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OPINIÃO POLÍTICA

A distração

Ivan de Carvalho

De tão espetacular, vale bem lembrar. Em março, a aprovação do governo Dilma Rousseff, em sua mais alta marca em pesquisas de opinião pública do Instituto Datafolha, desfrutava de 65 pontos percentuais. Na primeira semana de junho, antes das manifestações de rua, a aprovação, com a grande perda de oito pontos percentuais, havia caído para 57 por cento. No sábado passado, dia 29 ainda de junho, nova pesquisa mostrou que essa aprovação do governo (a soma dos que o consideram bom ou ótimo entre os 4.717 entrevistados) despencara 27 pontos percentuais.
Assim, o conceito público do governo começou a desabar, num ritmo severo que lhe retirou oito pontos percentuais entre março e o começo de junho. E, a partir daí – vergastado no restante de junho pelas manifestações de rua e a sintonia com elas dos que ficaram em casa – lhe foi acrescentada a perda de 27 pontos, totalizando queda de 35 pontos percentuais desde a pesquisa de março até a do fim de junho. A primeira imagem que me vem à mente é a de uma tempestade derrubando um poste.
O pano de fundo de toda a coisa é o aumento de preços dos produtos e serviços e o desempenho mais do que medíocre da economia, com direito ao pibinho de 0,9 por cento do ano passado e uma expectativa popular com viés pessimista da redução da inflação e do desempenho da economia daqui por diante. Essa é a principal causa da insatisfação difusa, que ganha densidade e traços mais definidos com a péssima qualidade dos serviços públicos essenciais, com absoluto destaque para a saúde, a segurança pública, a educação e a locomoção (desculpem não usar mobilidade) urbana. Ao que se somam a corrupção e os gastos evitáveis em estádios de luxo quando poderiam os polpudos recursos ser aplicados em hospitais, escolas, segurança pública.
Noam Chomsky é um linguista, filósofo e ativista político americano que se define como um “socialista libertário” e é crítico frequente de políticas internas e da política externa dos Estados Unidos. Mas aqui está sendo agora citado por seu decálogo das “Estratégias de Manipulação” da população. Ele se refere à manipulação por intermédio da mídia e o primeiro item desse decálogo é a Distração.
Deixemos a mídia de lado, embora grande parte dela haja participado de estratégias de manipulação nos eventos do momento. Como assinalou ontem a jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, “telejornais e jornais resistiram a admitir que a crise batia à porta da presidente, mesmo com o Planalto cercado na quinta-feira aguda”, para acrescentar com ironia: “Não foi só o Exército que protegeu Dilma…”.
Deixemos a mídia, por hoje, em paz, embora grande parte dela esteja docemente envolvida pela “estratégia de distração” que a presidente da República adotou como prioridade para enfrentar (tentar driblar) a crise. A Distração é a reforma política.
Mas que reforma? A mesma que vem sendo discutida intermitentemente há uma década ou talvez mais e cujo carro-chefe, sob o aspecto do marketing político, é o “financiamento público exclusivo de campanha”. A presidente inicialmente agarrou-se na proposta não original, mas escancaradamente inconstitucional, de uma “constituinte exclusiva” para fazer a reforma política. Bronca geral nos meios políticos e jurídicos, ela trocou depressa a “constituinte exclusiva” por um plebiscito e algumas das questões que dele constariam ou constarão são bem conhecidas.
O financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais, uma bandeira do PT que conta com amplo apoio entre quase todos os partidos – o que não é de admirar, pois se trata de tomar o dinheiro dos cidadãos-contribuintes, não para aplicar em saúde pública, segurança, educação, mas nas campanhas eleitorais dos partidos. Alega-se (este é o grande argumento) que isso seria um golpe na corrupção. Conversa fiada. Deixariam de existir as doações legais privadas, de indivíduos ou empresas. Mas subsistiriam as doações ilegais (o chamado Caixa Dois), que há muito são proibidas e persistem.
Outras questões entrariam ou entrarão no plebiscito, caso este realmente aconteça. Algumas podem ter até alguma relevância, mas no contexto atual não passam de espertas abobrinhas que o governo quer jogar nas ruas para distrair o povo que está nelas e tirá-lo de lá.

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