Maria Helena
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CRÔNICA/ Ê, BAHIA!!!

O baiano que sonhou ser Papa

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

“Pense num absurdo, na Bahia tem precedente” é frase atribuída ao ex-governador Otávio Mangabeira, célebre político baiano. É frase recorrente e nem sei dizer quantas vezes a li ou ouvi. Sempre, confesso, achando graça e atribuindo esse dito ao DNA marqueteiro dos baianos. Se há povo talentoso nessa área, seja “marquetando” para outrem, seja para si mesmo, são os baianos.

Até abrir “O Globo” de 16 de março e na página 40 encontrar um artigo de Luciano Figueiredo chamado “O Papa Imaginário – Documentos descobertos no Vaticano revelam autobiografia de baiano que sonhou ser Pontífice”.

“Hei de ser Papa” dizia o baiano Antonio Dias Quaresma, que viveu entre os séculos XVII e XVIII e cuja autobiografia, terminada de escrever em 1744, foi recentemente descoberta por dois historiadores, a professora Maria Leda Oliveira (USP) e o arquivista do Arquivo Geral da Ordem dos Servos de Maria, em Roma, Odir Jacques Dias.

O material, além da autobiografia, reúne cartas pessoais do extraordinário Antonio. Em português de nosso tempo, o cara era um fenômeno!

Lembremos que Antonio viveu numa época quando milagres, revelações, sinais da presença de Deus eram tidos como realidade e nunca como fantasia ou delírio. Conversar com o santo de sua devoção e depois relatar o papo para os amigos e parentes, não causava maiores comoções.

Mas cismar que ia ser Papa, tirar isso da cartola, por assim dizer, e nisso botar toda a sua energia, creio que é fato único.

A vida do baiano Antonio, mesmo tirando sua determinação em ser sucessor de Pedro, daria um livro e tanto só com os detalhes de seu nascimento, infância (voou pelos ares ao ser chifrado por um boi; aos 11 anos escapou de morrer afogado) e adolescência, viagens para Lisboa, Rio de Janeiro, Santos, trabalho e enriquecimento em Minas Gerais, amásias, filhos, aventuras, dono de terras e de escravos (com esses sempre mau como um pica-pau).

Acredito que o livro resultante dessas pesquisas dará um filme daqueles de filas na porta quando, durante a leitura, os bons diretores ficarem sabendo que Antonio de repente volta a ceder à sua vocação original e larga tudo para se dedicar a peregrinar pelo mundo, esmolando, sofrendo, debaixo de nova visão que lhe ordenava a fundação de uma nova religião.

E nosso Antonio acaba chegando a Roma onde consegue, em 1733, ingressar na Ordem dos Servos de Maria, para depois ser ordenado sacerdote com o nome de frei Uguccione Maria Antônio.

Em meio a visões fantásticas que incluíam ordens do Imperador, imagens suas com a estola e a tiara de Pontífice na cabeça, portas abertas em pleno ar por onde passavam figuras que só se deixavam entrever, tudo isso interpretado pelo místico Antonio como “o meu interior me dizia que era para ser Papa”.

Convencido que deveria ser Papa, dedicando seus dias às orações e a exercícios espirituais, o baiano Antônio Dias Quaresma faleceu em 1756 sem ter chegado ao Papado. Mas, pelo visto, estava escrito que sua vida aqui na Terra não passaria em branco e que ainda ouviríamos falar muito nele.

Para mim serviu como lição. De agora em diante, já sei: não adianta querer inovar. Na Bahia, certamente, será reapresentação!

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, cronista, mora no Rio de Janeiro.

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Comentários

Bia "Eagle Mind" on 20 Março, 2013 at 10:14 #

Lima Bareto nos deu Policarpo e a Bahia nos deu Antonio.
Cada Quaresma tem seu sonho, não é mesmo?


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