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Dominguinhos e a voz no ônibus.

Paquito

Conheci pessoalmente Dominguinhos nos bastidores de uma gravação pra tv aqui na Bahia. Na época, eu produzia o sambista Riachão e levava-o pra todo canto. Em um destes programas, estava também o sanfoneiro de Garanhuns. O encontro foi rápido, mas significativo pra mim.

De um lado, Riachão, antecipador dos animadores de trio elétrico, exibido, falador, gestos largos, jeito de ser originário do Recôncavo da Bahia. Do outro, Dominguinhos que, com um olhar e poucas palavras, dizia muito.

Aquele jeito de ser de Dominguinhos me lembrou pessoas que conheci na infância, em Jequié, e adolescência, em Iguaí, onde passava as festas juninas.

Era a nordestinidade, misto de quietude e determinado encantamento pelas coisas, feito tudo fosse novidade, quase uma inocência meio-sabedoria que reconheço quando encontro gente da minha família, amigos do interior, e mantém um tanto esse jeito quando a gente se pega em conversa mais demorada e se reconhece irmão de um lugar sei lá onde, cá no coração.

Dominguinhos tocou e conviveu com Gilberto Gil e Gal Costa, a turma pra frente da música do Brasil, mas, como disse, entre sorrisos, a Tárik de Souza no recentemente exibido MPBambas, do Canal Brasil, “não entrei muito na deles”. De alguma maneira, ele soube se contaminar sem perder seu jeito. Gonzagão dizia que Dominguinhos era o seu herdeiro e sucessor, e Dominguinhos se orgulhava disso, feito um discípulo diante do santo pop nordestino, com quem privou da música e amizade.

Difícil imaginar um artista urbano da canção, que se orgulhe de ser o herdeiro artístico de alguém. O cosmopolita comumente ambiciona a urgência do novo. O interiorano cultiva a ancestralidade, a condição dinástica, mas tanto um como o outro, se realizam o novo, o fazem a partir de uma tradição.

Dominguinhos sucedeu a Gonzagão sendo original, e fazendo coisas que seu mestre não faria, como a música de Tantas palavras, com letra de Chico Buarque, canção em três partes, quase como um choro, com a parte C sendo uma variação da A, mas, mesmo assim, diferente.

Tá lá no programa de Tárik, Dominguinhos mostrando que tocava choro em ritmo de baião e, por isso, passou a fazer melodias mais “cheias de notas” como no choro, criando daí um jeito dele de fazer forró.

O jeito dele e de Anastácia, parceira em dois clássicos que Gil gravou: Tenho sede e Eu só quero um xodó.

“Xodó” é uma palavra usada anteriormente por Gonzaga e Humberto Teixeira em Qui nem jiló, mas que conheci através da música de Dominguinhos e Anastácia, um hit na voz de Gil que, como se diz hoje, bombou quando eu era criança.

“Xodó” define com precisão e simplicidade o tamanho de um afeto.

Dominguinhos, voz do interior.

O homem entrou no ônibus e começou a falar em voz alta. Maltrapilho, rosto marcado e aspecto sujo, vinte e poucos anos presumidos, disse não ter dinheiro pra comprar sequer um violão, mas tinha a voz.

Eu e meu primo, nas primeiras cadeiras, entretidos na nossa conversa, quase não demos atenção.

Então ele soltou a voz, e da voz saiu uma canção de Renato Russo, aquela que Cássia Eller cantava.

Estamos indo de volta pra casa

A voz, mais cool que a do próprio Renato, tinha a medida certa de afinação e expressividade. Dentro do ônibus, se sobrepôs aos ruídos, despretensiosamente, apenas um jeito de pedir dinheiro. A gente acabou lhe dando umas moedas.

Aquela canção de Renato, ou qualquer canção, doce, assim, dentro de um ônibus, se perdendo no meio da gente, como se voltasse pra onde veio, refeita, renovada, mas ainda familiar.

A canção de Renato a meio caminho de ser um pretexto, um quase nada que passa pra esfera da significância pela existência pura e simples naquele final de manhã, via voz de um homem invisível, que a gente evitaria olhar não fosse seu canto sentido e sóbrio, antípoda de sua existência possivelmente mínima, pelas margens, deslocada mas buscando acontecer.

O pra sempre sempre acaba

Aquele homem, voz sem nome.

A ele, ao primo Igor, à memória de Dominguinhos e Jean Paul Charles, médico de bandolins e violões, dedico esta crônica.

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Comentários

Gilson Nogueira on 15 agosto, 2013 at 15:45 #

A Baía de Todos os Santos ali, estufando beleza em suas águas azuis da cor do céu.
O sol forte, em sábado feito para saudações de todos os tipos e gosos, pede festa.
Haja birita!Todos sorriem, juntos, em clima de não violência. Há uma alegria mansa nos encontros, prosa morna, como espuma da praia do Porto que cheira a preguiça. Beijos e abraços nus.
De repente, todos dizem ” É ele!”
Em segundos, ao borbulhar do chope tirado da garganta da máquina de fazer alegria, um passo ao encontro dele, um pulo no passeio, uma emoção sem conta.
Estou diante do Van Gogh do forró. Ao cumprimentá-lo, elogiando sua obra e o talento de seu irmão pianista do Bistrô do Luís, a emoção vira um beijo.
Dominguinhos retribui a saudação com um sorriso do tamanho dele, do Nordeste. Um sorriso grande, tipo rede de tirar soneca embaixo de qualquer pé de pau. Sorriso imenso que, até hoje, está lá, vivo, no ar, balançando sobre a balaustrada do Porto, perto do beco, entre uma árvore e outra, provando que ser Nordestino é um privilégio. a baía de Todos os Santos é nossa pia batismal. Dominguinhos vive!!!


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