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Um dia após mais de 60 mil pessoas saírem às ruas em São Paulo tendo como mote a redução em R$ 0,20 no preço da passagem de ônibus, a presidente Dilma Rousseff se reuniu nesta terça-feira (18) com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um hotel na zona sul da capital paulista. Também estavam presentes no hotel o marqueteiro do PT, João Santana, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e o presidente do partido, o deputado Rui Falcão. Em seguida, Dilma encontrou Haddad para acertar os pontos finais da redução antes de embarcar para Brasília no início desta noite.

A onda de protestos levou oito cidades a reduzirem o valor das passagens , entre elas o Recife, cujo anúncio foi feito pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, possível adversário de Dilma em 2014.

A presidente chegou a São Paulo para o encontro de última hora e não divulgado em sua agenda oficial às 14h30, no aeroporto do Campo de Marte, na zona norte, em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB).

A reunião acontece após um “puxão de orelha” público de Lula em Haddad, que chamou o prefeito de “homem de negociação”. “Não existe problema que não tenha solução. A única certeza é que o movimento social e as reivindicações não são coisa de polícia, mas sim de mesa de negociação”, disse o ex-presidente em sua página no Facebook na última segunda-feira.

Até ontem, Haddad declarava que os manifestantes queriam um “monólogo” e que não respondiam aos pedidos de diálogo da prefeitura. Em entrevista coletiva antes do evento de ontem, o Movimento Passe Livre (MPL), organizadores dos protestos em São Paulo, chamaram Haddad de “mentiroso” e listaram ao menos duas tentativas de negociação nas quais não obtiveram retorno do governo.

Hoje, o grupo participou de uma reunião do Conselho da Cidade com Haddad , que mudou o tom sobre o movimento. O petista sinalizou que o preço das passagens pode ser revisto, mas ressaltou que a decisão é política. “A decisão não é técnica, é política mesmo”, disse Haddad. Os membros do Passe Livre se surpreenderam com a mudança de tom e com o tratamento de Haddad sobre a demanda de redução da tarifa.

Mais cedo, a presidente Dilma aproveitou o discurso de lançamento do novo marco regulatório da mineração para elogiar as manifestações. “O Brasil, hoje, acordou mais forte. A grandeza das manifestações de ontem comprovam a energia da nossa democracia, a força da voz da rua, e o civismo da nossa população”, discursou a presidente, sendo interrompida por aplausos da plateia, formada em boa parte por políticos.

“É bom ver tantos jovens e adultos, o neto, o pai, o avô, juntos, com a bandeira do Brasil cantando o hino nacional dizendo com orgulho “sou brasileiro’ e defendendo um país melhor. O Brasil tem orgulho deles”, disse a presidente.

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Comentários

rosane santana on 19 junho, 2013 at 6:58 #

POLÍTICA
O centro do debate
Marco Antonio Villa

As manifestações ocorridas em São Paulo nas últimas duas semanas permitem algumas reflexões. Que o transporte coletivo é ruim e caro, para os padrões do serviço oferecido, ninguém discorda. Mas não é esta a questão que está no centro do debate.

O que se discute é como combinar a defesa do estado democrático de direito, a liberdade de manifestação e o direito de ir e vir. O que está ocorrendo em São Paulo não tem qualquer relação com as manifestações de Brasília ou do Rio de Janeiro. Nestas cidades, o centro das reivindicações são os gastos abusivos da Copa do Mundo e o abandono daquilo que afeta o cotidiano da população: saúde, educação, etc.

É como em 1968: enquanto no Rio a passeata dos cem mil defendia a democracia, em São Paulo, no mesmo dia, teve o atentado terrorista contra o II Exército.

Na busca de paralelos onde eles não existem, já foi possível ler e ouvir relações entre as manifestações de São Paulo com o que aconteceu nos países árabes, na Turquia, ou até com 1968.

Os mais exaltados apontaram que nada mais é que o mal-estar da civilização com a globalização e que o capitalismo vive uma crise terminal (como profetizado desde o século XIX…). Os jovens seriam emissários desta nova ordem pós (sempre tem de ter um “pós”) globalização, uma continuidade do falecido movimento Ocuppy Wall Street. Lembram-se que, em 2011, diziam que o movimento iria se espalhar pelo mundo inteiro? O que aconteceu semanas depois? Nada.

A tentativa de relacionar com momentos da nossa História onde inexistiam — como agora — um regime de amplas liberdades é patética. Neste ritmo, logo veremos algum estudante de 68 gritando — 45 anos depois, já idoso — pelas ruas de São Paulo: “a luta continua.” Qual luta?

A organização efetiva dos atos não é de um movimento autônomo, apartidário, de jovens insatisfeitos com a política e desejosos de encontrar alguma forma de participação. Nada disso.

Quem efetivamente dá as ordens são pequenos grupos ultraesquerdistas. E o fazem para dar alguma satisfação aos seus exíguos militantes. Estão há anos discutindo e escrevendo sobre a crise do capitalismo. Falam e não encontram adesão na sociedade. Continuaram só falando. E foram perdendo o ralo apoio que tinham.

Sem crise econômica e um desemprego monstruoso, como em vários países europeus, restou a estes grupos encontrar algum móvel de luta, para que não desaparecessem.

O aumento das passagens de ônibus — abaixo da inflação, registre-se — caiu do céu. Foi o meio que as lideranças obtiveram para ter a legitimação das bases cansadas de ouvir discursos revolucionários sem uma efetiva ação.

O ataque aos bens públicos e privados, a tentativa de linchamento de um policial militar na Praça da Sé, atos que não têm qualquer relação com o aumento das passagens, são vistos como ação revolucionária, de resistência ao capitalismo e ao seu poder opressor, a polícia.

O vandalismo é o alimento destes grupelhos que agem de forma violenta, desprezando os valores democráticos e os direitos constitucionais. Sonham com um Brasil nos moldes de Cuba, Coreia do Norte. Não entendem que a liberdade de manifestação não se sobrepõe ao direito de ir e vir. E este é o desafio da democracia: garantir ambos os direitos. E agir com energia — dentro dos limites legais — quando qualquer um deles estiver sendo violado.

Nestes momentos de tensão — inerentes ao regime democrático — é que são testadas as autoridades. O governador de São Paulo não se omitiu. Presumo que saiba que tem um custo político a defesa da lei e da ordem democráticas em um país que valoriza e estimula tudo o que é ilegal.

Temos uma propensão à marginalidade. No caso das manifestações há os que justificam o vandalismo como uma forma de protesto, de insatisfação, de jovens que são incompreendidos pelo que chamam de sistema. E a ação do estado democrático de direito é demonizada.

Como é possível conter a destruição de ônibus, lojas, bancas de jornais, bares, liberar ruas e avenidas, sem o uso da força? E os abusos cometidos pela ação policial deverão ser investigados e devidamente punidos.

É evidente a tentativa do governo federal de obter algum dividendo político das manifestações. As declarações dos ministros José Eduardo Cardozo e Ideli Salvatti visam a desgastar politicamente o governador Geraldo Alckmin. Os mandriões atacaram quem simplesmente fez cumprir a Constituição.

A pergunta é: quem vai ganhar, politicamente falando? Ou será que todos — os partidos constituídos — vão perder?

Não faltam praças para mostrar indignação contra tudo e todos. Por que não aproveitam e pedem a prisão dos mensaleiros, a começar pela do sentenciado José Dirceu? Mas não é esse o objetivo dos manifestantes em São Paulo, volto a dizer, diferentemente do Rio ou de Brasília.

Grande parte dos manifestantes — especialmente a liderança que se pronuncia pela imprensa — é da classe média. Da classe média mesmo, não daquela inventada pelo petismo, a tal “classe C.” Nas imagens não encontrei trabalhadores, pobres, negros.

Não vi também, protegendo os próprios municipais, a Guarda Civil Metropolitana. Foram omissos, como o prefeito Fernando Haddad — e o aumento das passagens de ônibus é da esfera da prefeitura. E a Câmara de Vereadores? Mutismo total. Os 55 vereadores servem para quê?

Pode ser que a luz contra o marasmo venha do Rio ou de Brasília.

Marco Antonio Villa é historiador.


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