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ARTIGO DA SEMANA

Exemplo no meio do tumulto

Vitor Hugo Soares

Refugiado em lugar aparentemente mais seguro, na Bahia, espio o cenário nacional, deste começo de maio, nos terreiros da justiça e da política, com suas vizinhanças minadas por interesses de quase todos os lados. Alguns aceitáveis, outros escancaradamente subalternos e repudiáveis.

Sigo o exemplo bem humorado de Adoniran Barbosa e seus amigos do genial “Samba do Bexiga”, quando o pau quebrou na cantina, do agitado bairro italiano de São Paulo, eles foram para “debaixo da mesa, ver o Nicola brigar”.

Igual a letra do samba paulistano, também encaro com alguma preocupação este bafafá em Brasília. Radicalizar parece, neste caso, ser a palavra de ordem das mais de duas dezenas de condenados do processo do Mensalão e seus regiamente pagos defensores. Em geral nomes de proa nas placas douradas dos escritórios mais caros da advocacia do Brasil.

A começar pelo estapafúrdio pedido de afastamento do ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, da relatoria do palpitante processo que atrai a atenção do país e de grande parte do planeta.

Isso quase na hora mais aguardada: a do desfecho deste caso histórico e referencial da aplicação das leis e de aparente breque na impunidade de praticantes de “malfeitos” na política, na administração pública e nichos profissionais importantes nas cercanias do poder.

Debaixo da mesa da cantina Brasil, assim como na música de Adoniran, reina também uma expectativa animadora. A de que, quando a poeira do fuá assentar – culpados em cana – será a hora de cuidar dos feridos, quem sabe depois de uma observação semelhante à do famoso sargento Oliveira citado na composição: “A situação está cínica, os mais pió vai pras Crinicas”. E tudo seguirá em paz.

Enquanto não acontece o desfecho do “Samba do Mensalão”, aproveito as linhas que restam deste artigo de opinião para o registro de fatos relevantes acontecidos nos últimos dias em Salvador, embora sem o destaque merecido e atenção necessária por parte das pautas da chamada “mídia nacional”.

Refiro-me à histórica eleição, esta semana (por unanimidade dos votantes), da Ialorixá maior do candomblé em terreiros locais e da religião afro-brasileira no País, Mãe Stella de Oxossi, para membro da Academia de Letras da Bahia (ALB). Ela vai ocupar a cadeira cujo patrono é Castro Alves, poeta maior da terra, na vaga aberta com a morte recente do historiador Ubiratan Castro.

Escolha feliz, honrosa e mais que merecida: Mãe Stella é líder religiosa, escritora com várias obras publicadas, mestra honorária da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), e colunista do jornal A Tarde. Na quinta-feira, 02/04, ela festejou com plenitude de saúde, inteligência e sabedoria, 88 anos de idade.

O dia inteiro e parte da noite, o famoso terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá virou centro de peregrinação e de festejos em homenagem à líder religiosa e intelectual, de forte presença social e política também.

Isso ficou cabalmente demonstrado na festa de aniversário da democrática sacerdotisa do candomblé. Diante dela passaram centenas de filhos e filhas praticantes de sua fé, religiosos de muitos outros credos, celebridades locais e nacionais das artes e das letras em geral (músicos, artistas plásticos, escritores, mestres acadêmicos…).

Sem falar nos políticos e governantes que acorreram aos montes ao terreiro baiano, ou mandaram mensagens de afeto e respeito. A começar pelo governador da Bahia, Jaques Wagner, petista de origem e religião judaica, mas que ao lado da primeira dama do estado, Fátima Mendonça, foi dos primeiros a pisar os pés no território sagrado do Opô Afonjá, em visita de homenagem na quinta-feira.

Igualmente o prefeito de Salvador, ACM Neto, do DEM, reconhecido devoto de Santo Antonio, que também se postou e posou ao lado da ialorixá (respeitoso e obsequioso). Acompanhado de um séquito de auxiliares de seu governo e vereadores que apóiam sua administração, ligados aos terreiros, a exemplo do vereador atual e ex-prefeito Edvaldo Brito.

Não faltou também o deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil ( PC do B), Protógenes Queiroz, presença freqüente na casa de santo , ele que é um soteropolitano de família com um pé nos terreiros, embora criado em Niterói (RJ) e eleito por São Paulo .

Enfermeira de formação, Mãe Stella em sua primeira entrevista exclusiva depois de eleita para a ALB (publicada em A Tarde), pontuou com enorme sabedoria ao responder à repórter Marjorie Moura sobre o significado da escolha:

“Nada poderia ser mais especial. Castro Alves tem uma poesia vigorosa e foi uma das primeiras vozes no Brasil a se levantar contra a escravidão. A força dos versos de “Navio Negreiro” calou fundo na sociedade brasileira ao reconhecer nos escravos africanos pessoas iguais a qualquer outra. Depois, a contribuição do professor Ubiratan Castro para a preservação de nossa cultura. Diante disso, ninguém nunca pensaria que uma mãe de santo poderia chegar a ocupar este posto. Isso mudou pela nossa luta, mas também por meus livros, porque o que a gente não escreve o tempo leva”.

Magníficas palavras! Parabéns em dobro, Mãe Stella! Receba, também, o abraço deste ateu que crê em milagres.

Vitor Hugo Soares é jornalista, edita o site blog Bahia em Paut a em Salvador. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Jackson Filgueiras on 4 Maio, 2013 at 9:21 #

Misturar política e colunismo social resulta num pirão impalatável, meu rei.


Graça Azevedo on 4 Maio, 2013 at 21:13 #

Bela homenagem a Mãe Stella que, em tempos conturbados, é capaz de ser unanimidade.


Olivia on 4 Maio, 2013 at 23:46 #

Mãe Stella é sábia, viva!


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