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Postado em 20-07-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 20-07-2013 01:06

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ARTIGO DA SEMANA

Catedrais e terreiros na mesa política

Vitor Hugo Soares

A panela de pressão nacional ferve intensamente no Rio de Janeiro, nas vésperas do papa Francisco desembarcar em visita histórica à Cidade Maravilhosa. É simbólico e intrigante ver os protestos e tumultos que sacodem nestes dias o bairro do Leblon e as reações que provocam de todo lado e de todo tipo, mesmo as mais esdrúxulas, cínicas e descabidas.

É, no mínimo, desconcertante ver o festejado éden de convivência carioca e objeto de desejo de legiões de brasileiros e estrangeiros, de todas as partes, que passam ou residem entre a Avenida Ataulfo de Paiva e a praia badalada desde os anos 70, transformado em caótica praça de guerra. As imagens chocam e mexem com nervos e emoções das ruas, do poder, da política e da segurança.

Neste contexto, a expectativa da passagem do Papa pelo Rio conflagrado – sensação térmica de quase 40 graus neste estranho inverno brasileiro -, amplia, e muito, a ressonância de sentimentos e reações ambivalentes que há meses circulam e ecoam nas praças, nas redes sociais, na TV e jornais. Rugidos que voltam a incomodar e despertam atenções aqui e lá fora.

A voz das ruas parece celebrar com fé e renovado sopro de esperanças (postas no lugar de outras que se perderam, como na canção de Paulo Cesar Pinheiro e Ivan Lins) a vinda de Francisco. Na ponta oposta da corrente, o poder encastelado em Brasília e em suas cortes estaduais de todo tipo e matiz, dá sinais explícitos de andar às tontas, assombrado diante do que poderá fazer e dizer o carismático e imprevisível visitante nos dias que passará na cidade do Cristo Redentor.

Tudo pode acontecer. Neste caso, o mais improvável é que não aconteça nada. Com sua colossal estatura religiosa e ética, mas também política e participante (que ninguém se engane), aliados a uma inegável capacidade de mexer com as emoções de seu rebanho (e de outros), o papa Francisco vem participar do Encontro Mundial da Juventude no Rio de Janeiro.

Ou seja, o pontífice pisará em período crucial no território que virou epicentro da crise de poder, de ética e de falta de rumo e diretrizes confiáveis no Brasil. Mas também na América Latina e muitas outras partes do planeta – salvo raríssimas e honrosas exceções. A expectativa, portanto, se multiplica ainda mais.

É ingênuo pensar que o Papa Francisco, o argentino polêmico da Ordem dos Jesuítas, fará em vão sua primeira peregrinação desde que assumiu o trono de Pedro. No Rio, em Brasília ou em Salvador no ambiente destes dias, não é difícil verificar e prever o quanto de esperanças e de preocupações, ao mesmo tempo, provoca a simples perspectiva da chegada do líder de tamanha envergadura.

Além das cenas dramáticas do Leblon, duas imagens de conteúdo aparentemente religioso e ecumênico – uma no Palácio do Planalto e a outra na Governadoria do Estado da Bahia – assinalaram isto, exemplarmente esta, semana. Elas expõem com nitidez (apesar das tentativas de disfarce) o forte conteúdo político da presença de Francisco no meio do furacão social que sacode o país e assombra muita gente, principalmente a que povoa os governos, o Congresso e o mundo dos negócios nebulosos e das mais estranhas transações.

Em Brasília, a cena que correu o mundo nas telas da TV e nas páginas dos diários impressos e da web: A presidente Dilma Rousseff – pilha de nervos ambulante – abre um sorriso nervoso. Bate palmas e entoa hinos e canções, cercada por pastoras e bispas evangélicas além de estrelas do canto gospel, do porte da baiana Mara Maravilha. Ao lado, sorriso enigmático, o dublê de bispo e ministro da Pesca no governo petista, Marcelo Crivella, observa o cenário.

Em Salvador, no Centro Administrativo da Bahia, uma cena aparentemente mais circunspecta e grave, mas obviamente com o mesmo sentido e propósitos político e midiático. O governador petista Jaques Wagner, um seguidor da religião judaica, se reúne com líderes religiosos na terra de todos os santos e de quase todos os pecados, como assinalava o saudoso cronista Nelson Gallo.

Uma foto do encontro, publicada no jornal “A Tarde”, mostra em destaque, na frente do governador, três figuras honoráveis das catedrais, terreiros e centros de cultos: a Ialorixá Mãe Stella de Oxóssi – recentemente eleita, por mérito intelectual e justiça, para ocupar uma das cadeira da Academia de Letras da Bahia -, o arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, cardeal dom Dom Murilo Krieger, e o líder e teórico do espiritismo no estado, José Medrado.

Diante da cena, impossível não recordar, mal comparando, dos tempos cavernosos da ditadura militar. Então, a cada crise política e social mais braba, um conselho se impunha e se espalhava nos gabinetes do governo, nos ambientes parlamentares, nas redações da “grande imprensa” e até nos meios empresariais mais improváveis: “Está na hora de ouvir Dom Avelar”.

Naquele tempo, o sábio religioso católico e hábil negociador político nascido em Alagoas, era o arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil. Praticamente nada se fazia na Bahia sem antes escutar a sua palavra, ainda que às vezes por mera formalidade. Mesmo no período em que quem mandava na Bahia era o todo poderoso Antonio Carlos Magalhães.

Na quarta-feira, 17, dois dias depois do encontro com o governador Jaques Wagner, a líder do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, Maria Stella de Azevedo Santos, a Mãe Stella, assinava sábias e significativas palavras em seu artigo no jornal A Tarde, publicado com o sugestivo título: “Cuidado! Perigo”.

Vale transcrever o parágrafo de abertura do texto de Mãe Stella para encerrar este artigo.

“Sempre fui alertada pelos meus orientadores espirituais a ter cuidado, em minha caminhada religiosa, ou melhor, em minha jornada de vida, com três importantes “coisas”, que quando utilizadas de maneira não consciente podem arruinar todo um processo. Ouvi e hoje digo: Cuidado, muito cuidado, com sexo, dinheiro e poder”.

Magníficas palavras! Dignas de reflexão antes do Papa Francisco descer no Rio de Janeiro.

Vitor Hugo Soares é jornalista, edita o site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luís augusto on 20 julho, 2013 at 11:22 #

Caro Vitor, escrever diariamente, por profissão, obriga a escrever bem. Mas você foi ótimo nesse texto.


vitor on 20 julho, 2013 at 13:43 #

Luis Augusto

Ditas por você, que escreve como poucos que conheço e leio, estas palavras ganham significado especial para mim. Viva o Por Escrito, um blog que todo mundo devia ler (jornalistas princioalmente) para ver como se escreve bem.
Grande abraço (Vitor Hugo)


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