O cronista quando jovem
(mais jovem)

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CRÔNICA

Criando filhos para o mundo

Janio Ferreira Soares

Quase ao mesmo tempo em que um garoto de 13 anos era apontado como o principal suspeito de matar os pais, avó e tia com tiros de pistola, caiu em minhas mãos uma foto de um inesquecível casamento ocorrido há quase 50 anos na cidade de Glória (BA), cujas lembranças, embora nebulosas, sempre surgiam durante o sutil intervalo que compreende o princípio da madorna e o começar dos sonhos. Digo inesquecível porque foi nesse dia que eu bebi minha primeira coca-cola – morna e engolida diretamente no gargalo -, que provocou neste locutor memoráveis arrotos e inesperados olhos aguados, tudo devidamente acompanhado por uma estranha e gasosa sensação de felicidade.

Com o aparecimento dessa foto, finalmente fiquei sabendo que aquele dia fora uma quarta-feira de julho de 1965, tempo de chuva fina e das Santas Missões, o que explica alguns meninos com roupas de primeira comunhão e cara de “não me toque que acabei de receber a hóstia!”. Em seguida me vi meio assustado ao lado de outras crianças com semblantes igualmente tensos, possivelmente causados pela inédita situação do alvoroço fotográfico. Olho mais uma vez para a imagem e tento imaginar as perspectivas daqueles pais em relação ao futuro de uma meninada criada livre e solta como as águas do São Francisco antes do compromisso de rodar turbinas.

Escolas? Só a de dona Bidinha, cujo cheiro da cocada de coco que ela fazia não deixava ninguém se ligar no “bê-a-bá”. Cursos complementares? Muitos banhos de rio e umbus à vontade. Intercâmbio cultural? Longas andanças nas noites de relativo breu, com as luzes dos postes emitindo o clarão exato que o firmamento desejava para compor um quadro surreal. Apesar (ou por causa) disso escapamos todos e hoje estamos aqui, neste mundo onde quase mais nada surpreende, a não ser, talvez, o fato de que houve um tempo em que, no lugar de Facebook, celulares e aulas de tiros, a garotada tinha nas mãos a lentidão da vida e a certeza de que a única matança que poderia acontecer era a morte de algumas galinhas para o almoço de domingo.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio S~~ao Francisco.

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Comentários

Mariana Soares on 17 agosto, 2013 at 15:07 #

Que beleza!
Esta tal modernidade trouxe, é verdade, muita coisa boa, muitos avanços e, sem duvida, é a tal da vida que segue.
Mas, o que trouxe de assombro junto com ela, especialmente para os jovens e crianças, perdidos nos teclados e maquinas da vida, dá medo e desesperança.
Beleza de artigo! Triste realidade!


Graça Azevedo on 17 agosto, 2013 at 16:12 #

Saudades de um tempo em que o nosso medo não era essa coisa difusa que hoje nos assalta no momento em que acordamos, que caminhávamos acompanhando nossos sonhos e que os amores se construiam olhos nos olhos. Enfim, vida que segue…
Lindo artigo para se ler olhando o mar infinitamente azul de Salvador.


Olivia on 17 agosto, 2013 at 19:00 #

Maravilhoso! Janinho bota pra quebrar, lindo.


Criando filhos para o mundo | ZÉducando on 17 agosto, 2013 at 19:20 #

[…] Criando filhos para o mundo  […]


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