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Mario Vargas Llosa e sua obra prima

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ARTIGO DA SEMANA

Enquanto o “descrente radical” não chega

Vitor Hugo Soares

Leio no jornal “O Estado de S. Paulo” que o escritor Mario Vargas Llosa está a caminho do Brasil. Ele desembarca em São Paulo, no mês de abril, como convidado especial para falar na abertura do mega-evento cultural, científico e jornalístico Fronteiras do Pensamento.

Antes de pegar o avião, Llosa serviu um contundente e delicioso aperitivo. O Nobel de Literatura deu, por telefone, uma entrevista ao repórter Ubiratan Brasil, publicada no diário paulistano, na qual fala de livros e personagens, política, corrupção na América Latina e no mundo, redes sociais na Internet, erotismo e outros temas. Incluo a conversa entre o que melhor se produziu no jornalismo brasileiro esta semana para não esquecer, no começo do outono de 2013 no Hemisfério Sul.

Dias pontuados pelo transcendente início do pontificado do papa Francisco (a numerosa e mal justificada comitiva da presidente Dilma Rousseff hospedada em hotel romano de luxo foi um dos raros aspectos negativos e destoantes ) e pela severa lancetada do ministro presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça-CNJ, Joaquim Barbosa, no tumor dos “conluios e das relações promíscuas” – não raramente também corruptas – entre juízes e advogados no Brasil.Bofetada, sem luvas de pelica ou meias palavras, aplicada pelo comandante do Poder Judiciário, contra a hipocrisia e a cumplicidade que grassam em Brasília e país afora.

Retorno ao ponto de partida:

Na estante de meus maiores afetos literários (são muitos e variados) o romance “Conversa no Catedral”, do escritor peruano tem lugar de destaque. E não sem motivo, pois mesmo quando comparado a muitos daqueles que os críticos costumam incluir na relação dos maiores e melhores títulos da literatura do continente e mundial, a grandeza do romance de Vargas Llosa se sobressai..

Compreendi isso quando, ainda jovem, iniciava a carreira de jornalista (em A Tarde) e adquiri um bem cuidado exemplar de “Conversa na Catedral” (título incorreto nessa edição brasileira), no antigo “Sebo de Loureiro”, na Ladeira da Praça, em Salvador. Foi apego indissolúvel à primeira vista. Uma dessas sensações de leituras que marcam o sujeito como ferro em brasa. Para sempre.

Quando Vargas Llosa esteve na Bahia, pouco tempo depois, o sentimento cresceu e se enraizou ainda mais. Então eu já estava na sucursal do Jornal do Brasil e o escritor peruano iniciava seus levantamentos e anotações, conversava com o saudoso pesquisador e historiador José Calasans e outros estudiosos baianos. Llosa preparava-se para produzir mais uma de suas obras primas: “A Guerra do Fim do Mundo”, magistral romance sobre os conflitos de Canudos no final do Império e começo da República, o universo conflagrado do sertão baiano onde vivi parte da minha infância.

Fiz várias reportagens para o JB sobre a passagem de Llosa em Salvador e no sertão, até a publicação do romance que assombraria o mundo. Mas isso é outra história. Miudezas, para lembrar Graciliano Ramos. O que vale registrar neste artigo é que fiquei particularmente emocionado e feliz ao ver o escritor afirmar na entrevista ao Estado de S. Paulo:

“Se tivesse que salvar do fogo apenas um de meus romances, salvaria “Conversa no Catedral.”

Bati palmas, intimamente, ao saber desta escolha radical do notável escritor. Confesso que diante de tantos e tão belos e impactantes escritos de Vargas Llosa que já li e reli, faria provavelmente a mesma escolha. Mas confesso: vacilaria um bocado antes de afirmar isso de público.

Dizer de “Conversa no Catedral”, que se trata de um livro revolucionário na forma e no conteúdo, é pouco.E óbvio . O romance é, de fato, obra referencial, de incrível atualidade. Esplêndida construção intelectual de um escritor como poucos.Exuberante e complexo painel político, social, moral e de comportamento humano.

Tudo construído com maestria a partir das conversas de um jornalista , carregado de conflitos e vacilante em suas convicções pessoais e ideológicas (Zavalita) na mesa de um bar, o Catedral. Reduto boêmio de Lima, a agitada capital peruana, por onde trafegam personagens carregados de todas as misérias e maravilhas do Peru e do continente. Na verdade, um reduzido universo de sua gente (políticos, governantes, jornalistas, juízes, advogados e intelectuais incluídos) nos anos de fogo em que se passa a trama do romance.

Antes do ponto final, um trecho da entrevista de Vargas Llosa esta semana ao Estadão, sobre sua obra preferida:

“É um tema atual. Um dos grandes problemas do nosso tempo é a corrupção, que afeta, por igual, países ricos e em desenvolvimento, democracias e ditaduras. Há um desrespeito generalizado da ética, o que provoca delinquência, especialmente na política”.

E sobre o personagem jornalista:

“Zavalita é mais passivo, menos lutador, mas um personagem épico. Há uma frase vulgar no livro que o define bem: “Quem não se f…, f… os demais”. Ele não quer triunfar, pois, no país em que vive, só progride quem prejudica os outros. Prefere ser vítima. Assim, embora ético, é um homem medíocre por opção e ele se destaca, sim, no contexto de meus personagens, mas é uma forma que encontrei para protestar contra a delinquência mundial”.

Que venha abril, e traga ao País em suas asas o descrente radical, Vargas Llosa.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 23 Março, 2013 at 8:00 #

E por falar em bares….

Caro VHS

Te conheci quando frequentava o espaço de comentários do blog do Noblat, espaço livre, ou deveria ao menos ser, que lembrava um bar.

E bares são assim, democráticos, mesas que se transformam no decorrer da noite, uns chegam, outro se despedem, alguns permanecem.

Lembro que um certo dia resolvi desistir daquele espaço, algo me incomodava, por sorte, passei a frequentar este teu cantinho, repleto de pessoas interessantes, como o danilo, o wolney, a regina, a “menina mariana, entre tantos.

E fui me acostumando à generosidade fraterna que te caracteriza.

Hoje ao te brindar, adiciono uma despedida, bares são assim, e por vezes a democracia nos traz incomodos, lamento, caro VHS, mas a presença da Maria Helena Rubinato, repete o motivo para minha ausência, antes do Noblat, agora do BP.

Abraços!!!

Tim Tim!!!


Graça Azevedo on 23 Março, 2013 at 8:12 #

Ponto comum a tres (Llosa, o editor VH e eu) na escolha do melhor livro do grande peruano: Conversa na Catedral. Fico envaidecida!


vitor on 23 Março, 2013 at 10:52 #

Fontana:

Antes de tudo um reconhecimento: Você, querido poeta, advogado e boêmio de Marília (SP), sempre foi, desde o início, estimulador, animador, polemista e figura essencial deste site blog.

Continuará a ser, se for de sua vontade, enquanto este blog existir com suas marcas de origem:Pluralidade, alguma inteligência dos que o pensam , fazem (mesmo através de comentários,algo do melhor que temos), respeito às divergências e. sempre, a fuga do óbvio, dos rancores e ataques pessoais.

Em resumo: o pleno exercicio da democracia. como na música de Gonzaguinha sobre bares e boemia.

Qualquer que seja a sua decisão será acatada aqui, mesmo esta do afastamento, que nos entristece muito.

Antes, porém, venho propor diante de nossos ouvintes e leitores:Tomemos mais um gole (ou uns de saideira). Se não der mais na mesa, vamos ficar de pé no balcão (como no Blogbar) e conversar mais um poucco. E refletir um pouco mais antes de tão brusca separação. OK?

Em nome do bar e da admiração Tim Tim!!!

(Vitor Hugo Soares, editor do BP em nome do site blog)


luiz alfredo motta fontana on 23 Março, 2013 at 11:51 #

Caro VHS

Sempre generoso.

Renovo o abraço e deixo aqui minha gratidão, foram ótimos momentos, belas músicas, bons papos, temperados com a fraternidade que lhe é peculiar.

Confesso que sentirei mais falta do BP que do Blog do Noblat, o motivo é o memso, e tem nome, mas….afinal a Bahia é pura magia.

De resto, socorro-me nos versos de Edu Lobo:

..”Que é melhor partir lembrando
Que ver tudo piorar” (Borandá)”…

Tim tim!!!
Sucesso!!!


Carlos Volney on 24 Março, 2013 at 0:51 #

Olha eu aqui de novo……(“remember” Gonzagâo).
Se já me sentia envaidecido por poder participar de bate-papo com gente tão ilustrada e ilustre, a partir de nosso mestre Vitor Hugo, maior ainda é meu sentimento por ser citado por uma pessoa do quilate do poeta Fontana.
Você, irmão, é dessas raras figura de quem a gente gosta da companhia, ainda que virtual, e admira pela presença autêntica e marcante demonstrada quando opina sobre os diversos assuntos discorridos neste blog tão importante para os que como eu estão a acessá-lo quase como um bom vício.
Você vai fazer falta, e muita. Mas, quem somos nós para questionar as razões da mente e do coração – sim, eles não são excludentes quando se trata de gente com sensibilidade, acho melhor internalizar assim – de uma pessoa tão sábia.
Para mim, o sentimento de amizade prescinde de tempo e presença física para se sedimentar.
Foi bom “conviver” com você. Fica em paz, vida que segue.
Grande abraço…


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