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Cada terra com seu uso…,

por Maria Helena RR de Sousa

Londres é uma cidade misteriosa. Ela não se entrega como Paris, ou como o Rio. Vai sendo descoberta aos poucos. Penetra lentamente em nossa alma. E nunca mais sai. Finca raízes.

Não falo em meu nome. Falo em nome de muitas pessoas que lá moraram ou moram. No início, a dificuldade em se adaptar é enorme. Maior talvez que a área da cidade…

Começando pela língua. Cheguei lá falando inglês para ser surpreendida pelo fato de que achava que falava inglês… Mas aos poucos essa barreira é vencida e aí começam as outras.

No entanto, não conheço quem, tendo morado lá, não se apaixone pelo modo de viver do inglês.

Talvez gostar de sua literatura ajude. E aí estou em muito boa companhia: Jorge Luís Borges era um apaixonado pela literatura inglesa. Que é, realmente, apaixonante.

Os ingleses são surpreendentes. Logo que cheguei, um senhor amigo de minha família, que tinha morado por muitos anos no Rio, onde nasceu sua filha caçula, foi me procurar em meu local de trabalho para me convidar a passar o week-end em casa da família, num vilarejo muito simpático. Deu-me um cartão com tudo anotado: o trem que eu devia tomar, em qual estação, que tipo de agasalho levar e, para minha enorme surpresa, duas passagens de trem, a da ida e a da volta! Fiquei muito sem graça, queria recusar as passagens, mas pelo espanto em seus olhos, vi logo que isso seria mal visto. Aceitei.

Outro, casado com uma brasileira, tinha a casa praticamente aberta para brasileiros. Com uma regra: ou falava-se inglês se houvesse algum inglês presente, ou falava-se português, nada de misturar as duas línguas. Ele ria muito dos brasileiros que por morarem um período em Londres saiam de lá falando parking em vez de estacionamento e bookar em vez de reservar. Dizia sempre que se havia correspondente em cada língua, não havia motivos para essa tolice.

Foi uma ótima lição.

Pena que o brasileiro não adote esse amor à sua língua e ao que é nosso. Lojas com nomes como New Époque, Le Cappeli, termos como planta em vez de fábrica, massivo em vez de maciço, kisses em vez de beijos, francamente, é patético.

Dizia esse amigo que nesse ponto devíamos baixar a cabeça para os argentinos. Sua língua era um orgulho pátrio. O tango venceu em espanhol e até no mais legítimo lunfardo. Não foi preciso dizer Return em vez de Volver, como tivemos que fazer em Waters of March

O que é verdade. Tenho prima casada com argentino. Têm um filho de 12 anos. Pois o menino é fluente nas duas línguas e não mistura alhos com bugalhos. Aprendeu ambas e se expressa muito bem, por escrito ou oralmente, nas duas. Com uma exceção, segundo o pai: não sabe torcer em espanhol. Futebol, só em português.

Maria Helena RR de Sousa. cronista e articulista, mora no Rio de Janeiro, de onde colabora com o Bahia em Pauta

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