Covilhã: incêndios devastadores na Serra da Estrela

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Portugal em chamas

Washington José de Souza Filho

O calor que nesta época do ano no Hemisfério Norte, em função do Verão, faz com que muitos europeus, os portugueses, naturalmente, incluídos, sonhem com um período de férias na praia, mesmo em um período de dificuldades como o que vive Portugal, estabelece em paralelo outra marca: a sucessão de incêndios em áreas florestais. Um levantamento do jornal Público indica a ocorrência de uma quantidade que destruiu, este ano, em relação às florestas do país – que corresponde a um terço do território de Portugal –, o equivalente a uma área quatro vezes igual à de Lisboa, que tem 85 quilômetros quadrados de extensão.

Mais do que a extensão destruída do que foi considerada pelo mesmo jornal, minas de diamantes de Portugal, pela capacidade produtiva decorrente da silvicultura, com participação nas exportações do país, através da pasta de papel e cortiça, os incêndios causam perdas que afetam as pessoas, como as mortes de três bombeiros, desde o início de agosto.

“Está tudo a arder” é a frase mais ouvida, nas entrevistas dos telejornais dos moradores das regiões atingidas e nas conversas nos vários pontos de uma cidade, como Covilhã, na região da Beira Interior.

No período de uma semana, a cidade foi atingida por dois registros de incêndio, nesta fase. Os dias têm sido marcados pelo som das sirenes das viaturas dos bombeiros e ambulâncias, providenciando o combate ao fogo e socorro aos feridos. Os bombeiros, as maiores vítimas, tem uma parte deles formada por voluntários. Muitos são jovens que recebem, como todos os voluntários, menos de dois euros por hora trabalhada.

Um valor, por certo, de grande utilidade para vida deles, com a crise econômica de Portugal.

A rotina de trabalho dos bombeiros tem superado a média de 24 horas por dia. A forma de convocação dos voluntários, através uma sirene, transmitido para vários pontos da cidade atingida, lembra o som que era ouvido nas áreas sob o fogo da aviação alemã, no período da Segunda Guerra – da qual Portugal, pela engenhosa ação do ditador Oliveira Salazar, se manteve afastada.

O paradoxo é que o maior auxílio para o combate aos incêndios, nas regiões de difícil acesso, é a utilização de aviões e helicópteros. Eles fazem, por todo o dia, um vai e vem constante, atravessando o espaço aéreo das cidades, trazendo a água necessária para controlar o fogo.

Os motivos para a sucessão de incêndios são os mais diversos. Há reclamações contra a falta de prevenção, por parte das autoridades, em relação às áreas baldias, principalmente perto das encostas em regiões montanhosas, como na parte central do país, na qual está a Beira Interior, assim como o abandono das áreas pelos proprietários.

Até um dos tipos das árvores plantadas é considerada como um agente dos incêndios, pela sua constituição, em parte resina, de fácil combustão. Outro fato é a identificação de acusados como incendiários. O que coloca mais lenha nas conversas, de acordo com o perfil, de acordo com as características dos presos: homens, viúvos ou separados, em estado depressivo, dependente de álcool e sem emprego.

A terra, um dos símbolos da Revolução dos Cravos, que em 2014 completa 40 anos, tem sido abandonada, progressivamente, pelos proprietários. Na época da Revolução, a desapropriação das grandes propriedades, para a distribuição entre os trabalhadores, foi um dos atos mais significativos da transformação estabelecida em Portugal, com o fim da ditadura de Salazar. Nem a cobrança de multas pelo Governo faz quem tenha a posse ter o interesse em cuidar, principalmente os mais jovens. O trabalho na agricultura é uma atividade dos mais velhos.

O calor que leva às praias mostra a realidade das dificuldades de um país como Portugal. Uma das suas fontes de economia, a riqueza das suas florestas, sob o risco de destruição, em um período em que o bom da vida para quem pode, é ir para a praia, aproveitar o Verão, mas que contribui para provocar os incêndios, com a baixa umidade e as altas temperaturas. Um clima que, literalmente, incendeia a vida do país.

Washington José de Souza Filho , jornalista, é professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, está em Covilhã, Portugal, em cuja universidade realiza estudos de especialização.

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