A banalidade da morte

Washington José de Souza Filho

O jornalista Pablo Reis, hábil domador das palavras, às quais consegue dar o sentido exato, estabelecer com precisão o que representam, apesar da consternação, fez a definição correta da morte da jornalista Selma Barbosa, servidora técnica da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia: um ato banal.

A violência que foi incorporada à nossa rotina é que será responsabilizada, da mesma forma que ocorre em situações como esta. Mas quem saberá justificar por que ela ocorre e atinge pessoas íntegras, dedicadas ao seu trabalho de forma honesta e responsável, como era a vida de Selma Barbosa?

Conheci Selma na Faculdade de Comunicação, no mesmo Laboratório de Televisão e Vídeo, onde estava há 20 anos desde a vinda de Natal, na gestão do diretor na época, Albino Rubim. Por razões incompreendidas sobre a hierarquia da faculdade de uma universidade pública, ela estava outra vez na coordenação do Laboratório, uma função que é reservada para professores, desta vez escolhida pelo diretor Giovandro Ferreira, que está prestes a encerrar o mandato.

Selma tinha planos. O compromisso de coordenar o laboratório, ela juntou à realização de um curso de especialização, para o qual cogitava escrever uma monografia sobre o que trabalho que realizava. Ansiava a aposentadoria, mas não pretendia deixar de trabalhar e pensava em alternativas, como a de edição de vídeos para estudantes de cursos de Comunicação. Nas vezes em que estive com ela, quando ainda estava no Brasil, falávamos sobre projetos que poderia desenvolver, depois de concluindo o doutorado, e que teria a colaboração dela.

Era uma pessoa em paz com ela mesma. Espírita, acreditava que a vida, da forma que vivemos, era uma etapa de aprendizagem, para permitir a pessoa ser melhor. Agia, sempre, como uma cidadã. Preservava a vida e a segurança no trânsito, tanto que são evidentes nas imagens que registram a sua morte duas atitudes dela: parar e deixar o pisca alerta ligado, para indicar que estava estacionada; esperar que o carro dos assassinos a ultrapassasse, para seguir em frente. O que ela não esperava, como resposta à sua civilidade, é que o carro conduzisse a morte.

Selma era solidária. Ela estava entre as primeiras pessoas, ao lado de Paulo Silva, outro técnico do laboratório, que foram a um hospital, para me confortar, quando foi a minha vez de ser vítima da violência que todos conhecemos.

Ela estava a poucos metros de casa. Os especialistas em comentar qualquer coisa, incapazes de reconhecer a incapacidade de reação de quem é surpreendido pela brutalidade de ser ameaçado com uma arma, procuram agora encontrar a justificativa – é uma razão para não entenderem a violência –para um gesto desumano e cruel, de quem, por certo, vive à espera da próxima pedra, a chance de uma nova cheirada ou para beber o próximo gole.

A vida das pessoas tem um destino estabelecido, acreditava Selma. Ela, jornalista que escolheu ser editora de imagens, e que trabalhou todo o tempo com imagens, morreu diante de câmeras, que mostraram, na limitação dos 15 minutos de duração, a imensidão do tempo em que uma vida é encerrada.

As imagens da morte de Selma servem como retrato da indignidade dos que roubam a vida de quem acredita que pode colaborar para o mundo melhorar. Espero que possam servir de registro de uma situação em que não basta apenas o lamento pela vida que se perdeu. É preciso gritar pelo direito à vida, sem precisar esperar pelas promessas de que tudo vai mudar, como se houvesse a possibilidade de uma mágica. A dureza das imagens impede qualquer ilusão.

Washington José de Souza Filho é jornalista, professor de Faculdade de Comunicação da UFBA (FACOM), está atualmente em Covilhã, Portugal, em cuja universidade faz estudos de especialização.

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Imagens de câmera de segurança registraram o latrocínio da servidora da Ufba Selma Barbosa, na madrugada de 12 de agosto, no bairro do Costa Azul, em Salvador. Ela deixou uma amiga no prédio e foi abordada por assassinos que roubaram o carro, mas atiraram contra ela. Toda a ação durou apenas 15 segundos. Barbárie, estupidez e luto.
*Video exibido nos programas QVP e Na Mira, da TV Aratu/SBT

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Comentários

Lilyane on 12 agosto, 2013 at 20:31 #

Santo Deus, estamos morrendo por nada. Perdemos a noção do valor da vida.


Graça Azevedo on 12 agosto, 2013 at 22:14 #

O assassinato de Selma. O assassino do meu filho já pedindo as benesses da lei. A violência sem limites e a impunidade como norma. Triste.


elena orge pimenta machado on 13 agosto, 2013 at 12:34 #

Pobre moça! Foi a vítima da vez! Enquanto a impunidade falar mais alto, infelizmente, a violência só tende a crescer.


Claudio on 13 agosto, 2013 at 15:45 #

Ex-aluno da Facom, trabalhei com a rígida e competente Selma, guardiã do laboratório de TV. Uma imagem: numa das mesas da cantina, Selma diariamente com seu prato de salada, uma sagrada dieta vegetariana trazida de casa.

Que brutalidade, a sua morte, na curva ascendente da violência de Salvador, não somente motivada pela disparidade social, essa outra brutalidade brasileira. Há outros elementos culturais e políticos, estes talvez agravados pelos retardos do Estado no enfrentamento dos homicídios banais no interior e nas metrópoles.


Fernando on 14 agosto, 2013 at 10:20 #

A policia passa no momento da fuga dos assassinos já com o carro dela.


Olivia on 14 agosto, 2013 at 13:02 #

Estupidez.


Diadorim on 14 agosto, 2013 at 15:19 #

“Por razões incompreendidas sobre a hierarquia da faculdade de uma universidade pública, ela estava outra vez na coordenação do Laboratório”. Que comentário mais desrespeitoso… E percebem que é um texto de condolências… Onde está escrito que os cargos de chefia devem ser ocupados apenas por professores? Existe alguma lei? Por que um professor(a) cuja especialização é em, digamos, “O DNA exógeno do núcleo de células eucarióticas”, ou “A festas de Reis de Maracujipe de Baixo”, habilita qualquer pessoa a participar da administração de uma universidade? Mas é isso que dá trabalhar em instituições que são resquícios da Idade Média… Trabalhar no Vaticano dever ser algo muito parecido com trabalhar numa universidade pública brasileira.


Adriana on 16 agosto, 2013 at 21:23 #

Imagine se ela não fosse uma pessoa tão querida por ele. Só por ser ocupante do cargo de docente se acha melhor do que a colega tb jornalista.


Washington on 17 agosto, 2013 at 12:16 #

Caros Diadorim e Adriana, creio não ter ficado clara a observação sobre que imaginei fosse inferida como circunstâncias internas de uma unidade de ensino de uma instituição pública, como a UFBa, para a indicação de Selma, saudosa amiga e profissional de alto nível, para a função que exercia. Entre os professores da Faculdade de Comunicação devo ter ocupado a função de Coordenador por mais tempo, ainda que inconcebível, reservado para professores,para quem não percebe a característica de uma instituição medieval, como considerou Diadorim, nas Universidades da maior parte do mundo. A indicação dela quebra um paradigma, que não é contestado. Deixei o cargo, que não é remunerado, para fazer o doutoramento. Considerar o escrito de outra forma não é justo, em relação ao ocorrido com Selma, uma tragédia, que representa o verdadeiro combate a ser enfrentado.


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