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TEMPO GUARDADO

Gilson Nogueira

Turmiada, passopreto, bugario e canário eram os nomes de alguns dos bois pé duro zebuinados que puxavam o carro de boi de minha infância, em Serrinha, durante as férias escolares.Sentia-me, ali, vaqueiro de calças curtas, a condenar o ferrão, no espetar dos bichos, e a pisar na madeira para que eles parassem de andar, ao gritar, em cima do carro: Ôôôááá!!!

Eles obedeciam.

Tenho, na memória, os animais sorrindo. Contrastando, a lágrima seca, no canto do olho imenso, e triste, por denunciar, no silêncio irracional da espécie, o sofrimento que lhes impunha o homem.

Imponentes, como jequitibá de couro, carne e osso, e lustrosos, em sua operosidade, sob o sol implacável do sertão, faziam-me aproximar-me de um presépio.

“ Oh, Deus, onde estás que não respondes?”, poetizava eu, enquanto os bois balançavam o rabo, interrompendo o balé das moscas, e Zinho tragava o fumo de corda suando mais que tampa de cuscuzeiro: “ Vorta Turmiaaada!!!”

Com o gemido de pau na roda do carro – que é a cantiga do carro de boi -, imaginava aqueles animais como sansões do mato, verdadeiras criaturas do bem. “ Os bois não deveriam morrer de morte matada,e, sim, se a Índia fosse aqui, de morte morrida”, pensava.

Memeemmuiiuiiiiioooooiihenheeeeeeeenhen!

Carro de boi, tema de crônica, minha, no suplemento rural do extinto Jornal da Bahia, editado por Pancho Gomes. O matutino da chama que, até hoje, brilha na lembrança do povo baiano e na história da Imprensa da Bahia, pelo exemplo que o JBa deu em defesa da liberdade. O JBa faz falta.

E é nesse recordar sem pressa, sem saudosismo, que volto clamar aos céus fazer essas nuvens gordas cheias de chuva, a sobrevoar a decadente Salvador, agora, caírem no chão sertanejo, onde estão fincadas profundas raízes desse estado de pecuária e agricultura inigualáveis, ocupado por gente de bem, a resistir aos caprichos da natureza e ao engodo de políticos que só pensam em ganhar dinheiro.

Mas, apesar de tanta promessa não cumprida, a justiça divina não tardará, como, também, a oportunidade de voltar ao interior do meu estado e ficar contemplando sua paisagem verde, pontilhada de beleza e gente feliz, com fartura e gado gordo.

Até lá, fico a imaginar que, em uma cristaleira de jacarandá do Sul da Bahia, ao lado dos doces de leite e de caju, o tempo está guardado, à minha espera.

Gilson Nogueira, jornalista, colaborador do Bahia em Pauta

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