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O Papa com Perez Esquivel,Nobel da Paz

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OPINIÃO POLÍTICA

As dores de Francisco

Ivan de Carvalho

A primeira coisa que preciso dizer ao começar a escrever estas linhas é que não sou um vaticanista. É o óbvio, mas faço o registro para que ninguém possa, por desagrado ou malícia, acusar-me de pretender sê-lo.
A segunda coisa é que as dores do carismático papa Francisco, que tem dado – e não só após a sua eleição para suceder Bento XVI, mas desde muito antes – admirável testemunho de humildade, simplicidade e preocupação pelos pobres, ainda não começaram.

Mas as dores virão, e fortes, se ele aprofundar-se até as últimas consequências no caminho que vem percorrendo. Se imitar a atitude de Jesus em relação aos mercadores do templo. Precisa, primeiro, fortalecer-se para em seguida cumprir algumas obrigações que o colocarão (ou colocariam) em choque com parte da mais alta hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana e especialmente com setores da Cúria extremamente poderosos.

Claro que, devotando-se a cumprir corajosamente as obrigações que os vários aspectos da crise na Igreja lhe impõem, ele terá a abençoá-lo um poder muito maior que o dos que terá de enfrentar. Mas este poder maior muitas vezes, ainda que dando força à missão e ao missionário, permite que haja a dor. Seja a da carne, seja a da alma. No caso do papa Francisco, aparentemente seria bem maior a da alma que a da carne, mas nem sequer é possível descartar esta última.

A Igreja Católica Romana sofre com os escândalos que integrantes do clero produziram. Sofre com o avanço galopante do ateísmo em seu tradicional domínio da Europa mediterrânea e algumas adjacências. Sofre com a perda acelerada de fiéis para denominações evangélicas (principalmente as pentecostais e neopentecostais), especialmente na América Latina, notadamente no Brasil, o maior país católico do mundo.

Continua a sofrer com a crescente separação dos cônjuges, na palavra de Jesus só aceitável em caso de prostituição. Sofre com o avanço da permissão para a matança dos inocentes indefesos pelo aborto, um pecado e crime em lugar de honra na lista dos mais repugnantes que podem ser cometidos. Sofre em crescendo com perseguições iniciais a católicos romanos e outros cristãos em vários lugares do mundo, perseguições que vão aumentar numa escala hoje impensável. Sofre com o avassalador ativismo homossexual, a estabelecer uma cultura que a Igreja não pode deixar de se opor, pela condenação expressa, múltipla e incisiva no Antigo e no Novo Testamento – no Eclesiastes, em Paulo, no Apocalypse. Sofre com a tentativa de amordaçá-la para que não interfira nesse debate, sob o pretexto de homofobia, ainda que demonstre a Igreja todo o respeito pelos homossexuais, o respeito devido a todo ser humano e ao seu livre arbítrio.

Estas são dores externas da Igreja. Mas o papa Francisco terá de enfrentar também, e parece-me que com muito mais urgência, as dores internas da Igreja, revelando e combatendo sem reservas o pecado (e crime) terrível da pedofilia que escala os vários graus da hierarquia, saneando as finanças do Instituo para Obras Religiosas (IOR, o Banco do Vaticano, que não é grande, tem uns R$ 16 bilhões ante R$ 1 trilhão do Itaú), onde ocorreram falcatruas e lavagem de dinheiro, inclusive da máfia, nomeando um Secretário de Estado que administre ajudando o papa, ao invés de sabotá-lo como se suspeita que aconteceu com Bento XVI.

A Igreja revelou, a conta-gotas, partes da chamada Terceira Mensagem de Fátima, mas retém secretas outras partes. Há suspeitas de que têm sido omitidas porque são muito duras com a própria Igreja e porque também existiriam itens ainda mais impactantes. Revelará Francisco tudo que está no texto?
Se revelar, seguramente haverá muitas dores, talvez inclusive físicas, mas que podem produzir purificação.

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