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DEU NO TERRA MAGAZINE

Paquito

(Músico, compositor , intérprete e cronista dos melhores)

No último post, falei tanto de Jesus, mas confesso meu ateísmo. Criado no catolicismo, ficou o encantamento pelas narrativas biblícas, mais ambivalentes do que pregam muitos pentecostais brasileiros.

Jesus, na cruz, a pedir pelos que o crucificaram – “perdoa-os, Pai, pois não sabem o que fazem!”- ao mesmo tempo que atesta sua humildade, revela altivez absurda, auto-referente, com a lucidez e loucura que parecem possuir os profetas. A lucidez de ver as coisas com clareza, e a loucura advinda do não pertencimento, da sensação de estar à margem, apartado do viver comum.

Há muito tempo não falava com Arto Lindsay – como eu, ovelha desgarrada, e também criado por pais religiosos, só que protestantes – e manifestei a saudade ao telefone:

– Sinto falta do seu senso de humor, Arto!

E ele:

– Eu também.

Arto, além de possuir uma sensibilidade musical diferenciada, foi quem enviou uma foto a Caetano, de Prince andrógino, com o comentário “Eu sou neguinha?”, a partir da canção de Gerônimo – Eu sou negão – o que inspirou Caetano a fazer a sua Eu sou neguinha.

Gerônimo também é forrozeiro. O “preferido de Caymmi” tá apresentando seu Forró Doido na Praça Quincas Berro D’ água, no Pelourinho de Salvador, toda quinta, a partir das 20 horas, e com a verve habitual, diz que “todo artista baiano, homem menino menina mulher, quando passa o carnaval, bota o chapéu de palha, uma camisa quadriculada, e vira sobrinho, filho e neto de Gonzagão”. Gerônimo e a banda Monte Serrat cantam e tocam Gerônimo, Gonzagão e o que houver, junina e genuinamente, com graça baiana.

Humor baiano: após Daniela Mercury assumir sua relação gay, ouvi, de relance, um sujeito, sentado ao lado de uma banca de revistas, a manchete estampada, comentar:

– Logo, logo é Ivete!

Segunda feira – após o Vitória golear o Bahia por 5 X 1 no na reinauguração da Fonte Nova, arena do vencido – no Centro Médico João das Botas, uma pequena multidão espera o elevador no andar térreo.

Não dá pra todo mundo entrar, mas apenas um homem fica de fora, impedido pelo ascensorista, justamente um sujeito vestido com a camisa do Bahia. Antes da porta do elevador se fechar, ele protesta:

– Só porque eu sou Bahia, é?

Caetano, quando quis continuar a fazer análise, voltando de Londres, não encontrou profissionais da área na Bahia. Ele conta, naquela entrevista ao Bondinho, da década de 1970, que João Gilberto ria com orgulho, como se dissesse:

– Não precisa…

Mas hoje é diferente. Talvez por conta da terra-útero não andar essas coisas, psicanálise na Bahia é mato.

Caminhada de final de tarde, ouvi o seguinte diálogo entre dois psicanalistas no Corredor da Vitória, em Salvador:

– Ô, fulana, vai amanhã pro Espaço Freudiano?

– Vou, claro! Melancolia e suicídio, né?

Na praia do Porto da Barra, converso com Boneco, vendedor de cerveja, que desconstrói teorias deterministas relacionando gosto e classe social, sem saber. Ele diz que não liga pro Ba-Vi recente.

– Não gosto de ver time ruim jogando. Ver Ba-Vi é o mesmo que ver show de arrocha, dá vontade de dormir.

– E o que é que você gosta de música, Boneco?

– Eu gosto de mpb.

– O que de mpb?

– Eu gosto de João Gilberto. O cara faz música e faz humor, brinca com o público e faz música ao mesmo tempo. O cara é humorista.

João, rei dos sambas de sempre. E há sempre um a redescobrir, tantos são os que foram gravados nas décadas de 30 e 40 no Brasil. Antigamente, a gente tinha de fuçar bastante e achar Lps de gravadoras independentes de uns abnegados heróis que se dedicavam a juntar os vários 78 rpm em um vinil de, por exemplo, Noel Rosa. E aqui relembro meu amigo, o saudoso Leon Barg, que criou o selo Revivendo em Curitiba.

Agora a gente clica no Youtube e vem Chico Alves e Mário Reis aos borbotões, como se cantassem: somos o futuro, um futuro imenso e intenso de sambas e marchinhas. Não conhecia, por exemplo, a versão do próprio Lamartine Babo cantando – sem voz, mas com vez, como ele mesmo dizia – a sua Canção pra inglês ver, acompanhado apenas de piano. Lamartine cria um esperanto dadaísta em que os significados se perdem e se desorganizam, deixando de ter de existir, e só o som passa a significar:

I love you

Forget sclaine maine itapiru

Morget five underwood I shell

No bonde silva manuel.

Lalá, engraçado e sólido. Lamartine fazia sátira e canção-piada que resiste a ser contada várias vezes.E, modernisticamente, tirava sarro dos futurismo e outros ismos, como no A. B. Surdo, dele e de Noel. Canção brasileira independente. Non sense nosso.

Meu bem eu topamos no YouTube, por acaso, em Vivo deste amor, samba lindo de Bide e Marçal, interpretado por Francisco Alves, que eu também não conhecia, e trata de amor e morte:

http://youtu.be/Aeq-oF87fHI

Eu sou bem feliz

Vivo deste amor

Que me traz a vida em flor

E o paraíso, na terra encontrei

Mas no fim, meu Deus, não sei.

Ninguém sabe

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