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OPINIÃO POLÍTICA

Margareth Thatcher

Ivan de Carvalho

Margareth Thatcher, que morreu ontem, aos 87 anos, de um acidente vascular cerebral, foi sem dúvida uma das mais importantes lideranças políticas mundiais do século XX e se consideradas apenas as mulheres, a mais importante e destacada. Como primeira-ministra britânica, em tempos de paz não teve concorrência no século passado. Se considerados também períodos de guerra é preciso reconhecer a enorme relevância do primeiro-ministro Winston Churchill, do mesmo partido que o dela, o Conservador.

Internamente, ela fez o que se pode chamar de uma revolução liberal na Inglaterra, que estava economicamente caindo aos pedaços, praticamente sob o domínio dos sindicatos, com um Partido Trabalhista atrelado e fortemente submisso a eles. Iniciou seus 11 anos ininterruptos de governo, que terminaram somente em 1990 com uma manobra interna em seu Partido Conservador, por causa de uma mudança tributária polêmica que ela pretendia fazer.

Mesmo assim, o Partido Conservador bateu o trabalhista nas eleições e conseguiu permanecer mais cinco anos no poder, sob a liderança do primeiro-ministro John Major. Thatcher, adotou internamente a economia política liberal e lançou a proposta global de recuperação econômica mediante a proposta da economia liberal de mercado.

Thatcher iniciou seus 11 anos de governo com uma traumática queda de braço, que durou um ano inteiro, entre o governo e o Sindicato dos Mineiros. O governo venceu e o sindicalismo britânico, que trava a economia do país, nunca mais voltou à posição dominante que assumira, controlando o Partido Trabalhista, que pouco mais à frente, com Tony Blair, mudou radicalmente de linha, abandonando de vez a ideologia dita “de esquerda” e adotando o pragmatismo com matizes social-democratas.

A ação política internacional de Margareth Thatcher foi simplesmente espetacular. Ela sozinha iniciou uma retórica e um jogo duro contra o império comunista representado pela União Soviética e seus satélites. Era uma luta desigual enquanto governava os Estados Unidos Jimmy Carter, um presidente correto e ético, mas fraco e colecionador de fracassos, como a captura da embaixada americana pela Guarda Revolucionária do Irã, com numerosos reféns que ficaram presos ali por meses e ainda a desastrada operação militar secreta para resgatá-los.

A maré virou com a eleição de Ronald Reagan para a Presidência dos Estados Unidos. Ele entrou disposto e conseguiu restaurar o que chamava de “majestade da Presidência”. Como que por milagre o governo do Irã libertou os reféns às vésperas de sua posse – “Se eu fosse presidente do Irã, eu libertaria os reféns antes que eu tomasse posse” – advertira Reagan, numa declaração um tanto irônica que os chefes iranianos instantaneamente entenderam.

Bem, a dupla Thatcher-Reagan logo tornou-se um trio no qual se integrou um aliado valioso, corajoso e estrategista de primeira linha, o papa João Paulo II. A ação conjunta e bem coordenada convenceu a liderança soviética de que não tinha como, condições econômicas e tecnológicas para fazer frente à corrida militar desencadeada por Ronald Reagan. Surgiu um líder lúcido e sensível, Mikhail Gorbachev, tentou uma grande reforma interna, mas as resistências reacionárias inviabilizaram uma liberalização política e econômica gradual e deram o empurrão final para a ocorrência de fatos que fizeram desmoronar o império soviético em toda a Europa Oriental e finalmente levaram à extinção da própria União Soviética.

Thatcher, ainda no governo, estimulou esse desmoronamento e, em 1989, pôde comemorar a histórica e emblemática queda do Muro de Berlim. Já fora do governo testemunhou a extinção da URSS, ação liderada por Yeltsin, já presidente eleito da Rússia. Difícil é saber se isto foi melhor para o mundo (especialmente ante a sucessão de Yeltsin por Vladimir Putin, o homem da KGB, a organização hoje no comando da Federação Russa) ou se seria melhor que Gorbachev se mantivesse no comando e a URSS se desfizesse suavemente.
Mas isso não dependia dela, Thatcher.

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Comentários

jader on 9 Abril, 2013 at 14:47 #

Thatcher sem mistificações

Paulo moreira Leite

A morte de Margaret Thatcher tem sido ilustrada por balanços ambíguos e avaliações incompletas. É preciso falar claro: sua passagem pelo governo britânico e a influência internacional que adquiriu contribuíram para tornar o mundo pior..

Sua contribuição ao debate de ideias é uma mistificação e o saldo final é um retrocesso.

Foi a partir de Thatcher que o capitalismo voltou a aceitar com naturalidade o que antes era uma vergonha. Depois da construção do Estado de Bem-Estar Social, a partir dos anos 30 do século XX, já não era mais moralmente aceitável nem politicamente conveniente sacrificar os mais pobres e menos protegidos em nome do crescimento e da acumulação de lucros.

Com Thatcher, valores como solidariedade social e responsabilidade do Estado passaram a ser tratados como estímulo à preguiça e à vagabundagem, sendo substituídos por um individualismo selvagem. O egoísmo passou a ser visto como benéfico para a economia e a sociedade – noção típica do capitalismo primitivo do século XVIII.

A guerra contra os serviços públicos ingleses, que chegaram a ser um exemplo para o mundo desenvolvido, reduziu o padrão de vida da população britânica a um nível espantoso.

A guerra contra os sindicatos só contribuiu para elevar a desigualdade e facilitar o enriquecimento dos mais ricos. A Inglaterra tornou-se o paraíso dos bancos e daquela clientela que enriquece a sua volta.

A maior fonte de riqueza de sua passagem pelo governo consistiu na descoberta do petróleo do Mar do Norte, que ajudou os empobrecidos britânicos a pagar suas contas. (É curioso observar que, apesar disso, ela nunca foi acusada de fazer petro-populismo no estilo de… Hugo Chávez, certo?)

Após um conjunto de medidas impopulares, Thatcher salvou-se graças à Guerra das Malvinas, travada como uma celebração colonial.

A ausência de compromissos reais com a democracia ficou demonstrada pelo apoio incondicional a Augusto Pinochet, que manchou a história do Chile e da humanidade a partir do golpe que derrubou um presidente eleito em 1973. Com um empenho sem limites e sem escrúpulos, Thatcher manteve-se leal a Pinochet até o último momento.

Na cena final, a ironia da história. Apresentada como defensora do cidadão, inimiga dos impostos, a madrinha do neoliberalismo foi forçada a deixar o governo. O motivo? Uma revolta popular contra impostos altos.


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