Dilma e o anfitrião Wagner:seca e
política em Salvador.
=============================

ARTIGO DA SEMANA

AS RUAS: ENTRE A CEGUEIRA E A SURDEZ

Vitor Hugo Soares

Começo a escrever estas linhas semanais transmitidas da Bahia (de onde andei distante, ultimamente, em viagem ao país de Obama) sob o barulho ensurdecedor e as manobras rasantes de helicópteros da Força Nacional de Segurança na frente da minha janela. É o sinal mais barulhento (e amedrontador) de que a presidente da República, Dilma Rousseff, está desembarcando em Salvador. Quinta-feira, 04 de julho deste ano de 2013 para não esquecer.

Salvo, evidentemente, se falamos de um país com sintomas graves e preocupantes de cegueira aparentemente irreversível, somada a surdez irremediável. Isto fica evidente – penso que principalmente para quem acaba de chegar de viagem – se olhamos para os movimentos, palavras e ações de seus governantes, representantes políticos e homens de negócio, como demonstrado cabalmente em alguns episódios emblemáticos desta semana.

Alguns deles dos mais lamentáveis – condenáveis talvez fosse a expressão mais própria, para o caso, na maioria dos países democráticos e mais atentos às questões éticas e ao combate implacável à corrupção e malfeito de homens públicos.

Em primeiro lugar destaque-se a mistura de trapalhada e engodo inventados no laço, sob forma desconjuntada de proposta plebiscitária, com propósito de promover uma reforma eleitoral fantasiada de “reforma política” no jeito e na medida dos interesses da continuidade dos donos do poder instalados em Brasília (agora bem menos confortavelmente. Ou não?).

Ao mesmo tempo, a tentativa desnorteada de esvaziar as ruas, deixando o mínimo vestígio possível destes dias históricos que abalaram o país e surpreenderam o mundo. Muito além das jogadas fantásticas de Neymar e da seleção de Luis Felipe Scolari, que acaba de conquistar a Copa das Confederações, fazendo a canarinho retornar ao “top 10” do futebol planetário. Respeito e admiração reconquistados depois de largo período de apatia, derrotas e humilhações.

Diante disso é impossível fechar os olhos ou parecer desatento a atentados éticos e reprováveis ações de políticos e governantes que trafegam acintosamente na contramão dos gritos das ruas por mudanças, quando o barulho ainda nem cessou. A exemplo do que ficou demonstrado nos protestos da noite e madrugada desta sexta-feira,5, violentamente reprimidos na frente da moradia do governador Sérgio Cabral no bairro do Leblon, espécie de templo sagrado da inteligência, celebridades e elite carioca e nacional.

Mas o que pretendo mesmo é falar sobre a utilização dos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para fins particulares pelos dois principais dirigentes do Poder Legislativo no Brasil. O primeiro, presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, que fez o jato oficial voar para a cidade de Natal, onde ele embarcou levando a tiracolo a noiva e uma turma de parentes para passear na Cidade Maravilhosa no sábado e, no domingo, assistir o jogo Brasil x Espanha, no Maracanã, que decidiu a Copa das Confederações.

E o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Renan Calheiros, apanhado em Maceió pelo jato da Força Aérea Brasileira para ir a uma festa nababesca de casamento da filha de um ricaço, amigo e aliado político em Porto Seguro, paraíso de férias no extremo sul da Bahia.

Henrique Alves tenta salvar as aparências, assumindo as despesas do vôo familiar ao Maraca, depois que a Folha de São Paulo jogou o escândalo em uma de suas manchetes. Renan Calheiros, nem isso. Arrogante como no tempo de Collor, desacata o grito das ruas, por considerar ter usado “um avião de representação do presidente do Senado e, nesta condição, é que teria voado para a festança de casamento na suntuosa praia baiana de Trancoso.

E voltamos ao início destas linhas.

A presidente Dilma Rousseff desembarca em Salvador. Arrisca no Nordeste (região onde foi mínima (5%) a sua queda espetacular de prestígio pessoal e de seu governo (21%) no conjunto do país – o primeiro vôo fora de seu palácio depois das vaias em Brasília, no jogo de abertura da Copa das Confederações.

Traz no bolso do casaco um “pacote de bondades” sob a rubrica de combate à seca. O valor anunciado no discurso em ambiente fechado e lotado de “aliados” no Centro de Convenções da Bahia é de R$ 7 bilhões (quase o mesmo (R$ 8 bi) de uma nova – e ainda sem resultados concretos- transposição do Rio São Francisco).Rica fonte de grana para empreiteiras financiadoras de campanhas e de votos em eleições passadas.

“Nossa turma dos movimentos sociais estará toda lá dando apoio à presidenta”, assegura Jonas Paulo, presidente do PT regional, antes da festa baiana começar. O anfitrião da presidente, governador petista , Jaques Wagner, parece tranqüilo e feliz: nove governadores de estados nordestinos presentes (exceto o cearense do PSB, Cid Gomes). Inumeráveis prefeitos e aliados políticos disputam, quase no tapa, uma foto com Dilma em frentes aos tratores e equipamentos agrícolas do pacote do governo, expostos na área livre do Centro de Convenções, para marcar a “retomada da agenda positiva de Dilma”.

No auditório do Centro de Convenções, a “claque” afia o tom para os aplausos. Garantidos “por mais de 20 ônibus que trouxeram representantes do Fórum Baiano de Agricultura Familiar, parte deles do interior do Estado”, para lotar o espaço com capacidade para cerca de duas mil pessoas”. A festa atrasou, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, saiu antes de tudo acabar, de volta a Recife, segundo revelou a Folha de S. Paulo, em reportagem primorosa assinada pelo correspondente Nelson Barros Neto. Campos nem viu ou ouviu quando a presidente Dilma citou a presença do prefeito ACM Neto no evento da seca, e parte do auditório gritou por quase um minuto para espanto geral: “ACM, ACM, ACM”.

Cegueira e surdez. Ou não?

Vitor Hugo Soares é jornalista. Edita o site blog Bahia em Pauta . E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Be Sociable, Share!

Comentários

Graça Azevedo on 6 julho, 2013 at 10:45 #

Muito bom ver o editor do BP voltar para enriquecer nosso sábado.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos