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OPINIÃO POLÍTICA

Manifestações, o retorno

Ivan de Carvalho

Há fartas explicações para a insatisfação popular, com ênfase na classe média, que levou ao espetacular conjunto de manifestações populares ocorridas nas três últimas semanas de junho.

Se a insatisfação pode ser explicada com alguma facilidade, permanece o enigma do que foi que transformou esta insatisfação, que vinha sendo guardada nos lares, explodir nas ruas em forma de manifestações, algumas enormes, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Claro que houve um estopim. Aceso em São Paulo pelo Movimento Passe Livre por causa do aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus determinado pelo prefeito petista Fernando Haddad e logo estendido para abranger também os planos do governador tucano Geraldo Alckmin de aumentar os preços das passagens do metrô.

No início do protesto prefeito e governador buscaram escorar-se um no outro para, em uníssono, declarar “fora de cogitação” atender à reclamação dos manifestantes. Mas, sobre ser o transporte público numa metrópole (mais ainda se tem as dimensões de São Paulo) uma questão essencial, logo veio o devastador slogan “não é só pelos 20 por cento”.

Isso ampliou o foco e, com intensidade, trouxe a sociedade para dentro do movimento. Não eram só os 20 por cento dos ônibus da prefeitura paulistana e os preços no metrô, mas era também o devastado sistema público de saúde, a educação de mentira, a insegurança pública, a corrupção de verdade, endêmica e epidêmica a um tempo, o cinismo e a falta de respeito na gestão do dinheiro público.

Então, claro que houve um estopim, um início de mobilização partida do MPL paulistano, mas o estopim não é a bomba. E a bomba, ao explodir, quase poderíamos dizer do Oiapoque ao Chuí, mexeu profundamente com o país, deixando atônitos os políticos em geral e os governos – à frente o de Dilma Rousseff – em especial. No entanto, o que, exatamente, numa espécie de “insight” social, metamorfoseou a insatisfação guardada em casa e no peito em exigente ação de rua durante aquelas três semanas, permanece um enigma.

No momento, não há como prever por meios tradicionais ou ao menos racionais (assim como não havia antes de junho) se as manifestações vão voltar. A percepção de que o que vem se fazendo a pretexto de entender e “atender” aos manifestantes de junho vai pouco além de propaganda enganosa e propostas que de antemão se sabia inviáveis (Constituinte exclusiva, plebiscito ao gosto petista com efeitos nas eleições de 2014) pode surgir e se consolidar – ou não.

Em caso afirmativo, poderá ser um elemento de estímulo à volta da classe média às ruas. Uma reversão, nos ainda incertos embargos infringentes, nas penas impostas aos réus no processo do Mensalão (graças à soma dos dois mais novos ministros do STF a alguns que já estavam lá e atuaram na mesma linha) também pode gerar insatisfação e até irritação, devido ao reforço que isso daria à sensação de impunidade para crimes de corrupção.

Bem, há também, e principalmente, a economia. Não há dúvida de que a gestão da economia vem sendo ruim há bastante tempo e não mostra sinais relevantes de melhoria. Se a economia não alcançar melhor desempenho e não for perceptível mais qualidade em sua gestão, então as chances de uma retomada das manifestações (não adianta tentar adivinhar quando) podem se tornar consideráveis.

Difícil será o Movimento Passe Livre assumir outra vez o papel de estopim. Está cada vez mais comprometido com partidos, instrumentalizado por eles, pelo que se pode observar na manifestação que ocorre na Câmara Municipal de Salvador.

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