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ARTIGO DA SEMANA
UM A ZERO ARGENTINA, PELO MENOS!
Vitor Hugo Soares
Observar, comparativamente, o desempenho da imprensa do Brasil e da Argentina nas coberturas de acontecimentos mais relevantes e transcendentes, a exemplo desta incrível escolha do primeiro Papa latino-americano para conduzir os destinos da Igreja Católica em tempos temerários e cruciais, virou uma mania para este jornalista.
Faço este exercício prático de jornalismo ao longo dos últimos quase 40 anos de muitas e relativamente frequentes travessias entre a bela e feiticeira Salvador, na beira da Baia de Todos os Santos, e a majestosa Buenos Aires, às margens do Rio da Prata.
Como no tango famoso, que não canso de escutar na interpretação de Roberto Guayeneche, sempre “Vuelvo al Sur”.
Sinto-me, assim, bastante à vontade. Não só para arriscar um palpite, mas para emitir uma opinião neste espaço semanal sobre a cobertura dos antecedentes e do resultado do conclave que elegeu o Papa Francisco esta semana.

Se os novos tempos se apresentam franciscanos, então é preciso rasgar as vestes da vaidade e da arrogância tola e ter a humildade de reconhecer: a mídia “canarinha” saiu perdendo desta vez (a começar pelo ramerrão das repetitivas metáforas futebolística, mesmo nas solenes reportagens de textos e nas transmissões de rádio e televisão produzidas no Vaticano).

O resultado não foi uma goleada, é verdade. Quase deu empate. Mas o placar final foi de pelo menos 1 x 0, favorável aos argentinos.

Muita gente há de considerar natural que seja assim. Afinal, o grande eleito, integrante das hostes vibrantes e sempre polêmicas da Companhia de Jesus, é um legítimo portenho. Nascido no agradável bairro de Flores, por onde caminhei tantas vezes nas andanças por Buenos Aires.

Aprendi desde os anos 70, com o então Editor Nacional do Jornal do Brasil, Juarez Bahia, premiadissimo repórter (sete Esso de reportagem na carreira), mestre saudoso de teoria e prática do jornalismo (autor de livros referenciais): o dimensionamento correto e o enfoque podem fazer toda a diferença em uma reportagem ou uma cobertura. Afinal, os fatos diários publicados são praticamente os mesmos em todos os jornais. É só verificar.

Lembro agora, quando escrevo este texto, de Bahia ensinando aos seus comandados na extinta sucursal do JB em Salvador:

“Olha aqui, é preciso dimensionar bem o fato, sem amadorismos, sem paixões e bairrismos tolos. É erro grave avaliar a importância do fato e da eventual notícia que ele possa gerar, simplesmente por seu local de origem. A Bahia, por exemplo, é um lugar importante, maravilhoso em suas múltiplas nuances na cultura, na política ou na economia, mas a Bahia não é o centro do mundo. Pense nisso, quando sentar diante da máquina de escrever para produzir um texto jornalístico”, dizia o editor do JB

Na mosca.

Foi provavelmente na incorreta avaliação da dimensão do fato, e principalmente no enfoque dado à sua cobertura – na maioria dos casos -, que a imprensa brasileira começou a perder a disputa particular com a mídia argentina.

Um erro palmar foi considerar o Brasil o centro do mundo em uma cobertura jornalística de tamanha transcendência e relevância. E com tantos e tão grandiosos interesses em jogo (de cunho religioso, político, cultural, econômico e de comportamento).

Além dos interesses específicos das grandes empresas e corporações de jornais, rádios e televisões e da mídia em geral.

Diante de tamanha magnitude, cheira a equívoco crasso, por exemplo, a aposta de praticamente todas as fichas da cobertura não na isenta apuração dos fatos e dos bastidores (trabalho essencial em um conclave do Vaticano), mas na campanha escancarada de um nome  “eleito previamente” pela vontade de boa parte da mídia nacional: o do cardeal de São Paulo, D. Odilo Scherer, ou do italiano cardeal Scola, o melífluo articulador da Cúria Romana.

Outro equívoco foi o enfoque com o tom de disputa futebolística dado à cobertura da escolha do novo Papa. O destaque exagerado, folclórico mesmo, aos “torcedores” enrolados na bandeira nacional ou vestidos com a camisa do Vasco, confundidos com católicos de verdade reunidos na Praça de São Pedro à espera da fumaça branca na chaminé do Vaticano.

Daí, provavelmente, decorreram os sustos, as indecisões, a decepção estampada no rosto, a busca apressada de novas fontes para seguir o trabalho jornalístico, já que ficaria feio simplesmente jogar a toalha quando ficou evidente que o escolhido do conclave não era nem o brasileiro Scherer, nem o italiano Scola, mas sim o portenho de Flores, torcedor jesuíta do San Lorenzo, Jorge Bergoglio, agora o Papa Francisco de todos os católicos.

Que diferença em comparação com a cobertura dos ditos “fanfarrões e arrogantes” da imprensa argentina!. Modéstia franciscana nas redações e nas ruas, a começar pela frente da Catedral de Buenos Aires, no centro da capital federal, a poucos metros de distância da Casa Rosada.

Simplicidade e reflexão nos dois ambientes, mostram as imagens . Sem torcidas organizadas, sem ostentações.

O influente jornal Clarin sintetiza no título sobre o eleito: “Um conservador moderado que nunca tirou o corpo da discussão política”. E no texto: “Ontem, na Basílica de São Pedro diante de milhares de fiéis, o Papa Francisco pediu que rezem por ele.”

Um a zero para os argentinos. Pelo menos!

Vitor Hugo Soares. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

regina on 16 Março, 2013 at 6:23 #

Embora concorde com você, meu caro Vitor Hugo, que os brasileiros, ou pelo menos a imprensa brasileira, estava preparada para o gol, quando foi atropelada pela “mão divina”, mais uma vez, perdendo a cara e a compostura no processo, eu, pelo o que pude observar, acho que os argentinos foram também tomados de surpresa.
Logo que soube da escolha do novo Papa, embora tenha deixado de ser católica há muitos anos, e seguir a notícia apenas como curiosa dos acontecimentos que afetam a humanidade, me manifestei em júbilo na minha pagina do Facebook, para ser imediatamente advertida por meus amigos argentinos que me pediam cautela, pois o homem detrás do Francisco “não era trigo limpo”. A notícia que abalaria não só o papado, mas a historia dos fieis seguidores da Igreja Católica, vinha com alguns questionamentos acerca do comportamento daquele jesuíta em tempos de dolorosa história da nossa vizinha Argentina.
Temos que saber ao fundo essa história, se quiser-mos usar como exemplo o pastor, por ele mesmo reconhecido como pecador. E quem não o é ou foi no desenrolar da vida que, como todos nós sabemos, nos oferece muitos desafios…
E aí eu fico com as palavras, não tão santas, mas sem dúvidas sábias do nosso Gilberto Gil na sua Procissão:
“… Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver…”


Graça Azevedo on 16 Março, 2013 at 10:38 #

Os Soares (Vitor e Regina) brilharam: um no texto, outro nos comentários. Palmas!


Mariana Soares on 16 Março, 2013 at 12:17 #

É verdade, Gal! Desculpe a falta de modéstia, mas os dois são muito bons de pena e de cuca!
Quanto ao tema do artigo em si, não posso me manifestar, pois não o conheço muito bem, além de, muito diferente do meu irmão, não gostos dos hermanos, tampouco simpatizei com o novo Papa.


Olivia on 16 Março, 2013 at 12:36 #

Onde há fumaça… A ditadura Argentina foi uma das mais bárbaras, no mínimo, Chico foi omisso.


danilo on 16 Março, 2013 at 18:54 #

fico com a impressão que se Sarney fosse eleito Papa, os cumpanhêros locais e do continente latino americano não iriam afirmar que Sarney foi omisso, ou conivente ou apoiador da ditadura militar brasileira.


Gracinha on 16 Março, 2013 at 22:20 #

Hola! Muy ben Vitor!!! Assistir ao vivo o momento do Habemus Papan, vibrei muito com a novidade de papa latino… depois veio história de atuação na ditadura argentina… sei não… estou na torcida para que o Papa Francisco ( nome por sugestão de arcebispo do Brasil, gostei disso) possa acabar com a crise na igreja católica e nos proporcione uma Igreja mais justa, humilde e que busca a paz. De concreto vejo q CK estará na fila para saudar o novo papa, a presidente Dilma tb. A proposito li que ela n irá inaugurar fonte nova na segunda, devido a missa, verdade? Parece q são esperados 150 chefes de estados.A imprensa aqui em Madri em cobertura total, só se fala no novo Papa, reportagens longas, debates, tenho acompanhado qdo posso. Nem sei se HC vai virá mumia ou será enterrado , aqui so dar Francisco .Margarida : intensivão em espenhol é dose… mas tento risos…
No mais a viagem tem sido otima, muito frio, passeios, compras e bebidas ( q ninguem é de ferro). A cidade c inumeras atrações, agora mesmo chegamos de maravilhoso bar/show pertinho do hotel (estamos na Gran Via). Mas o numero de pedintes é imenso, chega ser chocante o numeros de pessoas dormindo ao relento no maior frio. Tb vi manisfestações por alguns lugares onde passei.
Para variar a Tim fez feio… n consigo usar meu celular. A net algumas vezes, qdo no hotel. Tá tudo bem! Grande abraço p vc e Ila


vitor on 16 Março, 2013 at 22:48 #

Fico contente com as boas notícias vindas de Madrid, uma de minhas cidades do coração, e tb com a constataçã de seus avanços na lingua de Cervantes. Parabéns e bola pra frente na viagem com Lauro e Kaká.

Sim, Dilma cancelou a vinda para Salvador na segunda-feira, e viaja para participar das cerimonias de inicio do pontificado de Francisco. Com Cristina Kirchner que será o primeiro chefe de Estado a ser recebido pelo Papa. Está no BP.

Grande abraço e mande mais notícias.

(Em tempo: Já foi ao Chicote, o restaurantes dos intelectuais em Madri?. Se for, garanto que vai adorar, comer bem, tomar bom vinho e conhecer gente interessante)


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