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OPINIÃO POLÍTICA

A teoria dos doidos

Ivan de Carvalho

Não vamos tratar de um tema nunca antes abordado neste país. Muito pelo contrário, ele esteve em destaque esta semana, inclusive neste espaço, a partir do momento em que curiosos jornalistas começaram a descobrir conselhos – em alguns casos, velhos de cinco anos – nos sites das polícias Civil e Militar da Bahia. Logo veio a recordação da advertência do ex-governador Otávio Mangabeira: “Pense um absurdo. Na Bahia tem precedente”.

Mas neste caso não se verificou ainda, com certeza, se o precedente é da Bahia ou da Paraíba, onde orientações excelentes estavam sendo exibidas no site da Secretaria da Segurança Pública. Tentou-se até empurrar o espírito criativo para o aparelho de segurança paulista – enquanto o governo da Bahia é petista e o da Paraíba é socialista, o de São Paulo é tucano, o que tornava a “transferência” da invenção bastante conveniente. Mas a manobra malogrou porque nada perecido foi encontrado nos sites dos órgãos de segurança do Estado de São Paulo.

Os aparelhos de segurança dos dois Estados – Bahia e Paraíba –, talvez pela ausência de êxito no combate à criminalidade, especialmente a violenta, estão resvalando para a mais cômoda função de conselheiras, com o que, de certo modo, transferem a responsabilidade pela segurança pública para as potenciais vítimas – nós, os cidadãos-contribuintes-eleitores.

A Polícia Civil da Bahia retirou de seu site oficial um link que levava a instruções sobre como agir de forma menos arriscada em casos de assalto. Uma delas era a que instituía o chamado Imposto Ladrão, ou, para quem preferir, Imposto do Ladrão. Carregar sempre um pouco de dinheiro para satisfazer o ladrão, coisa que muitas pessoas já fazem espontaneamente, aconselhadas apenas pela impotência policial, independente do que haja nos sites oficiais.

Já a Polícia Militar, como aqui antes assinalado, dedicou-se a ensinar em seu site na Internet como proceder o sequestrado posto na mala de um automóvel. “Chute os faróis traseiros até que eles saiam para fora” (sic). Então, “estique seu braço pelos buracos e comece a gesticular feito um doido”. Não entendi bem como seria a anatomia da vítima ou o design do porta-malas para permitir esticar “o braço pelos buracos”, tal como descrito, mas deixa prá lá, que na hora Deus ajuda.
Encerro aqui este resumo da memória das instruções baianas – Ô, Bahia!, diria meu amigo e colega Vitor Hugo Soares – porque importa não negligenciar a Paraíba. Lá, a coisa foi brava, literalmente. Entre as várias instruções, uma se destaca.

“As paraibanas que se sentirem ameaçadas ao andar na rua ou ao saírem de um banco com o dinheiro na bolsa devem “fazer cara de brava, franzir as sobrancelhas e falar alto consigo mesmas”. O site da SSP não explica por qual razão isso funciona para inibir assaltos. Mas é possível construir uma teoria geral que abrangeria os dois casos baianos e o caso paraibano.

É a “teoria dos doidos”. É cientificamente comprovado que “quem rasga dinheiro é doido”. Ora, quem leva dinheiro para satisfazer o ladrão também só pode ser doido. O DNA é obviamente o mesmo – livrar-se inutilmente do dinheiro. O outro item da teoria, relativo ao caso baiano da vítima de sequestro que estica “o braço pelos buracos” e o agita “feito um doido” dispensa fundamentação. Esta é evidente por si mesma na linguagem do site policial. Finalmente, cumpre demonstrar que se enquadra na “teoria dos doidos” a mulher paraibana com “cara de brava” – é pleonasmo, toda paraibana tem cara de brava – sobrancelhas franzidas e falando alto “consigo mesma”. Importa, neste caso, é que o ladrão pense que a vítima em potencial é doida. E, olhando-a, é o que ele vai pensar. “Se eu der voz de assalto, ela não entende e me tamanca a bolsa na cara, pensando que eu quero ousadia. Se eu atirar e levar a bolsa, sujou. Se eu apanhar e correr, vergonha e perco a autoridade no pedaço”. Então, desiste.

A “teoria dos doidos” tem chance de tornar-se a principal estratégia de segurança pública no país. E pensar que tudo começou na Bahia e na Paraíba…

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