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Os jesuítas negam que a sua ordem, criada por Inácio de Loyola no século XVI, seja uma igreja dentro da Igreja. A verdade é que o seu superior-geral quando escolhido é, tal como o Papa, para a vida. E, por isso, lhe chamam o “Papa Negro” porque essa é a cor das suas vestes, por oposição ao Papa, o bispo de Roma, que se veste de branco. Esta quinta-feira, o superior-geral da Companhia de Jesus congratula-se com a escolha do cardeal Jorge Bergoglio, jesuíta, para o lugar deixado por Bento XVI.

“Em nome da Companhia de Jesus, dou graças a Deus pela eleição do nosso novo Papa, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, sj [as iniciais em latim para Companhia de Jesus], que abre a Igreja a um caminho cheio de esperança”, escreveu Adolfo Nicolás, o superior-geral daquela ordem, esta quinta-feira. Pela primeira vez, o Papa pertence à Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola em 1534.

Todos os jesuítas vão acompanhar com as suas orações o “irmão” Francisco e agradecer-lhe pela “generosidade de aceitar a responsabilidade de guiar a Igreja numa situação crucial”, continua o comunicado. Para Adolfo Nicolás, a escolha do nome Francisco é uma aproximação à pobreza, às pessoas mais simples e o seu compromisso para a renovação da Igreja. “Desde o primeiro momento em que ele apareceu perante o povo de Deus, ele deu um testemunho visível da sua simplicidade, da sua humildade, da sua experiência pastoral e da sua profundidade espiritual”, continua o responsável-geral dos jesuítas.

Adolfo Nicolás termina lembrando que a Companhia de Jesus continua disponível para trabalhar na “vinha do Senhor”, seguindo o espírito e os votos de obediência que une os jesuítas ao Santo Padre.

“Importante é o Papa e não o jesuíta”

Alberto Brito, provincial da Companhia de Jesus em Portugal, começa por lembrar uma história antiga. Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, escreveu os exercícios espirituais – oração, meditação, contemplação, revisão de vida com o objetivo de descobrir a vontade de Deus –, e estes começaram a ser adoptados por muitos até que o Papa Paulo III os traduziu para latim. A partir dessa altura Inácio passou a usar a versão do Sumo Pontífice e não a sua. Moral da história: os jesuítas estão sempre com o seu Papa. Aliás, Inácio de Loyola pronunciou um voto de obediência incondicional ao bispo de Roma.

Mas, em muitos momentos da História, este laço esteve tremido e os jesuítas foram vistos como um contra-poder no interior da Igreja. Por exemplo, no século XVIII, Roma tenta limitar o poder da Companhia de Jesus no Extremo Oriente, devido a conflitos com o rei Luís XIV de França. A ordem chegou a ser extinta pelo Papa Clemente XIV depois da expulsão dos jesuítas de Portugal, Espanha e França. Mais tarde, 25 anos depois, a ordem é oficialmente reabilitada.

O provincial português está feliz pela escolha do conclave mas relativiza o fato de Jorge Bergoglio pertencer àquela ordem religiosa. “O importante é o Papa e não o jesuíta”, diz ao PÚBLICO. Contudo espera que a “inspiração inaciana [de Santo Inácio de Loyola] ajude o Papa Francisco” a estar numa maior comunhão com Deus; a manter uma capacidade de diálogo com os crentes e não crentes; e a implementar o Concílio Vaticano II – que celebra o seu 50.º aniversário. “Deve ser alguém que cuide, zele, acarinhe, promova, guarde e intensifique a comunhão”, resume.

O que diferencia os jesuítas no seio da Igreja Católica? “O grande investimento que fazem na formação intelectual, no diálogo com as culturas dos países em que se encontram; e a sua autonomia”, resume Teresa Toldy, teóloga da Universidade de Coimbra.

São homens que, por norma, não têm apenas a formação teológica mas outras. São médicos, professores, engenheiros. Bergoglio tem formação em engenharia química. Aliás, a aposta que a Companhia de Jesus faz na educação é clara – em Portugal existem três colégios; só nos EUA são 28 universidades, uma delas é Georgetown com cerca de 30 mil alunos. Os jesuítas são acusados de trabalhar para as elites (pela sua aposta na educação), mas dedicam-se sobretudo aos mais desfavorecidos como os refugiados, exemplifica António Valério, diretor do centro universitário da Companhia de Jesus em Braga. “Todas as obras têm dimensão social”, sublinha.

O provincial Alberto Brito lembra que existem 90 bispos da Companhia de Jesus e que a maioria “está em missão”, “em terrenos onde pouca gente está”, na América Latina, Ásia e África. Os jesuítas vão para onde for “mais urgente, mais necessário, mais universal”, continua. E é esse espírito que Alberto Brito quer que o novo Papa não perca.

Francisco de Assis ou Xavier?
Ambos, acreditam os jesuítas Alberto Brito e António Valério. A escolha do nome é uma homenagem a São Francisco de Assis, o homem que viveu um momento crítico da Igreja e que a chamou à sua essência, à pobreza, à vivência do Evangelho. Na época actual “é importante ter um Papa que aposte na simplicidade e na verdade”, defende António Valério.

E é também uma homenagem ao santo jesuíta Francisco Xavier, o missionário por excelência, aquele que saiu de Portugal e durante 15 anos percorreu a Ásia em missão. Hoje, os terrenos da missão mudaram, já não se faz apenas no mundo descristianizado, mas no tradicionalmente católico aonde o Evangelho de Jesus encontra dificuldades para entrar, continua o padre jesuíta de Braga.

Alberto Brito espera que Francisco permita uma maior abertura da Igreja ao mundo. “É preciso renovar. Quanto mais depressa muda o mundo, mais nós temos de mudar também. Pedro Arrupe [penúltimo superio-geral da Companhia de Jesus] dizia ‘O mundo muda mesmo sem nós, de nós depende que mude connosco.’ É essa capacidade de resposta que espero”, conclui.

(Reportagem publicada na edição desta quinta-feira, 14, do jornal PÚBLICO, de Portugal.

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