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Postado em 27-04-2013
Arquivado em (Artigos) por vitor em 27-04-2013 21:50


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CRÔNICA
Os deuses abandonaram a Bahia

Janio Ferreira Soares

Leio que o ex-ministro Carlos Lupi, ao receber o título de cidadão baiano em recente solenidade, afirmou que se apaixonou pela Bahia por causa do samba-enredo que em 1969 deu o título ao Salgueiro. Para provar cantarolou-o à capela, levando os presentes ao delírio. Esperto, esse Lupi.

Azeitando a memória, o samba chama-se Bahia de Todos os Deuses e começa com o intérprete dizendo que seus olhos estão brilhando e seu coração palpitando de tanta felicidade, já que está diante da rainha da beleza universal, muito antes do império, nossa primeira capital. Obviamente ele está falando daquela Salvador ainda analógica e bela, à época se insinuando em sépia para olhos que a queriam assim, ou explodindo em cores, mistérios e uma música sem igual, que até meados de 1980 flanou absoluta sobre os remansos de todos os santos na proa de um certo vapor barato.

Agora vamos imaginar Bala e Manuel Rosa, autores desse genial samba, voltando a capital onde seus moradores têm a estranha mania de eleger governantes que mais a dilapidam que a protegem. Dessa vez seus olhos brilhariam não de contentamento, mas de desgosto. Seus corações bateriam não de felicidade, mas de medo. Preto Velho Benedito, coitado, lhes pediria desculpas e, acabrunhado, diria que a felicidade, antes baiana da gema, hoje reside apenas nas propagandas oficiais feitas para iludir estrangeiros. Chocados, eles veriam a ex-terra abençoada pelos deuses proibindo velhas baianas de colocarem seus tabuleiros de quindins na nova Fonte Nova, enquanto permitem que Joel Santana exiba sua imoral pança como se fora um lobo mau (“por que esse nariz de batata, vovó?”) que de vez em quando retorna para comer um pedaço do chapeuzinho vermelho, azul e branco.

Epílogo: antes de partirem, Bala e Manuel ouvem um zum, zum, zum vindo lá das bandas do Pelô e, pensando tratar-se do refrão final do samba, se aproximam. Retornam sem relógios e sem carteiras, com a certeza de que os deuses definitivamente não moram mais na terra do velho mercado, subida da Conceição.

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http://youtu.be/S-TGVAgDB6k

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