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Postado em 13-07-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 13-07-2013 00:06

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ANOS 60: NOITES DE JOHNY RIVERS

Maria Aparecida Torneros

Era 1967. Eu resolvi promover no apartamento suburbano de Ramos, onde morava com meus pais e irmão, a noite de Jonhy Rivers, famoso pelas canções hipongas, pelas gravações na boate Whisky a go go, símbolo incorporado pela sociedade de consumo, questionada pelo Movimento Flower Power, o sonho da California, da Paz e do Amor.
Meus amigos e amigas do curso de segundo grau do Colegio Pedro II e do Instituto de Educação (eu cursava ambos simultaneamente), vieram de diferentes bairros da cidade. Colei mapas indicativos nas bancas de jornais, “casa da Cida”, com setas que apontavam para a rua Araguari, desde os pontos de ônibus onde a garotada ia descer para o nosso encontro de fim de ano.

Dezembro, calorão, as amigas Re e Zá (Regina e Rosária), me ajudaram nos preparativos. Naqueles tempos, os sanduíches eram simples, frios, pãezinhos da padaria do Seu Joaquim, queijo, presunto, mortadela e um patezinho enlatado que a gente comprava no armazem da esquina. Refrescos variados, não faltava o vermelhinho de grozelha, e a permissão aclamada para uma Cuba Libre, coquetel da moda que a moçada preparava com rum, coca e limão, sucesso absoluto.

Não podia faltar os pasteizinhos caseiros que mamãe produzia e os palitinhos espetados no repolho, intitulados “sacanagem”, com cenoura, azeitona, queijo, pimentão e salsicha, de um colorido estonteante.
O melhor ingrediente da noite, foi, evidentemente, a nossa alegria a sacudir Do you wanna dance, com nossos corpinhos tamanho 38, mobilidade total, lembro do modelito branco que usei, enfeitado de fitas azuis e vermelhas, saia rodada, e cabelos à moda Maria Chiquinha, muito feliz com a chance de estrear o LP duplo do Wiskhy a Go Go, com a voz e arranjos do Jonhy Rivers, encantando a juventude que, em contrapartida, vivia os horrores da Ditadura, mas, ali dentro, da minha casa e de nós, imperava a sede de ser feliz naquela noite.

O final dos anos 60 nos deu outras noites para dançar e confraternizar, mas nos ofereceu também a entrada na vida de universitários e o mergulho definitivo na chamada idade adulta, séria, responsavel, em busca de posturas sociais, políticas, afetivas e até uma necessidade urgente de amadurecer com questionamentos, decepções, erros, lutas, dores, num processo natural.

Mas com certeza, carregamos os sons das noites de Jonhy conosco, muitas decadas depois, ainda guardo e ponho para tocar, os velhos long players em vinil, também, meu irmão me presenteou num dos Natais em família, há poucos anos, um cd com os principais 20 sucessos do cantor, que vi se apresentando no Programa do Faustão, imaginem, num domingo qualquer, já sessentão, com ares de resgate emocional que me trouxeram aquelas boas lembranças, de volta, ao coraçãozinho vibrante que ainda pulsa quando eu ouço Is too late! Talvez não seja tão tarde assim, talvez eu volte a organizar festinha de final de ano para os amigos de décadas e os de agora, quem sabe consiga reviver o clima de então, e, claro, como bebida, vamos servir nostalgicas Cubas Libres, e dançar, em homenagem à Paz e ao Amor, a noite inteira, enfeitados de flores e fitas, sorrisos e esperanças, agradecendo tudinho, até essa saudade intensa, imensa, comovente, profunda, reconfortante, que sinto agora, e, como Neruda, confesso que vivi!

Cida Torneros, jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Cida, no qual o texto foi originalmente publicado.

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Comentários

Regina Lucia on 13 julho, 2013 at 16:13 #

It’ll never be too late if we keep on together, remembering those golden days, my little sister!!!


Cida Torneros on 14 julho, 2013 at 10:23 #

Happy, feliz com o comentário da Re, in english, rs! Kisses, darling! Você e Zá, comigo, formamos a Cireza Sociedade Secreta, desde a adolescência! Comemoramos 40 anos de amizade em Paris, e, a caminho dos 50, onde iremos estourar o espumante? Bisous, ma belle!


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