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OPINIÃO POLÍTICA

Documentos e faxina

Ivan de Carvalho

Reportagem de Rubens Valente e Matheus Leitão, da Folha de S. Paulo, revelou que milhares de documentos produzidos durante o regime autoritário, de 1964 a 1985, muitos deles secretos, estavam escondidos do público, pois, ao invés de enviados ao Arquivo Nacional para catalogação e posterior disponibilização ao público, nos termos da Lei de Direito de Acesso à Informação – sancionada pela presidente Dilma Rousseff –, estavam enfurnados em ministérios onde permaneciam escondidos, fora de alcance.

A presidente, ante a notícia, determinou imediatamente que toda essa documentação será remetida ao Arquivo Nacional, catalogada a aberta ao público. É uma coisa boa. Mas lembra, com extrema semelhança, a faxina, que esteve tão em moda no seu primeiro ano de governo, mas invadiu o segundo e cujo mais recente caso rumoroso foi o Rosegate, aquela história escabrosa nucleada no Gabinete da Presidência da República em São Paulo, envolvendo gente mui amiga do ex-presidente Lula Magno.

Como as pessoas e especialmente admiradoras e admiradores da presidente Dilma Rousseff sabem muito bem, esta excelentíssima faxineira inspirou os chargistas e cartunistas brasileiros a recorrerem ao clássico instrumento da vassoura, inventada por Jânio Quadros quando candidato a presidente da República, embora existam outras versões históricas.

Uma dessas versões reza que o invento surgiu em 1797, quando Lei Dickenson, um agricultor de Hedley, em Massachussetts (sempre esses americanos querendo se apropriar de nossas invenções, o avião, a vassoura, etc.), criou uma vassoura de sorgo para sua esposa. Outra é de que seria originária de Bassora (ou Basra), uma das três maiores cidades do Iraque, antiga cidade, aquela que os ingleses tomaram e controlaram enquanto os soldados americanos cuidavam do resto país. Uma quarta versão é de que as vassouras seriam uma criação das bruxas para incremento de suas viagens.

Pessoalmente, tenho a impressão de que as vassouras – sejam as de material sintético, muito em moda nos supermercados, sejam as ecológicas, moribundas nas metrópoles, de piaçava ou de palhinhas – tiveram instrumentos precursores, os feixes de ramos, que cheguei a conhecer no interior, quando menino, sobretudo na zona rural – o usuário não precisava comprá-la com o dinheiro que não tinha, ele a fazia. Imagino que antes disso já usassem tai feixes os índios em suas ocas e tabas.

Voltando às faxinas presidenciais. A principal característica delas é que tudo estava quieto na superfície do lago Paranoá, placidez exemplar. Então de repente um veículo de comunicação social importante publicava uma reportagem com uma denúncia muito grave. Seguia-se um corre-corre, um que-negócio-é-esse? E um eu-não-sabia-de-nada-como-pode ser-isso? E um “Dilma-eu-te-amo” seguido de um tá-demitido-a-pedido. Ou mesmo sem pedido.

Ora, não posso dizer que seria impossível, mas certamente é surpreendente que em tantos e tantos casos parecidos com o modelo relatado nenhum assessor de confiança, nenhum amigo de fé e nenhum desafeto do malandro haja dito a Sua Excelência, a Faxineira, que a coisa ali ao seu derredor estava feia, suja.

Como fica estranho constatar, como destaca o jornalista Fernando Rodrigues no caso dos documentos escondidos nos ministérios – e, portanto, fora do alcance do público nos termos da Lei de Direito de Acesso à Informação–, que, em um conjunto de 500 mil funcionários públicos, não hajam alguns sido comissionados para vasculhar os ministérios em busca de previsíveis documentos não encaminhados ao Arquivo Nacional.

Pois é. Quando se raciocina sobre a faxina, a mesma questão se impõe. A presidente não cobrou em tempo, de pessoas confiáveis, informação sobre seus ministros e adjacências. Para que, então, nós, contribuintes, sustentamos a Abin?

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