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OPINIÃO POLÍTICA

A morte de Chávez

Ivan de Carvalho

Hugo Chávez morreu no fim da tarde de ontem, aos 58 anos, no Hospital das Forças Armadas de Caracas, segundo informou oficialmente o vice-presidente Nicolas Maduro, que vinha e continua à frente do governo. Pela Constituição da Venezuela, a partir da morte do presidente Chávez, nova eleição presidencial deve ser realizada no prazo máximo de 30 dias.

Os chavistas já têm praticamente seu candidato designado pelo próprio Chávez – para o caso de morrer durante o tratamento do câncer que reincidia seguidamente em sua “região pélvica”, informação mais detalhada que Chávez e o governo da Venezuela se permitiram dar ao povo durante a longa e dramática enfermidade.

A oposição ainda não tem um candidato escolhido e ontem mantinha-se em respeitoso silêncio, embora não haja a menor razão para mudar o mau juízo que faz sobre Chávez, sob o aspecto do regime autoritário, sufocador da liberdade de expressão, do exercício democrático e repressor de outras manifestações de liberdade que instalou gradual e persistentemente durante os 14 anos que esteve no poder.

Ele impôs a norma constitucional de reeleições ilimitadas, de modo que, reelegendo-se sempre, poderia ser um presidente-ditador vitalício – e conseguiu, deixando oficialmente o cargo apenas por haver morrido. Para enfrentar o quase certo candidato governista Nicolas Maduro, as oposições têm pelo menos dois nomes em campo, sendo o mais importante deles Henrique Capriles, governador do importante Estado de Miranda, que inclui parte da capital, Caracas. Ele foi o adversário de Chávez nas eleições anteriores e, mesmo perdendo, obteve votação muito expressiva.
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O câncer que levou Chávez quatro vezes à mesa de cirurgia em Cuba (afirma-se, através da espessa cortina de segredo construída, que com participação de médicos russos) não foi o que matou o idealizador da “revolução bolivariana” de segunda edição. Conforme um médico venezuelano em entrevista dada ontem à rede de televisão CNN, ele morreu devido aos problemas criados pelo rigoroso tratamento pós-operatório. Às vésperas de deixar Caracas para ir fazer a quarta cirurgia em Cuba, segundo esse médico, Chávez não tinha qualquer problema pulmonar e manteve no vozeirão normal uma conversa de mais de uma hora, testemunhada pelo entrevistado.

É evidente que, depois da cirurgia, no hospital cubano, sistema imunitário debilitado pelo trauma cirúrgico e pelos tratamentos radicais, adquiriu uma infecção hospitalar, tratada, mal contida e que prejudicou definitivamente e seriamente sua capacidade pulmonar. Com um tubo na traqueia, não podia falar – e a voz era essencial a Hugo Chávez, como já percebera o rei Juan Carlos, da Espanha.

Ao voltar há dias para a Venezuela, tudo leva a crer que Chávez era um doente terminal, do tipo “nada a fazer”, mas presidente que devia morrer em seu país e não em terra estranha. Desembarcou, foi para o hospital militar, só Nicolas Maduro falava sobre o estado dele (tudo indica que enfeitando as coisas, ao ponto de dizer que orientava as decisões principais do governo e, ante uma melhora, ia iniciar sessões de quimioterapia). Mas não mais aparecia nem em fotografia, apesar da cobrança oposicionista. Estava morrendo ou, sabe Deus, talvez em situação ainda mais avançada.

Coisas secretas são secretas, pelo menos por algum tempo. Com a morte de Chávez, Cuba perde seu mais importante aliado após a União Soviética. A morte do caudilho deverá ter influência no Equador, Bolívia, talvez Paraguai e na capacidade das FARC, que seu regime sutilmente ajudava. Também problemático para o governo de Kristina Kirchner e tranqulizador para o governo colombiano.

E o “câncer na região pélvica”? Esse mistério acabará sendo desvendado. Vale, por enquanto, assinalar que o jornalista Hélio Fernandes, há algumas semanas, afirmou em artigo na Tribuna da Internet, com ênfase, que se tratava de um câncer renal. Com metástase ampla, presume-se. Não deu indícios sobre sua fonte.

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