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DEU NO PUBLICO, DE LISBOA

O antigo ditador argentino Jorge Videla, responsável por um dos mais brutais regimes da América Latina no século passado, morreu esta sexta-feira na cadeia de Marcos Paz, na província de Buenos Aires. Tinha 87 anos de idade.

A notícia foi adiantada pela Radio Once Diez, através das palavras da mulher de um militar, Cecilia Pando: “Videla morreu durante o sono. À noite, não quis jantar, porque se sentia mal.” O jornal Clarín apresenta uma versão ligeiramente diferente, com base em “informações judiciais”, segundo as quais o antigo ditador morreu quando se levantou, de manhã, depois de ter passado a noite com dores de estômago.

Jorge Videla assumiu o poder na Argentina no golpe militar de 24 de Março de 1976. A ditadura na Argentina só iria acabar em 1983, com denúncias de 30 mil desaparecidos, entre os quais 500 crianças.

Em Julho do ano passado, foi condenado a 50 anos de prisão por ter supervisionado uma rede que roubava bebés de prisioneiros políticos, juntamente com o ex-Presidente Reynaldo Bignone, este condenado a 15 anos de prisão. Os ex-líderes argentinos foram responsabilizados criminalmente pela “prática sistemática e generalizada de subtracção, retenção e ocultação de menores de idade” – de cerca de 500 crianças que, durante os anos da ditadura, nasceram na prisão e foram retiradas às mães, prisioneiras políticas do regime.

O tribunal deu como provada a denúncia apresentada pela organização das Avós da Praça de Maio no final de 1996, estabelecendo que o rapto de crianças para serem educadas por “boas famílias” militares era uma política deliberada – um capítulo do “plano geral de aniquilação lançado sobre parte da população com o argumento de combater a subversão”, lia-se na sentença.

A condenação de Julho do ano passado foi acrescentada à pena perpétua que Videla estava a cumprir, por crimes contra a humanidade.

Videla é muitas vezes descrito como “o ditador mais cruel da América Latina”. Chegou ao poder em 1976, na sequência de um golpe de Estado, e o seu revolucionário “processo de reorganização” do país ficou marcado pela violenta repressão dos opositores políticos – detenções ilegais, tortura e assassínios. Mais de 30 mil pessoas desapareceram durante o seu governo, estimam organizações de defesa dos direitos humanos.

Julgado por terrorismo de Estado e condenado a prisão perpétua, em 1985, foi indultado cinco anos mais tarde. Em 2010, a declaração de inconstitucionalidade das leis de perdão e indulto pelo Supremo da Argentina abriu a porta a uma nova acusação, pelos crimes contra a humanidade da ditadura argentina. Foi condenado a prisão perpétua, tal como Reynaldo Bignone, o homem que assumiu o governo depois do seu afastamento, em 1982, e que representa já o estertor do regime, depois da derrota contra o Reino Unido na guerra das Malvinas/Falkland. Antes de dissolver a junta militar e convocar eleições, em Outubro de 1983, Bignone mandou destruir todos os arquivos relativos às detenções, torturas e outros crimes da chamada “guerra suja” de Videla.

Nascido a 2 de Agosto de 1925 em Mercedes, na província de Buenos Aires, o percurso de Jorge Videla esteve intimamente ligado à vida militar. Ingressou no Colégio Militar da Nação em 1942, que passou a comandar em 1971, já como general.

Em 1973, foi nomeado chefe do Estado-Maior do Exército e em 1975 a Presidente María Estela Martínez de Perón nomeou-o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Sete meses depois, Videla, Emilio Eduardo Massera e Orlando Ramón Agosti derrubaram “Isabelita” Perón, num golpe de Estado militar que instituiu o Processo de Reorganização Nacional, com a proibição dos partidos políticos e o fim das sessões do Congresso Nacional.

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