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Deu no Observatório da Imprensa, de Mino Carta, no espaço Imprensa em Questão, reproduzido do blog do autor, 1/4/2013.

Bahia em Pauta também reproduz o texto, por considerar relevante uma reflexão na semana da imprensa sobre as palavras do professor de Comunicação da UFBA, Fernando Conceição.Confira!

(Vitor Hugo Soares)

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MÍDIA BAIANA

Jornalismo na Bahia, um epitáfio

Fernando Conceição

Reproduzido do blog do autor, 1/4/2013

É perceptível a “orfandade” de quem busca informação isenta, pluralista e de qualidade nos meios de comunicação jornalística na Bahia, estado com população de 14.175.341 habitantes (IBGE, 2012). Ainda que de tanta gente, mais da metade acima de 15 anos de idade – isto é, 52,5% – permaneça analfabeta (18,5%) ou funcionalmente analfabeta (34%). Dado pornográfico por si só, que tornaria condenável qualquer governante menos cínico.

A qualidade da mídia jornalística na Bahia – também o quarto maior colégio eleitoral do Brasil, com quase 10 milhões e 200 mil eleitores, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (TSE, 2012) – tem piorado a olhos vistos e ouvidos escutados. Ano após ano, desde que este escrevinhador se entende como gente (fim da década de 1970 para cá). Na democracia, é impossível escolher bem sem ser bem informado. A má qualidade informativa é péssima para a democracia. Ruim para toda a sociedade, que se torna refém, desprotegida dos desmandos das elites de poder econômico, político, religioso, militar.

Tem repercutido a publicação sobre a situação da mídia noticiosa 2013, relatório anual do Pew Research Center, do qual aqui tomamos de empréstimo o conceito de “orfandade”. O relatório vem sendo publicado desde 2004 por essa organização não-governamental e não-partidária mantida por The Pew Charitable Trusts. Por sua vez, essa é uma instituição que se declara independente e sem fins lucrativos, fundada em 1948 por herdeiros de Joseph Newton Pew (1848-1912), magnata da indústria de derivados de petróleo, óleos combustíveis e lubrificantes.

Órfão está quem busca informação de qualidade na terceira mais populosa capital do Brasil, Salvador. Aliás, onde existem apenas três jornais impressos diários: A Tarde, o mais antigo, Correio, o mais suspeitoso, e Tribuna da Bahia, o mais dissimulado.

Jornais? Raquíticos em tiragem (somando, os três não vendem 100 mil exemplares diários), indigentes em circulação (nenhum cobre sequer metade do território estadual), subnutridos em noticiário. Pegue-se hoje em dia qualquer edição de A Tarde, veículo caro à mentalidade dos habitués na leitura de jornais: é vergonhoso no que seus responsáveis estão transformando sua memória.

Assim é o atual padrão do noticiário da TV e do rádio locais, a maioria com departamentos de jornalismo esquálidos. As redações se transformaram em ambientes anódinos, onde se explora o trabalho de gente semianalfabeta, considerável parte “estagiária” escravizada como se já profissionais formados.

E as escolas de jornalismo, fazem o quê?

É aqui que entra a irresponsabilidade da política de formação de jornalistas no país. Na Bahia, por exemplo, que papel têm desempenhado nesse quadro os cursos e as faculdades que ofertam a habilitação em Jornalismo?

Se até 1998 somente era possível cursar Jornalismo na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, em 2012 o Ministério da Educação tinha cadastradas no estado 13 instituições que ofertavam essa habilitação, nove outras que ofertavam Comunicação com Jornalismo, e uma última Comunicação e Jornalismo Multimeios. Vinte e nove instituições ofertam hoje algum tipo de habilitação genérica (bacharelado?) em Comunicação Social na Bahia, a esmagadora maioria privadas e particulares.

Haveria tantos “professores” qualificados, na capital e por todo o interior, para prover esseboom do mercado estudantil em jornalismo? Esses cursos e faculdades possuem as condições necessárias – com laboratórios, equipamentos, produtos experimentais, acompanhamento dos egressos etc – de funcionamento? O mercado formado pelas empresas tradicionais de produção e tratamento noticiosos teria como absorver a mão de obra que sai a cada ano dessas escolas?

A resposta a essas perguntas é um rotundo não.

E curioso é constatar a mudez da mais importante Faculdade de Comunicação da Bahia, a Facom/UFBA. Que bem poderia encetar um debate profundo sobre a crise no jornalismo baiano. Crise que talvez seja consequência da crise de identidade (praticar jornalismo ou odiar jornalismo? – eis a questão…) dos próprios cursos de Jornalismo, já considerados descartáveis em julgamento histórico do Supremo Tribunal Federal.

Descartáveis seríamos também nós, os professores desses cursos? Assim como os sindicatos de jornalismo e, mais paroquiano ainda, a esclerosada Associação Bahiana (assim mesmo, com “h”) de Imprensa?

Que contribuição a chamada “academia” pode dar a esse debate? Se é que pode dar alguma, além de encantar-se com o próprio umbigo e ficar bajulando donos de rádios, TVs e jornais com projetinhos voluntaristas e submissos.

***
Fernando Conceição é jornalista, professor associado na Universidade Federal da Bahia com pós-doutorado na Universidade Livre de Berlim, doutor e mestre em Ciências da Comunicação na Universidade de São Paulo

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Comentários

rosane santana on 10 Abril, 2013 at 14:24 #

E eu vou mais longe. Pra que servem as escolas de Jornalismo deste país? Alguém já se deu conta que o graduado em qualquer área de humanas pode ensinar na Faculdade de Comunicação, mas o contrário é impossível, ainda que se tenha um Mestrado e/ou doutorado em qualquer outra área? Que curso é esse? Não seria mais coerente, assim, uma especialização. Por que manter esse engodo, esse diploma de faz de conta?


rosane santana on 10 Abril, 2013 at 14:31 #

Tenho saudades do tempo em que os jornais, como o Jornal da Bahia, possuía em seus quadros economistas, sociólogos, historiadores, literatos etc. Quem trabalhou há 30/40 anos em jornais brasileiros sabe que era um ambiente intelectualizado, riquíssimo. As tais Escolas de Comunicação esvaziaram as redações de cérebros e criaram um monstrengo com diploma e tudo que de nada serve, com ou sem diploma. Ninguém respeita, nem considera para efeito de coisa alguma.


rosane santana on 10 Abril, 2013 at 14:36 #

Correção: não seria mais coerente, assim, uma especialização?


danilo on 10 Abril, 2013 at 14:54 #

o que Conceição escreve agora não é nenhuma novidade. isto já se vem falando a pelo menos uma década nos bate papos e conversas de gente informada de Salvador.

e as coisas pioraram mais ainda com a consolidação da internet, e de como, com isso, a imprensa baiana ficou precocemente caquética, atrelada a um conservadorismo e alinhamento político vergonhoso. tanto para a direita quanto para a esquerda.


danilo on 10 Abril, 2013 at 19:00 #

isso sem falar na horrorosa qualidade gráfica e programação visual de A Tarde, com os mesmos articulistas de sempre. a linha editorial que não acompanha os grande temas da realidade, vide o caso do mensalão, quando os principais jornais do país estampavam na primeira página os desdobramentos das sessões do Mensalão, enquanto A Tarde ignorava com noticias de capa do tipo “Joel Santana diz que Bahia é sardinha”.

também vale frisar o processo de despolitização engendrado pelo Correio da Bahia, que faz a opção por um jornalismo vazio, culturalmente provinciano, que também é característica de todos jornais de Salvador, onde Saulo Fernandes é tratado com a importância de um Beethoven.

e a desgraça do jornal Massa, sub sub sub sucursal bad boy do A Tarde, com aquelas cachorras na capa, sangue pingando da violência-espetáculo da periferia. tudo para tentar $alvar as contas do prejuízo explorando a ignorância do povão.

por essas e por outras que tem uma caralhada de gente que diz que se os jornais de Salvador fecharem, sumirem, não vão fazer nenhuma falta.

ou mudam ou desaparecem.


elisabete sotero on 13 Maio, 2014 at 15:56 #

oi Fernando faz tanto anos que nao te vejo hoje te encontrei , moramos perto um do outro , edna minha irma lembra, no mirante lembra estudamos juntos administracao no colegio n.s. de lourdes em nazare lembra, eu lendo essa materia sobre jornalismo , e pensei minha menina, vai comecar a cursar comunicacao social c/ habilitacao em publicidade e propaganda, e a vontade dela e eu respeito , mas concordo c/voce o ensino de hoje fica muita a desejar ao ensino de anos atras cade a leitura as pesqiusas nas bibliotecas tudo hoje e pela internet, parabens estou feliz por voce abracos bete


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