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OPINIÃO POLÍTICA

Que saia, vivo ou morto

Ivan de Carvalho

O pastor Marco Feliciano, do Partido Social Cristão, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, eleito para o cargo pela ampla maioria representada por 11 dos 18 integrantes do colegiado, não morreu.

Contrariando a irada reação dos que querem que ele saia do cargo vivo ou morto, ele não saiu vivo – não foi convencido a renunciar, como já avisara desde o meio da semana passada, ao gravar uma entrevista para o programa Pânico, da Band, que não sairia. E não ocorreu a única circunstância que, segundo ele mesmo, o retiraria do cargo – “Só se eu morresse…”.

Depois de uma fase de vacilação ante as pressões externas, internas e até do presidente da Câmara, deputado peemedebista Henrique Eduardo Alves (talvez preocupado em retirar da linha de tiro sua própria imagem), ontem a comissão executiva e a bancada do PSC decidiram apoiar a permanência do deputado Feliciano na presidência da comissão. “Informamos aos senhores que o PSC não abre mão da indicação feita pelo partido. Feliciano é um deputado ficha limpa” e tal, disse o vice-presidente nacional do PSC.

Simples assim? Não. Ainda que o PSC quisesse abrir mão, sem a concordância de Feliciano não poderia. O partido o indicou para o cargo, mas em seguida ele foi eleito, com ampla margem e sem contestações e impugnações de natureza legal. Ato jurídico perfeito.

Mas o PSC, sob fogo cerrado e no que imagino seja seu legítimo direito de defesa, distribuiu uma nota oficial de três laudas. Nelas, relata o histórico de alianças do PSC com o PT, desde 1989 até a eleição de Dilma Rousseff, para quem, aliás, o pastor Feliciano entusiasmadamente pediu votos às ovelhas que pastoreia, como aqui assinalei ontem.

Em sua nota, lida pelo vice-presidente nacional, pastor Everaldo Pereira, o PSC diz que “mesmo diante das declarações de que ela não sabia se acreditava em Deus e que não era contra o aborto (era, como dissera, favorável a abolir a proibição do aborto), o PSC apoiou a presidente Dilma, sem discriminá-la por pensar diferente de nós”. Lembrou ainda que o PSC fez “protestos pacíficos” contra a ministra Eleanora Menecucci, da Secretaria das Mulheres. “Respeitamos a todos e gostaríamos que também nos respeitassem”. O partido afirmou que os protestos contra Feliciano são naturais, mas devem ser “respeitosos” e observou que também pode mobilizar militantes. Destacou o fato de o deputado pastor ter sido eleito para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. “Democracia é voto. Democracia não é grito, nem ditadura”, assinalou.

Democracia parece que é o que menos está contando no caso. O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves – do PMDB, é bom frisar, porque a legenda e sua antecessora, o MDB, lutaram muito para restaurar a democracia no Brasil – que já havia dito ontem que tinha de “acatar” a decisão do PSC, marcou para ontem mesmo, à noite, uma reunião com lideranças de partidos. A idéia é inviabilizar a CDHM – cada líder retiraria da comissão os representantes de seu partido, de modo que ficariam nela apenas os cinco do PSC, número insuficiente.

Claro que essa coisa é golpe político de quem não consegue perder democraticamente uma batalha, mas esse era o quase incrível noticiário da noite de ontem. Assim, é possível que a Câmara dos Deputados fique, pelo menos na prática, sem a comissão específica para tratar de direitos humanos e minorias. Ou, quem sabe, para salvar, não sei se desse modo sua alma, mas certamente sua imagem, o deputado-pastor Feliciano faz a gentileza de morrer o mais depressa possível. Seguramente os irados protestos se transmutarão em entusiásticos aplausos.

Mas, enquanto ele não morre, aprestam-se a matar a comissão.

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