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OPINIÃO POLÍTICA

Valentia oportuna

Ivan de Carvalho

O governo brasileiro inicialmente não deu um pio sobre a denúncia de Edward Snowden – muito menos em defesa dele, apontado pelo governo dos Estados Unidos como um delator bandido (a palavra delator foi adotada por quase toda a grande mídia brasileira, papagaiando o discurso das autoridades americanas).

Embora seja óbvio que Snowden é, não um delator bandido, mas um denunciante herói, que deixou namorada, vida muito confortável e invejável remuneração como analista de informática de uma empresa que presta serviços à NSA (sigla, em inglês, da Agência Nacional de Segurança, a mais secreta e poderosa das agências de espionagem e segurança norte-americanas, com segredos que até o presidente dos Estados Unidos talvez desconheça, dentro da filosofia de que “ele não precisa saber”. Nem querem que ele saiba, claro).

Pois Snowden denunciou que a NSA (em colaboração com a CIA e certamente, dentro dos Estados Unidos, o FBI) – estava espionando as comunicações, em larga escala, de moradores nos EUA e de pessoas residentes em um número grande de outros países, por meio de dados obtidos (com ordem judicial para moradores nos EUA) ou sem ela, para moradores no exterior, de empresas de telefonia e da Internet, com a participação preponderante da segunda maior empresa de telefonia dos Estados Unidos e do Google, Facebook, Microsoft, Apple e Skype.

Antes de denúncia começar a ser publicada pelos jornais Washington Post, The Guardian e pelo site Wiki Leaks, Snowden, sabedor que passaria a ser perseguido, deixou o território americano. Ontem, estava numa área de trânsito de um aeroporto de Moscou. Pediu asilo político a 27 países. A Rússia disse daria o asilo se Snowden parasse com as denúncias sobre o monitoramente dos Estados Unidos sobre as comunicações internas e mundiais, mas afirmou saber que ele não estava disposto a isso.

O Brasil nem se dignou responder ao pedido de asilo que lhe foi feito pelo denunciante, o que, na “linguagem” diplomática, significa negativa. Mas ontem, o próprio ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, se encarregou de declarar que o asilo não será concedido. Dos 27 países, somente a Bolívia, a Nicarágua e a Venezuela comunicaram que concederiam o asilo. Ontem, o chefe do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento russo, Alexei Pushkov, colocou no Twitter que Snowden aceitou a oferta do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Depois, corrigiu, afirmando que ouvira a informação assistindo a televisão estatal russa Vesti 24.

No começo da noite, o caso, no âmbito internacional, estava nesse pé. No âmbito brasileiro, estava provocando – aliás, desde a véspera – o maior remelexo. Quando o jornal inglês The Guardian noticiou que, pelos documentos fornecidos por Snowden, a NSA e a CIA mantiveram em Brasília uma base de monitoramento de comunicações que espionou o conteúdo de bilhões de telefonemas e e-mails no país, um dos principais alvos desse monitoramento no mundo, segundo Edward Snowden.

Os documentos mostravam a existência da “base” – operada por especialistas da NSA e CIA sob o disfarce de diplomatas – somente até o início da década, mas você pode apostar tudo que tiver, sem medo de perder, que com a persistência desta base ou sem ela (a tecnologia evolui, o governo dos EUA tem acesso direto aos cabos de fibra ótica em seu território, dos quais pode, tecnicamente, captar os dados que quiser).

Quando o governo brasileiro “soube” desse segredo de polichinelo (recentemente li dois livros, um sobre o Google, outro, a transcrição de uma conversa gravada com Julian Assange e mais três conhecidos especialistas em Internet e críticos do rumo que a rede vem tomando com a interferência dos governos) todo ele foi assaltado por uma babreza de arrepiar. Arrepiaram a presidente Dilma Rousseff, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, o da Justiça, José Eduardo Cardoso. A presidente convocou o embaixador americano para pedir explicações e mandou criar um grupo de investigação, pois o tal monitoramento fere, como ela bem disse, a soberania e a cidadania, esta por quebrar a privacidade dos cidadãos. Valentia vi aí. Tanta que é capaz de ser comemorada nas manifestações de amanhã programadas pelas centrais sindicais governistas, o PT e alguns partidos afiliados, tudo sob estímulo oficial.

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Comentários

jader on 10 julho, 2013 at 10:16 #

Sugestão de tema para o Ivan de carvalho comentar:
Sonegação milionária
A quem interessava sumir com processo da Globo? Por que Ministério Público não deu publicidade ao caso?
publicada terça-feira, 09/07/2013 às 22:53 e atualizada terça-feira, 09/07/2013 às 22:04

por Rodrigo Vianna

O silêncio dos (ex) jornalões diz tudo: o caso de sonegação da Globo tem um potencial muito mais explosivo do que as relações carnais entre o bicheiro Cachoeira e a redação da Veja. A Globo é acusada de sonegar 187 milhões de reais. Acusada por um auditor fiscal. Processo oficial na Receita Federal. A Globo recorreu e perdeu em instância administrativa. Com multa e juros, o valor a pagar passava dos 600 milhões de reais. Isso em 2006! Hoje, seria mais de um bilhão de reais! São vários mensalões…

O caso foi trazido à tona pelo blog O Cafezinho, de Miguel do Rosário. Na sequência, blogueiros saíram atrás de mais detalhes. O Tijolaço mostrou as relações entre o caso global e as acusações contra Ricardo Teixeira e a FIFA. Este Escrevinhador contou no domingo que o processo da Globo por sonegação havia simplesmente desaparecido. Muitos internautas reagiram com incredulidade: lá vêm s blogueiros com teoria conspiratória… E não é que a conspiração era verdadeira? Na sequência, o VioMundo de Azenha trouxe a informação completa: uma funcionária da Receita foi processada e chegou a ser presa por retirar o processo de dentro do escritório da Receita Federal no Rio. A funcionária escapou da prisão graças a um Habeas Corpus no STF (cujo relator foi ele mesmo: Gilmar Mendes).

O círculo vai-se fechando. Fica cada vez mais claro que o problema da Globo não é com o valor sonegado nem com a multa. Não. O problema é o conteúdo do processo. O incansável Amaury Ribeiro Jr revela que até doleiros utilizados por esquemas mafiosos no Rio estariam citados no processo.

Vinte anos atrás, durante o impeachment de Collor, a sequência de apuração foi outra: Pedro Collor falou à Veja, a Folha e o Estadão completaram a investigação, e o tiro de misericórdia veio com o motorista Eriberto, na Istoé. Veja, Istoé, Folha e Estadão permanecem em silêncio agora, no caso Globo. A investigação passa por outro caminho: “O Cafezinho”, “Tijolaço”, “VioMundo”, “ConversaAfiada”, Stanley Burburinho e tantos outros nomes…

Se o governo do PT tem medo de enfrentar a Globo, os blogueiros e ativistas sociais correm pra revirar as entranhas do monstro e expô-las em público. Restam várias perguntas. E a mais óbvia é a que qualquer detetive de filme B costuma fazer: a quem interessava o sumiço do processo da Globo? A funcionária que o surrupiou agiu sob encomenda. Quem pagou?

O processo, garante-me o “garganta profunda” que viu o papelório, é uma bomba atômica contra a Globo e seus donos. José Roberto Marinho não é o único citado. Os outros irmãos também estariam lá. A volumosa investigação apresentaria, com didatismo, o “modus operandi” das “Organizações” Globo.

Mesmo sem uma linha publicada nos jornais e revistas (que costumam impor sua pauta a país), o Ministério Público Federal sentiu-se pressionado e soltou uma nota sobre o caso. Nota estranha, que finge explicar tudo mas não explica o principal: por que o MPF fez toda a investigação sobre o sumiço do processo da Globo em “sigilo”? Ninguém está pedindo que o MPF quebre o sigilo fiscal da Globo, mas trata-se de uma institução que deve primar pela transparência, não pode agir no subterrâneo!

O MPF tinha obrigação de ter informado o país sobre o desaparecimento do processo (ocorrido há 6 anos). Não o fez. O MPF de Gurgel queria proteger a quem?

O MPF se diz “consternado” com o vazamento de informações. Não se mostra “consternado” com a sonegação de 600 milhões. Nem com o fato de a funcionária da Receita ter sido punida sozinha, sem que se aferisse quem encomendou o sumiço do papelório. A quem interessava sumir com processo que mostrava contas da Globo em paraíso fiscal?

Os blogs sujos declaram, “consternados”, que não possuem redações com editores e apuradores, nem verba para viagem, nem tampouco recursos para deixar repórteres semanas a fio debruçados sobre o caso. Mas possuem uma rede informal (e infernal, para desgosto dos poderosos do Jardim Botânico) de apuradores. As informações fluem pelas redes, há milhares de “repórteres” informais ajudando a apurar essa história. São brasileiros que já não suportam a arrogância da Globos e de seus jabores, kamels e mervais amestrados.

O povo gosta das novelas, reconhece a qualidade técnica da Globo, e sabe mesmo dar valor aos bons jornalistas que tentam cumprir seu papel na gigante da Comunicação brasileira. Mas o nosso povo está cansado de ser enganado e pautado pela Globo. Tudo isso sob o silêncio cúmplicede instituições como o MPF.

A história – completa – virá à tona. É questão de dias. O império midiático ficará nu.


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