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OPINIÃO POLÍTICA

As novas manifestações

Ivan de Carvalho

Além do remelexo, o governo da presidente Dilma Rousseff está fazendo um barulho incrível para superar o susto, o medo e os outros efeitos das manifestações populares de junho, que com menos intensidade invadiram julho.

O recado foi dado e a sociedade insatisfeita – que se envolveu espontaneamente e de surpresa no movimento sem infraestrutura, sem lideranças – vai se recolhendo à espera de respostas dos governantes e dos políticos em geral.

A presidente Dilma, seu governo e o PT, que é o partido no governo, desdobram-se para dar respostas que aparentemente não têm. Pois o que levou multidões às ruas – em sintonia fina com as pessoas que ficaram em casa, como se pode inferir das pesquisas de opinião pública realizadas no modelo “antes” e “depois” das manifestações – são coisas que não se resolvem de um dia para o outro.

Já assinalei neste espaço mais de uma vez e novamente o faço: o pano de fundo por trás de todo o movimento popular de junho foi a percepção de que a inflação vinha saindo de controle, inclusive estourando o limite superior da meta fixada pelo próprio governo. Falavam no tomate, mas o tomate era só um símbolo, os preços dos produtos e serviços tornavam-se crescentemente irritantes e incômodos para os consumidores.

Então uma faísca, R$ 0,20 nos preços das passagens de ônibus na cidade de São Paulo, fez a mágica de incendiar o país. Não podia ser somente aquilo, não se pode confundir o estopim com o explosivo. E bem que logo houve um aviso explícito e perfeito: “Não é só pelos 20 por cento”.
Não era, não é, continuará a não ser. Além da insatisfação difusa pelo aumento dos preços de produtos e serviços, doendo no bolso e no estômago e comprometendo uma política de razoável estabilidade financeira a que a nação já se vinha cada vez mais acostumando, existem outras grandes motivações, as essenciais – a onipresença da corrupção e o estado deplorável dos serviços públicos, principalmente o transporte coletivo urbano, a saúde, a segurança pública e a educação.

É claro que há problemas graves com a energia elétrica, apesar de uma trégua na série de apagões. Com o preço dos combustíveis, cujo consumo aumentou muito com os incentivos oficiais para a compra de automóveis sem uma prévia ou paralela melhoria da infraestrutura que assegurasse a mobilidade urbana, o que agravou o inferno dos sistemáticos congestionamentos de trânsito para os transportes urbanos individual, nos quais gasolina, álcool e diesel são inutilmente queimados.

Mas deixemos esses “acréscimos” de lado, pois nas manifestações os serviços públicos intensamente cobrados foram mesmo o transporte coletivo urbano (pequenas concessões vêm sendo feitas quanto a isto), a saúde, a segurança pública e a educação. Quanto a estes três últimos, nada, salvo a grande confusão que emergiu na área de saúde, com a idéia de importação de médicos e com os nacionais querendo se apropinquar de tudo e as outras categorias da área de saúde recusando-se a ficar com as mãos abanando.

Para complicar, o governo querendo obrigar (autoritarismo é isso aí) os estudantes de medicina (mesmo os que pagam seus estudos em faculdades privadas) a trabalhar no SUS ou no Programa de Saúde da Família durante dois anos – uma espécie de trabalho escravo mal remunerado, pelo menos para os que pagam seus estudos.

Estão esticando um complicadíssimo vira-e-mexe com os royalties do petróleo em relação às áreas de educação e de saúde, um negócio que chegou a parecer assunto encerrado, mas foi exumado.

Quanto à segurança pública – a total incapacidade estatal de policiar as fronteiras para evitar o ingresso de drogas e armas, de prevenir ou descobrir a autoria dos crimes (pelo menos os que envolvam violência, como homicídios e tentativas, latrocínios, lesões corporais, roubo), nenhuma autoridade no Executivo dá um pio sobre algo de novo. E sobre a corrupção, tenta-se enrolar o distinto público eleitor.
Se não houver novas manifestações de rua antes, as próximas podem ser nas urnas de outubro de 2014.

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