, decidiu trazer ao país o senador boliviano Roger Pinto. Segundo Saboia, o filho “agiu bem, em conformidade com princípios humanitários”. “Há momentos em que os limites entre a hierarquia e a Ética ficam um pouco difíceis de precisar”, afirmou.
Ele agiu bem, em conformidade com os princípios humanitários. Para assegurar que não houvesse um prejuízo forte ao asilo que foi concedido ao senador e à própria integridade do senador, que estava sofrendo muito”

O parlamentar Roger Pinto, de 53 anos, opositor do presidente Evo Morales, chegou ao Brasil sem ter salvo-conduto do governo para deixar a Bolívia. Ele estava asilado na representação brasileira em La Paz há 455 e cruzou a fronteira em carro da embaixada, em ação de responsabilidade do diplomata Eduardo Saboia, com apoio de fuzileiros navais.

Em entrevista ao Fantástico neste domingo (25), o diplomata brasileiro Eduardo Saboia afirmou que foi dele a decisão de trazer o senador ao Brasil. “Tomei a decisão de conduzir essa operação, pois havia o risco iminente à vida e à dignidade do senador”, disse.

“Eu acho que estou sempre ao lado do meu filho. Ele agiu bem, em conformidade com os princípios humanitários. Para assegurar que não houvesse um prejuízo forte ao asilo que foi concedido ao senador e à própria integridade do senador, que estava sofrendo muito”, disse o embaixador aposentado.

“Há momentos em que os limites entre a hierarquia e a Ética ficam um pouco difíceis de precisar. Há momentos também de urgência, de necessidade, em que um indivíduo que está sob a responsabilidade de uma determinada repartição precisa tomar uma decisão sem esperar que venha uma instrução precisa. É como um comandante no voo. Não me cabe julgar, mas acredito isso que foi o que ocorreu”, afirmou.

O embaixador contou que só soube da viagem depois que Eduardo ligou de Corumbá (MS). A viagem entre a capital boliviana e a cidade fronteiriça durou 22 horas.

“Sem dúvida foi uma decisão corajosa, da qual eu não tinha conhecimento prévio. De conformidade com os princípios da Constituição. Só soube do desfecho da ação quando ele me telefonou de Corumbá, já no fim, com o senador saindo de avião para Brasília, muito emocionado, muito esgotado, evidente”, disse o pai.

Aos 71 anos, aposentado, Saboia foi embaixador pelo Brasil em Haia, Países Baixos, e membro da Comissão de Direito Internacional (2007-2011) eleito pela Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), onde também foi representante permanente para a Proibição das Armas Químicas.

Reconhecido por sua defesa dos direitos humanos, ele também presidiu o Comitê de Redação da Conferência Mundial para os Direitos Humanos, em Viena (1993), chefiou a delegação brasileira na Conferência para o Estabelecimento do Tribunal Penal Internacional, em Roma (1998); foi secretário de Estado para os Direitos Humanos entre 2000 e 2001 e subsecretário-geral de Assuntos Políticos do Itamaraty entre 2002 e 2003.

Como já não é mais embaixador, ele afirmou que prefere não falar sobre possíveis consequências do caso, depois que o Itamaraty informou por meio de nota que não autorizou a ação. “Ele recebeu ordens para ir Brasília. Ele teve que dar certas declarações porque o nome dele foi citado na nota do Itamaraty. Ele agora está acatando os trâmites internos do Itamaraty. Sempre foi um funcionário muito disciplinado”, disse.

Questionado sobre se faria o mesmo, respondeu: “Creio que sim, porque isso tem inclusive antecedentes, em momentos difíceis como a ditadura”. “Tem outros princípios mais superiores [do que a hierarquia] que emanam da Constituição, dos direitos humanos. Isso não é uma coisa que se possa considerar corriqueira, ela é excepcional. Não pode criar precedentes, é excepcional e tem que ser assim tratada.”

Polêmica

Na Bolívia, Roger Pinto foi condenado no mês de junho a um ano de prisão por “abandono do dever” e por “dano econômico ao Estado”. Segundo a denúncia, ele foi responsável por prejuízo de mais de 1,6 milhão de dólares aos cofres públicos em 2000. Ele responde ainda a cerca de 20 processos por desacato, venda de bens do Estado e corrupção. O parlamentar alega perseguição política do governo de Evo Morales.

O procurador geral interino da Bolívia, Roberto Ramírez, informou nesta segunda (26) que o Ministério Público está analisando o procedimento jurídico para a extradição do senador.

Neste domingo, o Ministério das Relações Exteriores informou, por meio de nota, que abrirá inquérito para apurar as circunstâncias da transferência para o Brasil do senador boliviano. Segundo a AGU, o governo brasileiro não podia conceder carro diplomático, uma vez que há decisões da Justiça boliviana restringindo a possibilidade de o senador deixar o país.

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