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CRÔNICA/

Um brinde às Três Marias

Janio Ferreira Soares

CRÔNICA/ GENTE

Da minha infância lembro bem de Ernesto, um rapaz que andava delicadamente pelas ruas de Glória, e de Cícero, um mulato afeminado que morava na casa de minha avó. Os dois eram zoados abertamente pelos meninos e mais discretamente pelos adultos. Também recordo que tinha um pé-atrás com certos padres que gostavam de passar seus dedos ainda cheirando a galinha assada em minha cabeça, embora na sequência, alertado pelo lado beato da consciência que dizia ser pecado mortal desconfiar de reverendos,mudasse rapidamente de opinião com medo de arder para sempre nas chamas rubras do quinto dos infernos. Quanto às mulheres, elas existiam, sim, e levantavam suspeitas. Solteironas, passavam grande parte do tempo na igreja de Santo Antônio, ora orando para serem absolvidas das tentações, ora implorando a consumação do amaldiçoado desejo de roçar seus lábios em lábios tão delicados quanto os seus.

Mais tarde, já adolescente em Paulo Afonso, toda vez que eu passava em frente ao Hotel Cacique, um sujeito que lembrava Stanley, o Magro da dupla com o Gordo, me mandava beijos com sua boca banguela e piscava seus olhos orientais para mim. Eu apenas ria e seguia em frente. Seu apelido era Zé dos Pratos e sofria horrores nas mãos da moçada.

No começo dos anos 80, eu fazia Direito na Ufba e certa vez cheguei a São Lázaro com minha velha calça vermelha e um amigo, hoje juiz, sentenciou: “você só não é viado porque seus primos tomaram todas as vagas da família. Mas é fresco!”. Ele defendia a tola tese de que em toda família havia uma cota reservada para homossexuais e, se algum fosse muito afetado, o próximo da fila perderia a sua vez.

Os fatos acima aconteceram numa época em que “homo” e “fobia” ainda dormiam em camas separadas e nem imaginavam que um dia se juntariam para nominar essa turma que quer porque quer impedir casais do mesmo sexo de tomar um bom pinot noir nessas luminosas noites de outono, seja brindando à vida, ao amor ou àquelas três estrelas alinhadas que misteriosamente são chamadas de Marias.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco.

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