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OPINIÃO POLÍTICA

Governo, seca e protesto

Ivan de Carvalho

A população da cidade de Queimadas, sede do município do mesmo nome, na região sisaleira da Bahia, realiza hoje uma manifestação de protesto contra a “falta de ação do governo estadual” ante a crise criada em toda essa região – como em outras do semiárido baiano e de todo o chamado Polígono das Secas do Nordeste brasileiro – pela estiagem extremamente severa e prolongada.

De acordo com o deputado estadual Carlos Geilson, do PTN, um partido na oposição, a manifestação pretende fechar a BA-120, que atravessa a cidade, e a ferrovia que liga Salvador a Juazeiro e que não tem relevância em relação ao transporte de passageiros, mas é relevante no transporte de cargas.

O deputado disse que, pelas informações que lhe chegaram, apenas as ambulâncias terão passagem liberada na rodovia. Mas, caso se apresentem situações especiais, pode-se supor que será liberada a passagem de outros veículos de função especial. Como, por exemplo, carros de bombeiros se houver, por exemplo, algum incêndio a combater. Dificilmente veículos policiais terão passagem fácil, salvo em missão relevante que nenhuma relação tenha com o protesto e a mobilização correspondente.

Essa manifestação prevista para hoje em Queimadas pode se tornar uma grande dor de cabeça para o governo estadual e, raciocinando no limite, vir a incomodar até mesmo o governo federal, que recentemente, pela palavra da própria presidente da República, Dilma Rousseff, anunciou a aplicação de bilhões de reais em “medidas emergenciais” para atenuar ou evitar que se agravem ainda mais os efeitos da seca.

O problema é que a seca está aí, presente, há tempo demais para que “medidas emergenciais” presumivelmente amplas venham a ser anunciadas somente agora. Além disso, a prática tem demonstrado que uma coisa são os anúncios e promessas do governo federal (atual e uns três ou quatro anteriores) e o que é efetivamente realizado.

O partido Democratas, por exemplo, talvez inspirado no Impostômetro da Associação Comercial do Estado de São Paulo, que se tornou muito conhecido no país, adiantou ontem que está criando o Promessômetro, instrumento de informação que rastreará as promessas feitas por Dilma Rousseff, quando candidata ou já presidente, para cotejar com o que foi realizado. Dilma Rousseff prometeu implantar 800 Centros de Artes e Esportes Unificados. Mesmo, como salienta o DEM, integrando o PAC e com recursos previstos de R$ 1,6 bilhão em dois anos, a presidente chegou aos seus dois anos de mandato (a metade do tempo que tem) com apenas R$ 78 milhões aplicados, que equivaleriam a 39 Centros, mas o site do Ministério da Cultura informa sobre a conclusão de apenas três.

Assim, se as “medidas emergenciais” contra os efeitos da seca tramitarem em ritmo similar nos descaminhos da burocracia, da incompetência, da negligência, da inapetência, do descaso e da distância que separa Brasília do Polígono das Secas, a situação só tende a piorar. O período das chuvas no semiárido está chegando ao fim, as previsões meteorológicas não são boas, muito pelo contrário, e o que pode vir por aí é aquela chuvinha de inverno, que às vezes até molha o chão, mas não tem influência relevante nos reservatórios.

A significância maior nessa manifestação de protesto prevista para hoje em Queimadas é que, se realmente for realizada e tiver efetividade, sirva de exemplo para outras comunidades em situação semelhante (e, somente nas proximidades, na região do sisal, há várias) fazerem a mesma coisa. A situação do governo é complicada: se dá imediatamente uma resposta favorável e suficiente, estimula a repetição dos protestos em outros lugares. Se não atende, fica numa situação difícil quanto à sua imagem e pode fazer recrudescer o protesto na própria cidade de Queimadas. O ideal, para o governo, seria, talvez, fazer promessas que adiem e finalmente, cumpridas, evitem a manifestação de protesto. Mas, mesmo assim, corre o risco de ter sua estratégia observada e vê-la tornar-se estimuladora de manifestações semelhantes – e, convenhamos, justas.

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