Daniel Mordzinski tinha as suas fotos guardadas numa sala do Le Monde, que alega que desconhecia que a sala funcionava como arquivo do fotógrafo DR/PÚBLICO

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Grande parte do trabalho do fotógrafo argentino Daniel Mordzinski desapareceu para sempre – e o fotógrafo está destroçado. Negativos e diapositivos originais que nunca chegaram a ser digitalizados desapareceram de uma sala do edifício do jornal Le Monde em Paris, ocupada pelo correspondente do jornal espanhol El País, Miguel Mora. Terão sido jogados no lixo, o que está geraando indignação nas redes sociais.

Desde segunda-feira que vários admiradores da obra de Daniel Mordzinski, entre os quais os escritores Rosa Montero, Jose Manuel Fajardo, Antonio Sarabia, Manuel Jorge Marmelo e ainda a Fundação José Saramago e as Correntes d’Escritas, lançaram uma campanha de apoio e de indignação nas redes sociais.

O escritor chileno Luis Sepúlveda, que com Daniel Mordzinski publicou o livro Últimas Notícias do Sul (Porto Editora), escreveu uma crónica no Le Monde Diplomatique intitulada “A estupidez do Le Monde destrói 50 mil fotografias” e lançou na sua página do Facebook uma petição, pedindo que o jornal francês explicasse o que se passou e pedisse desculpas públicas ao fotógrafo argentino porque “o arquivo de uma parte importante da história contemporânea não pode ser atirado, sem explicações, no lixo.”

Nesta terça-feira à noite, divulgou o El País online, as direções do jornal francês e deste diário espanhol tornaram público um comunicado conjunto em que explicam que o Le Monde já recebeu o fotógrafo e que desde esse momento tem feito “todo o possível” para compreender as razões “deste lamentável incidente” e que está a “estudar de que maneira os arquivos desaparecidos podem ser reconstituídos”. Afirmam ainda que o Le Monde reitera as suas desculpas ao fotógrafo pela destruição dos seus documentos, e asseguram que esta destruição aconteceu “sem que a direção do jornal tenha para isso dado o seu aval.”

Em declarações ao elperiodico.com, Daniel Mordzinski – que o PÚBLICO tentou contactar por e-mail – assegurava que nesse ato em que desapareceram mais de 50 mil fotografias tiradas entre 1978 e 2006 a escritores tão importantes como Borges ou Cortázar, “não houve perseguição nem complô, só incompetência”: “Como dizia Lampedusa em O Leopardo, só há que ter medo da estupidez humana”.

Quem passou alguma vez pelo festival literário Correntes d’Escritas sabe da importância do trabalho daquele que é conhecido como “o fotógrafo dos escritores” e que há mais de 30 anos tenta fazer aquilo a que chama “um atlas humano da literatura ibero-americana”. Toda esta polémica começou na segunda-feira, quando o fotógrafo enviou uma mensagem a partir de Paris para os seus amigos, que pode ser lida no site www.danielmordzinski.com, onde dava conta do que lhe tinha acontecido.

“Durante mais de dez anos utilizei, em virtude de uma aliança entre o El País e o Le Monde, um escritório no sétimo andar da redação parisiense do diário, onde guardava milhares de negativos e de diapositivos originais, que há uns dias desapareceram, assim, sem mais.(…) Milhares de fotografias, centenas de dossiers com a legenda ‘Cortázar’, ‘Israel’, ‘Escritores latinoamericanos’, ‘Semana Negra de Gijón’, ‘Carrefour de littératures’, ‘Saint Malo’, ‘Mercedes Sosa’, ‘Borges’, ‘Astor Piazzola’ etc, não lhes dizem nada e atiram tudo para o lixo sem consultar ninguém”, escrevia indignado.

Contava ainda, que no passado dia 7 de Março, o correspondente do El País na França, Miguel Mora, chegou a esse escritório no Le Monde e verificou que tinha sido esvaziado sem que ninguém os tivesse avisado. Ao tentarem verificar o que tinha acontecido, e nas buscas pelo edifício que entretanto realizaram nas horas que se seguiram, os repórteres encontraram o móvel arquivo, que o próprio fotógrafo tinha pintado de preto há dez anos, vazio num sótão do edifício.

“Ninguém sabe nem quer saber por que decidiram fazer ‘desaparecer’ o trabalho de toda a minha vida. Milhares de fotografias tiradas durante 27 anos. Vinte e sete anos de esperas, de nós na garganta, de noites em branco, revelações angustiantes”, escrevia Daniel Mordzinski na mensagem em que pedia a ajuda aos amigos para que se soubesse o que se tinha passado. “Ainda que não haja nada a recuperar gostaria que ao menos se saiba que o que aconteceu no Le Monde é mais do que uma negligência: é um profundo desprezo por um trabalho que faz parte da nossa cultura contemporânea”. De toda a sua obra, acrescentava, só se salvaram umas centenas de fotografias que digitalizou para que figurassem em livros e exposições: “O resto desapareceu para sempre”.

Em comunicado divulgado esta terça-feira à noite, o Le Monde lamenta que Mordzinski, “depois de ter decidido depositar os seus arquivos na sede do diário sem avisar ninguém do Le Monde, descarregue no jornal toda a responsabilidade do incidente, e que tenha posto em marcha uma campanha” nas redes sociais.

A direção, no comunicado citado pelo El País online, afirma “que nunca existiu um acordo contratual entre o Le Monde e o El País contemplando a possibilidade de que ele pudesse armazenar o seu arquivo no espaço do jornal”.

(Deu no jornal PÚBLICO, de Lisboa)

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Comentários

maria helena rr de sousa on 20 Março, 2013 at 1:21 #

Será possível que a administração da sede do Le Monde fosse tão incompetente que não soubesse que ali, numa sala do imóvel, um fotógrafo guardava seus arquivos sem ordens, sem que ninguém tivesse autorizado? Foi uma surpresa? Desculpem, mas eu duvido disso. Sabiam, deixavam lá ficar e agora que sumiram com o material, vão querer culpar o fotógrafo por guardar o arquivo no espaço do jornal. Perde o fotógrafo, perde o público por não poder conhecer rostos importantes do passado, mas mais que todos perde o Le Monde. Agiu com um jornaleco cuja sede é muito mal administrada.


maria helena rr de sousa on 20 Março, 2013 at 1:23 #

Correção: “Agiu como um jornaleco cuja sede é muito mal administrada”.


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